“Mas Eu Sou Sênior”: O Autoengano da Classe Trabalhadora da TI e a Hora de Acordar
O que me fez parar foi um vídeo. Um cara, americano, programador, olhando para a câmera com aquele brilho no olhar de quem perdeu o chão. Ele perdeu o emprego para a IA. Ele era da TI, assim como eu, e enquanto ele falava, eu não conseguia parar de pensar em Karl Marx. Não o Marx dos livros didáticos, mas o cara que olhou para as máquinas da Revolução Industrial e viu ali a promessa de emancipação. Se a máquina faz o trabalho de cem, a lógica mais básica diz que a gente deveria trabalhar uma fração disso, viver melhor, ter tempo pra viver. Mas a gente sabe que não é assim que funciona. Quando a automação está a serviço do burguês, daquele tipo que não sabe nem limpar a própria bunda, como o Zuckenberg ou os outros bilionários patéticos que andam por aí, ela vira chicote. Ela não nos liberta, ela nos transforma em carne descartável.
E aí eu me pergunto, e me pergunto com raiva: por que a gente se entrega tão fácil? Os caras soltam uma estatística qualquer, dizem que 70% dos empregos vão sumir, e a gente responde com um encolher de ombros. "É, não tem jeito, vamos passar fome, fazer o quê". Como assim, fazer o quê? Nós construímos essa porra toda. Cada servidor, cada linha de código, cada algoritmo que roda no mundo hoje passou pelas mãos de gente como a gente. A infraestrutura é nossa. Nós que mandamos no mundo, não meia dúzia de playboy que mal sabe ligar o computador sem ajuda. Por que a gente aceita isso com tanta passividade?
A resposta é amarga, mas a gente precisa encarar. A gente foi comprado. Durante anos, a gente recebeu salários gordos, benefícios, escritórios coloridos e a ilusão de que era especial, de que era sócio, de que a inteligência nos colocava acima da massa. Mas a gente era só o proletário de luxo, aquele que ganha migalhas banhadas a ouro enquanto os acionistas nadam no dinheiro que a gente produz. Aí veio a IA, e em vez de nos unirmos, cada um correu pra aprender a usar a ferramenta contra o próprio colega. A gente comprou a ideia de que isso é inevitável, de que é um tsunami natural, e se acreditamos nisso, a gente aceita a demissão calado, vira Uber, enquanto eles embolsam o lucro da nossa obsolescência. É o truque mais velho do mundo, e a gente caiu direitinho.
Mas o que nos impede de virar o jogo? Nada, a não ser o medo que a gente deixa plantar na cabeça. A verdade é que a IA não é nenhum deus onipotente. Ela é uma calculadora gigante que alucina, que erra, que depende de dados limpos que a gente mesmo rotula e fornece. Se a gente simplesmente parar de alimentar essa máquina, ela morre. Se a gente se organizar pra sabotar os dados com erros sutis, com vieses que só a gente sabe colocar, ela se torna inútil pro patrão, mas completamente dependente da gente pra ser consertada. A gente tem a chave do castelo. Literalmente. A gente tem as senhas mestras, conhece os gargalos dos sistemas críticos, sabe onde o calo aperta. Se todos os programadores do mundo resolvessem desacelerar o ritmo, entregar só o mínimo do mínimo, a produtividade despencava e a IA não ia resolver, porque ela só acelera quem tá correndo, não quem tá parado.
E não para por aí. Enquanto eles promovem layoffs, a gente pode simplesmente se juntar. Grupos de demitidos fundando cooperativas de tecnologia, sem acionistas sanguessugas, sem CEO bilionário, gerindo o negócio de forma horizontal e dividindo o lucro igualmente. A pauta é clara: a gente entrega o mesmo serviço que a Big Tech, mas com jornada de quinze horas semanais e decisões coletivas. Quando o talento começar a migrar em massa pra esse modelo, o sistema velho vai definhar. E o mais importante: a gente não pode cair na conversa do nacionalismo e do ódio ao imigrante. O programador indiano que trabalha quatorze horas por dia e o americano que foi demitido são aliados, não inimigos. A revolução tecnológica só vinga se for global, conectada por canais descentralizados, onde a gente troca ideia sem filtro e sem patrão ouvindo.
Esse é o momento da virada, porque quando todo mundo percebe que não tá seguro, que a corda arrebentou pro nosso lado, a gente descobre que não tem mais nada a perder. E quando você não tem nada a perder, você fica perigosamente livre. A revolução não vai vir com barricadas na rua. Vai vir com uma greve geral dos dedos que teclam, coordenada em silêncio. Quando os bilionários perceberem que o Pix não cai, que a bolsa não atualiza, que o chatbot não responde, eles vão implorar por acordo. E aí a gente vai poder dizer: reduz a jornada pra quinze horas, divide o lucro da automação, ou deixa o sistema queimar.
A gente construiu esse mundo, camarada. A gente tem o direito de decidir pra quem ele serve. O amanhã é nosso, ou não vai ser de ninguém.
Ah, mas você aí, ó nerd de meia-calça e camisa de estampa de anime, o iluminado que está lendo isso com aquele sorriso cínico de canto de boca, pensando: “bonito discurso, camarada, mas eu sou diferente, eu sou o 10x, eu sei fazer engenharia de prompt em três idiomas, tenho o curso do Andrej Karpathy salvo nos favoritos e decorei a arquitetura do transformer enquanto tomava café”. Pois senta que o tombo vai ser mais alto que sua arrogância, filho. O bilionário não liga se você sabe a diferença entre QLoRA e PEFT ou se tem estrelinha no GitHub; ele liga para a sua linha na planilha de custos, e você custa caro, muito caro. Se a IA faz oitenta por cento do que você faz, ele não vai te manter por causa dos vinte por cento restantes, ele vai contratar três juniores desesperados pagando metade do seu salário e uma assinatura Premium do ChatGPT, e vai rir da sua cara enquanto você atualiza o LinkedIn. A sua “genialidade” não é uma armadura, é uma sentença de guilhotina, porque você é caro demais para ser mantido e orgulhoso demais para perceber que é tão descartável quanto o estagiário que você esnobava no almoço. Você vai ser o primeiro a rodar, não o último, e vai chorar com seu certificado de Harvard no perfil enquanto a IA gera uma carta de demissão em tom motivacional para você. Para de fantasiar que vai escapar do naufrágio porque nada melhor que a gente, porque você vai afundar junto, e a única diferença é que, enquanto a água entrar no seu pulmão, você vai ficar repetindo “mas eu era sênior, por que eu?”, e a resposta vai ser seca e direta: porque você também é trabalhador, e na hora do aperto, o único título que importa pro patrão é “custo variável”.