O TabNews virou um reflexo do mercado. O que podemos aprender com isso?
Por muito tempo, fiz tudo o que ouvia dizerem. Sites de notícias, pesquisas, influencers e tendências falavam, e eu tentava seguir. Afinal, aquela pessoa tinha milhares de seguidores, parecia bem-sucedida, tinha uma faculdade renomada, trabalhava em uma empresa conhecida ou já havia passado por multinacionais.
Durante muito tempo, pensei:
“Quem sou eu para discordar de alguém que conquistou coisas que eu ainda não conquistei?”
Demorei 5 anos para entender como o mercado realmente é, Hoje percebo que grande parte da internet transformou autoridade em produto.
Cenários bonitos, câmeras caras, cortes rápidos, prints de faturamento, promessas de liberdade financeira e discursos motivacionais se tornaram uma fórmula extremamente lucrativa. Muitas vezes, o modelo é sempre o mesmo: mostrar um resultado fora da curva, convencer as pessoas de que estão atrasadas e vender a solução em forma de curso, mentoria ou comunidade. Em geral, quem gera mais lucro nesse processo é o iniciante que está começando, pois é ele quem está em fase de aprendizado e mais suscetível a esse tipo de promessa.
Também é o público mais numeroso, algo que pode ser observado nas visualizações de vídeos voltados para iniciantes no YouTube. Esse grupo concentra a maior quantidade de pessoas e, por isso, tende a ter maior potencial de consumo.
O problema é que sucesso real não funciona como propaganda. Não existe fórmula simples para construir conhecimento profundo, desenvolver habilidades complexas ou criar algo relevante.
Ao mesmo tempo, a internet criou um ambiente onde aparência de competência muitas vezes vale mais do que competência real.
Plataformas digitais ajudaram a acelerar isso. Algoritmos normalmente recompensam frequência, retenção e engajamento, não necessariamente profundidade técnica. Um conteúdo superficial com boa edição pode alcançar milhões de pessoas, enquanto materiais extremamente técnicos muitas vezes ficam restritos a nichos pequenos.
Isso não acontece apenas com influencers. Esse comportamento está se espalhando para plataformas, empresas, mercado de trabalho e até para a forma como consumimos conhecimento.
Hoje, praticamente tudo é otimizado para retenção, crescimento, métricas e faturamento.
- Redes sociais brigam por atenção.
- Empresas brigam por redução de custos.
- Plataformas brigam por engajamento.
- Influencers brigam por visualizações.
- Aplicativos brigam pelo máximo de tempo de uso.
E, no meio disso, qualidade, profundidade, sustentabilidade e impacto de longo prazo frequentemente deixam de ser prioridade.
Isso não é apenas opinião. Existem precedentes históricos claros.
Na década de 1920, fabricantes como Philips, Osram e General Electric participaram do chamado “Cartel Phoebus”, um acordo que padronizou a vida útil das lâmpadas em cerca de 1.000 horas. O objetivo era reduzir durabilidade para aumentar consumo e vendas recorrentes.
Décadas depois, vimos casos parecidos em outros setores:
- produtos difíceis de reparar;
- baterias seladas;
- software por assinatura substituindo licenças permanentes;
- atualizações que tornam hardware antigo mais lento;
- impressão bloqueada por software;
- empresas dificultando manutenção independente.
O incentivo econômico quase sempre aponta para crescimento constante, consumo recorrente e maximização de lucro.
Em muitos casos, o próprio usuário também participa desse ciclo. As pessoas querem soluções rápidas, atalhos, facilidade e resultados imediatos. Isso cria um mercado onde simplificação excessiva frequentemente vende mais do que conhecimento profundo.
O problema é que esse modelo começa a afetar diretamente pessoas comuns.
Quando um curso ruim promete carreira rápida em tecnologia para milhares de pessoas sem entregar base real, o dano não é apenas financeiro. Muitas vezes, alguém investe anos da própria vida seguindo uma direção errada.
Em alguns casos, a pessoa:
- entra em dívida;
- perde tempo;
- abandona áreas onde poderia ter sido boa;
- aceita trabalhos ruins por necessidade;
- ou simplesmente desiste.
O impacto psicológico também existe. Muitas pessoas entram na tecnologia acreditando em promessas irreais de crescimento rápido, salários altos imediatos e estabilidade garantida. Quando encontram a realidade do mercado, acabam frustradas, ansiosas ou acreditando que falharam individualmente.
E isso gera outro efeito: profissionais mal preparados entram no mercado produzindo software ruim, arquitetura ruim e soluções frágeis.
O impacto disso é real.
Empresas perdem dinheiro com contratações ruins, projetos atrasam, produtos falham e equipes inteiras sofrem com baixa qualidade técnica. O próprio mercado brasileiro de tecnologia frequentemente reclama da dificuldade de encontrar profissionais qualificados, enquanto ao mesmo tempo existe uma explosão de conteúdo superficial ensinando atalhos rápidos para “ganhar dinheiro programando”.
