Não se criam pensadores como antigamente
Tenha senso crítico e viva o agora
Quantas vezes ao dia você se dá a oportunidade de refletir sobre as coisas que consome? Aquilo que ocorre no seu dia a dia e é simplesmente ignorado — jogado na "lixeira" da mente — pode ter um valor imenso quando observado com mais calma. O primeiro passo para pensarmos com clareza é prestar atenção. É preciso dividir o pensamento, refletir e aguentar o desconforto de analisar algo para, enfim, extrair uma conclusão.
Nem tudo precisa ser documentado ou tratado como revolucionário; 99,9% do input que nosso cérebro recebe é descartável. No entanto, o que deve ser mantido ou descartado cabe exclusivamente à pessoa presente naquele momento.
Para aprender, primeiro admita sua ignorância
Todo mundo que passou pelo currículo educacional básico já escutou, na clássica aula de filosofia que a maioria busca ignorar, a máxima de Sócrates:
"Só sei que nada sei."
Essa frase deveria causar um impacto maior do que o seu tamanho sugere. Quando admitimos que ignoramos algo, nos colocamos em uma posição de humildade e abrimos espaço para o novo. Afinal, sempre haverá algo a ser aprendido. Tão importante quanto dedicar seu tempo a aprender o desconhecido é entender qual o impacto que essa informação tem em sua vida. E aqui, precisamos falar sobre crenças.
Sua realidade é ditada pelas suas crenças (ou sua cultura)
Recentemente, li "O Almanaque de Naval Ravikant"1, um livro que se propõe a ser um manual para a riqueza e a felicidade. É uma reunião de insights sobre os quais pretendo escrever mais no futuro, pois ainda há muito a processar. O ponto principal aqui, contudo, não é o livro em si, mas suas recomendações: há ouro para quem se dispõe a pesquisar as referências citadas.
Acabei chegando a um ensaio de Kevin Simler intitulado "Crony Beliefs" (Crenças de Compadrio)2, que busca responder: "Até que ponto uma crença afeta a forma como enxergamos o mundo?". Este é um tema que já havia despertado meu interesse, mas que eu nunca tinha aprofundado. Simler divide nossas crenças em dois tipos: as Meritocráticas e as de Compadrio.
No contexto de Simler, o "compadrio" não é apenas dar um cargo para um amigo (vale a pena pesquisar o significado completo), mas dar um cargo na sua mente para uma ideia só porque ela é "amiga" da sua imagem social.
É raro ver alguém admitir um erro sobre crenças pessoais. Muitas vezes, essas crenças estão amarradas à identidade e à reputação. Um advogado, por exemplo, ficaria revoltado se questionado na frente de seus pares: "Cadê sua oratória? Não aprendeu a falar na faculdade?". Isso ataca não apenas sua competência, mas sua reputação, essencial para a prática do compadrado. Ninguém faz negócios com quem tem a reputação manchada.
Levando isso para a aprendizagem: como alguém que crê ser merecedor de sua posição — sendo competente ou não — poderia admitir que o que pratica há anos talvez não seja sua melhor qualidade? É necessário uma humildade tremenda para reavaliar a própria identidade.
É aqui que entram as Crenças Meritocráticas. Elas são ferramentas que têm o potencial de explicar a realidade de forma precisa. Ao utilizarmos métodos falseáveis (como o científico) e "lentes analíticas", aplicamos a criticidade ao que consumimos.
Livros são a fonte primária para a crítica
Hoje, fazemos um esforço tremendo para aumentar o nível de abstração das coisas, tornando-as mais palatáveis e simples. Em uma sociedade que não consegue manter o foco por dez segundos, a conveniência vence. No entanto, ao simplificar tudo, eliminamos o espaço para a reflexão e para conclusões divergentes. Reduzimos o espaço para o novo.
"Reduza a capacidade do ser humano de criticar e de exercer sua criatividade, e não seremos muito diferentes de robôs que somente compreendem zeros e uns como linguagem universal." — do Carmo, Eduardo.
Ao acessarmos o material primário — livros e documentações — temos mais liberdade para decidir o que é relevante, adicionando nossa própria interpretação e metodologia. Isso não elimina a necessidade de educadores; pelo contrário, uma base sólida é vital, dado o número alarmante de analfabetos funcionais34 no Brasil.
O uso do material primário somado às notas de um educador experiente é a solução. O pensamento crítico é o que nos diferencia dos demais animais e nossa principal defesa quando grupos tentam manipular nossa realidade.
Conclusão
Busque conhecimento. Pare de ser apenas um receptor passivo de inputs que não reflete sobre como isso modula sua vida. Adquira sua liberdade através do estudo; é a única coisa que não podem lhe retirar.
Sapere Aude — Ouse saber.
No final das contas, este texto é apenas um clamor mínimo nesse mar infinito que é a "Internet", leia mais.
Referências
Sobre o futuro
Vou publicar estes posts em um blog pessoal no futuro, volto aqui pra avisar quando estiver pronto.
Footnotes
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Jorgenson, Eric. O Almanaque de Naval Ravikant: Um Guia para a Riqueza e a Felicidade. (Reunião de insights e palestras de Naval Ravikant). ↩
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Simler, Kevin. "Crony Beliefs". Melting Asphalt, 2019. ↩
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Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) - Dados e estatísticas sobre a população brasileira. ↩
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Analfabetismo funcional no Brasil - Matéria e dados estatísticos do G1. ↩