Deixei a IA escrever o código. O trabalho difícil começou depois...
No meu último texto por aqui, contei um experimento: montei um pequeno "estúdio" de agentes de IA — cada um com um papel — e deixei que eles construíssem um jogo, um shoot'em-up retrô em 2D. Era a fase zero. Prometi que continuaria.
Continuei. Levei o mesmo time do 2D para o 3D e, numa única noite, saiu um segundo jogo: o EMBER — você é a última centelha de luz reacendendo um mundo que se apagou, lugar por lugar.
(se quiser, você pode jogar direto no navegador: https://alliterhorst.github.io/ember-game/ — e o código está aberto: https://github.com/alliterhorst/ember-game)
Mas não vim falar do jogo. Vim falar do que aprendi no caminho — porque, sendo honesta, o aprendizado não foi sobre IA. Foi sobre o que sobra pra gente quando "digitar o código" deixa de ser o gargalo. São três coisas, e acho que valem mesmo que você nunca chegue perto de um agente.
1. "Passar no teste" não é a mesma coisa que "funcionar"
O chefão do primeiro jogo ficou imortal. Não no sentido dramático — no sentido literal: a barra de vida dele não descia com o tiro normal, só com bomba. E os testes? Todos verdes. A lógica estava aparentemente correta: o dano era aplicado. O jogo só era impossível de vencer.
Demorei pra enxergar o óbvio: quase toda verificação que a gente escreve mede correção ("o dano é aplicado?") e quase nenhuma mede experiência ("o jogo é vencível?"). São perguntas diferentes, e a segunda é a que importa pra quem usa.
O que mudou minha forma de testar depois disso: antes de assumir qualquer coisa como pronta, eu enumero o espaço de estados de quem usa. E se a pessoa chega sem power-up? Com uma vida só? Em cada combinação plausível, ela ainda consegue concluir o que veio fazer? Isso não é papo de game. É exatamente o abismo entre "o endpoint devolve 200" e "a pessoa consegue finalizar a compra".
2. O gargalo virou critério, não código
Eu não escrevi uma linha de código nesse projeto. Essa não é a parte impressionante — é a parte que me empurrou a crescer em outra direção.
Porque o código rodava. Estava tudo "pronto". E mesmo assim a trilha saía com cara de robô fingindo emoção, e numa versão o "mundo reaceso" era, sendo franca, um vazio escuro com umas formas flutuando dentro. Nada disso quebrava um teste. O que faltava era alguém com critério pra dizer "isso não está bom, de novo".
A IA gera rápido e com confiança — inclusive confiança no que está errado. Quando ela assume o "como", o que passa a decidir a qualidade é o gosto: saber recusar, saber apontar a direção, saber a diferença entre "funciona" e "presta". É um músculo que a gente subestima, porque até agora ele vinha junto com o ato de escrever. Separados, fica claro o tamanho dele.
3. Pedir ajuda também é um processo — e talvez seja a parte mais humana de todas
Em algum momento, um dos agentes ficou tentando resolver a mesma coisa pela força bruta: repetindo a mesma abordagem várias vezes, sem sair do lugar. Em vez de só mandar "tenta de novo", dei a ele uma regra simples: depois de três ou quatro tentativas sem avanço, pare e busque ajuda — pesquise, traga outra referência, procure um olhar de fora.
Antes de virar isso uma regra, fui ver como as pessoas lidam com estar travadas. Encontrei coisas lindas de tão simples. Tem a regra dos 15 minutos: você tenta por conta própria por 15 minutos e, passou disso, você tem que chamar alguém — não como sinal de fraqueza, mas como um combinado de time, uma rede de segurança pra todo mundo. Tem o rubber duck: explicar o problema em voz alta, passo a passo, até pra um patinho de borracha — porque o ato de narrar já faz o erro pular na tela. E tem o óbvio que a gente sempre esquece: às vezes a saída não é insistir por conta própria, é trazer outra cabeça pra olhar junto.
O que me encantou foi perceber que acabei dando à máquina um pedacinho da nossa coisa mais humana: levantar a mão e dizer "tô travada aqui, preciso de ajuda". A gente é criada num jeito que romantiza dar conta de tudo por conta própria — e esquece que pedir ajuda, trocar ideia, fazer um brainstorm com alguém de fora costuma ser o caminho mais curto (e mais leve).
O que ficou
A IA não me substituiu. Ela mudou o que é o meu trabalho. Tirou de mim boa parte do "como escrever" e me devolveu, com mais peso, o "o que vale a pena", o "isso está realmente bom?" e o "será que não é hora de pedir ajuda?".
E é aqui que eu queria chegar, com cuidado — porque sei que é um tema que mexe com a gente. Sim, os paradigmas estão mudando; não vou fingir que não. Mas, pelo menos no que eu tenho vivido, as coisas que ficaram mais valiosas são justamente as mais humanas: ter critério, ter gosto, saber verificar, e saber pedir ajuda e pensar junto. A área está se transformando — e segue tendo muito espaço pra gente dentro dela.
Sigo compartilhando esses experimentos por aqui e, em primeira mão, no meu LinkedIn — é lá que eu trago os resultados conforme eles acontecem. Se quiser acompanhar de perto, vai ser um prazer ter você junto.
E fico com uma pergunta de verdade: qual foi a vez em que pedir ajuda destravou algo que você insistia em resolver por conta própria?