Isso cria uma falsa percepção de abundância de conhecimento. Nunca existiu tanto conteúdo disponível gratuitamente, mas ao mesmo tempo nunca foi tão difícil separar material realmente útil de entretenimento disfarçado de aprendizado.
O sistema inteiro acaba entrando em conflito consigo mesmo.
As empresas querem:
- profissionais experientes;
- salários baixos;
- alta produtividade;
- baixo custo operacional.
Os profissionais querem:
- estabilidade;
- crescimento;
- salários melhores;
- menos desgaste.
Os clientes querem:
- preço baixo;
- entrega rápida;
- alta qualidade.
Na prática, nem sempre essas três coisas conseguem coexistir.
Muitas empresas também contribuem para esse problema ao exigir experiência prática em ferramentas e cenários que quase nenhum ambiente educacional ensina. O mercado pede profissionais “prontos”, enquanto boa parte da formação continua distante da realidade operacional das empresas.
Nos últimos anos, isso ficou ainda mais evidente com a onda de layoffs globais em tecnologia. Enquanto empresas investem bilhões em inteligência artificial e automação, milhares de profissionais são desligados em nome de eficiência operacional e redução de custos.
O dinheiro continua existindo. Ele apenas muda de direção.
Ao mesmo tempo, o Brasil demonstra constantemente capacidade técnica quando existe execução séria. O PIX é um exemplo claro disso. Um sistema financeiro nacional conseguiu criar transferências instantâneas, gratuitas e escaláveis em um país continental, reduzindo drasticamente a dependência de taxas bancárias e simplificando pagamentos digitais.
Isso mostra que o problema brasileiro não é incapacidade intelectual.
Durante muito tempo pensei que países desenvolvidos fossem simplesmente “mais inteligentes”. Depois imaginei que tudo fosse falta de dinheiro. Hoje acredito que o principal problema é outro: conhecimento aplicado em larga escala.
- conhecimento técnico profundo;
- educação de qualidade;
- formação sólida;
- pesquisa;
- engenharia;
- execução.
Porque dinheiro existe.
Empresários investem bilhões todos os anos quando enxergam potencial real de retorno. O mercado brasileiro movimenta trilhões. Pessoas consomem tecnologia diariamente. Empresas pagam caro por soluções que resolvem problemas reais.
Então a pergunta deixa de ser:
“Existe dinheiro?”
E passa a ser:
“Existe capacidade técnica suficiente para construir algo competitivo?”
O Brasil possui profissionais extremamente competentes, mas normalmente eles surgem apesar do sistema, não por causa dele.
Grande parte aprende sozinha:
- estudando fora da faculdade;
- lendo documentação;
- construindo projetos próprios;
- errando repetidamente;
- trabalhando além do necessário para alcançar um nível técnico alto.
Grande parte dos profissionais acima da média acaba se formando através de comunidades específicas, documentação oficial, projetos reais, open source, tentativa e erro e experiência prática acumulada ao longo do tempo.
Enquanto isso, escolas ruins, faculdades fracas, cursos rasos e conteúdo superficial continuam formando pessoas sem base sólida.
E não existe milagre nisso.
Não é possível construir bons engenheiros, médicos, pesquisadores ou desenvolvedores em massa sem educação forte, profundidade técnica e incentivo real à qualidade.
Conhecimento técnico profundo normalmente exige anos de prática, estudo e contato com problemas reais. Porém, a internet moderna foi construída para consumir conteúdo rápido, e não para desenvolver profundidade intelectual.
Talvez por isso exista uma sensação crescente de superficialidade em praticamente tudo: conteúdo, software, redes sociais, mercado de trabalho e até nas relações profissionais. O sistema recompensa velocidade e escala, enquanto qualidade normalmente exige tempo, profundidade e construção lenta.
No final, tudo volta ao mesmo ponto:
Quando dinheiro se torna o único indicador importante, qualidade começa a perder espaço.
E quando qualidade perde espaço por tempo suficiente, o impacto eventualmente retorna para toda a sociedade.
Essa semana vi um vídeo que fala exatamente sobre todo esse problema do sistema. Já vi vários vídeos de vários influencers falando a mesma coisa. Infelizmente, essa é a realidade do mercado.
https://youtu.be/boja8Imivsw?t=37
Em resumo, Ele explicou que parou de gravar a saga completa do desenvolvimento do jogo porque os vídeos tinham baixa retenção. Apesar de mostrar o processo real, codando do zero, poucas pessoas assistiam até o final, enquanto o trabalho para gravar e editar consumia muito tempo. Com isso, decidiu mudar a estratégia ao perceber que o público tinha mais interesse em ver o jogo pronto do que acompanhar o desenvolvimento passo a passo.