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A soberania que a gente não pediu para ter

O texto anterior terminou com uma frase honesta: os melhores problemas estão do lado de fora da nossa bolha. Mas tem um problema específico que a TI brasileira quase nunca olha de frente. Não é de outra área, nem de outro setor. É um problema de país.

O Brasil forma engenheiros e programadores de alto nível. Manda pesquisadores para os melhores laboratórios do mundo. Contribui com código em projetos de infraestrutura global. E, no final, mais de 95% dos dados de empresas privadas e serviços digitais brasileiros residem em servidores estrangeiros, AWS, Azure, Google Cloud, sob jurisdição de leis que o Brasil não escreve, como o US Cloud Act americano. Esses três players sozinhos detêm 78% do mercado de nuvem pública no país.

A "nuvem brasileira" é, na prática, território estrangeiro.

Não é moralismo. É observação.

A IA democratizando o acesso ao desenvolvimento é real. Mas democratizar para quem? Para o profissional brasileiro usar ferramentas que ele não controla, em infraestrutura que ele não possui, sobre modelos cujos vieses e políticas de uso podem mudar amanhã? Mais de 90% das implementações de IA generativa em empresas e órgãos públicos brasileiros rodam sobre GPT-4 ou Llama, modelos cuja lógica interna ninguém aqui audita, e cuja continuidade ninguém aqui garante. Isso não é autonomia. É dependência com interface bonita.

E o problema não é técnico. Nunca foi. É político.

Existe uma distância histórica entre o engenheiro brasileiro e a ideia de que o que ele faz tem consequências geopolíticas. A cultura técnica, a mesma que criou o gatekeeping descrito antes, também criou uma separação silenciosa entre "fazer tecnologia" e "pensar o país". Como se o programador vivesse numa dimensão onde nação não é variável relevante.

Mas ela é.

Enquanto o Brasil investe 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, a Coreia do Sul investe 4,9% e a China, 2,4%. A China criou em 2024 um fundo estatal de US$ 47,5 bilhões focado exclusivamente em chips e inteligência artificial, dinheiro tratado como investimento em segurança nacional, não como despesa. A Índia tornou-se o segundo maior fabricante de smartphones do mundo em volume, reduzindo a dependência de importações em menos de uma década de política deliberada. Esses países não são exemplos perfeitos. Mas todos entenderam que tecnologia não é só produto de exportação, é coluna vertebral de soberania.

O Brasil sabe disso também. Só que esquece com frequência.

A Embrapa devolve R 12,38 para a sociedade a cada R 1,00 investido e fez o agronegócio brasileiro ser referência mundial por meio de pesquisa nacional de biotecnologia. A Petrobras depositou 130 patentes em um único ano, muitas delas em tecnologia de extração em águas ultraprofundas que o mundo não sabia fazer antes dela. A Embraer detém 30% do mercado global de aviação executiva e lidera o segmento de jatos comerciais de até 150 assentos. O país sabe fazer tecnologia estratégica quando decide que vai fazer.

O que falta é que os programadores e engenheiros se enxerguem como parte dessa decisão.

Tem um detalhe que essa narrativa costuma ignorar: enquanto o Brasil exporta sua infraestrutura digital, ele também exporta seus melhores profissionais, sem que eles precisem sequer trocar de cidade. As contratações de desenvolvedores brasileiros por empresas americanas e europeias cresceram 450% entre 2020 e 2024. Um desenvolvedor sênior ganha entre R 15 e R 22 mil em empresas nacionais, e entre R 25 e R 40 mil trabalhando para fora, sem sair de casa. Não é uma escolha errada de quem aceita. É o sintoma mais visível de um mercado interno que nunca recebeu as condições para competir. O Brasil não tem um projeto de atração e retenção de talentos técnicos estratégicos, tem apenas o mercado, e o mercado responde ao câmbio.

Mas não é só diagnóstico o que existe. O Sabiá-2, desenvolvido pela Maritaca AI, é um modelo de linguagem treinado com dados brasileiros que supera o GPT-4 em exames nacionais como OAB e ENEM, prova concreta de que é possível construir IA soberana que entenda o contexto jurídico, cultural e linguístico do país. O governo federal lançou o PBIA, Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com previsão de R 23 bilhões até 2028, incluindo a compra de supercomputadores para não depender de processamento estrangeiro. A CEITEC, fabricante nacional de chips, sobreviveu à tentativa de liquidação e retoma operações com orçamento previsto entre R 100 e R$ 150 milhões.

São embriões. Frágeis, subfinanciados, politicamente vulneráveis. Mas existem.

A virada que o texto anterior descreveu, de infraestrutura para resolução de problemas, de gatekeeping técnico para abertura de bolha, tem uma camada que ainda não tinha sido nomeada. Mais honesto também significa mais político. Não no sentido partidário, mas no sentido de quem entende que o que constrói tem peso, tem direção, tem consequência. O programador que aprendeu a sair da bolha técnica e entender o problema do agrônomo, do advogado, do enfermeiro, pode aprender a entender o problema do país. É o mesmo movimento: ampliar o escopo do que conta como "problema meu".

Não falo de nacionalismo de bandeira. Falo de governança de dados como política de Estado. Falo de um país que ainda não decidiu coletivamente o que fazer com o fato de que sua vida digital, os dados de saúde dos seus cidadãos, os registros jurídicos, os fluxos financeiros, a infraestrutura crítica, trafega majoritariamente por servidores que obedecem a outras jurisdições. Essa não é uma decisão que um desenvolvedor resolve ao escolher onde hospedar seu projeto. É uma decisão que um país precisa tomar como nação, com legislação, com investimento, com projeto de longo prazo.

A soberania tecnológica não nasce da consciência individual de cada programador. Nasce de um projeto nacional que decida que dados são infraestrutura, que modelos de IA são questão de segurança, que chips são tão estratégicos quanto petróleo. O Brasil já entendeu isso em outros setores, energia, aviação, agro. A pergunta é quando vai entender em tecnologia. E quem vai cobrar essa resposta, se não os profissionais que vivem dentro do problema todos os dias.

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