O maior bloqueio do meu produto não era preço nem interface: era o que o usuário tinha que me entregar primeiro
Alguns aqui já viram: eu construí um tribunal onde a sua ideia de negócio vai a julgamento de verdade. Um elenco de IAs de casas diferentes faz a acusação, sustenta a defesa, ouve testemunhas, um júri vota e um juiz escreve a sentença. Tudo ao vivo, e a nota final é calculada a partir do voto do júri, não é uma opinião simpática de um modelo.
Só que, para isso funcionar, eu preciso de uma coisa desconfortável logo na primeira tela: que a pessoa escreva a ideia dela, inteira, num campo de texto de um site que ela não conhece.
E durante meses o feedback que mais voltou não foi sobre preço, nem sobre a nota, nem sobre a interface. Foi sempre a mesma frase, em versões diferentes: por que eu contaria a minha ideia para um estranho?
A resposta padrão do mercado para isso é uma página de política de privacidade e um pedido implícito de confiança. Eu já tinha feito a parte fácil desse dever de casa: a ideia não vai para analytics, não aparece em log, o roteamento só passa por provedor que não retém e não treina com o texto, e não existe nenhuma tela de admin onde eu, ou qualquer pessoa, abra a ideia dos outros para ler. Só que tudo isso continua sendo promessa. É exatamente a mesma frase que todo mundo escreve, e quem está do outro lado sabe disso.
Ficou uma pergunta que eu não conseguia responder com honestidade: e se o banco vazar?
Enquanto a resposta fosse "aí já era", a promessa não valia de nada. Hoje subiu a resposta de verdade: a ideia entra cifrada em repouso e a chave que abre não mora no banco. Se o banco vazar sozinho, num dump, num backup esquecido ou numa injection, o que o atacante leva é texto ilegível. Esse é o escopo exato da promessa, e é o único que eu me sinto confortável em publicar.
Duas coisas que eu aprendi no caminho e que valem mais que a criptografia em si.
A primeira: o texto sensível quase nunca está só onde você acha que está. Cifrar o campo da ideia seria fácil e seria mentira. A ideia se espalha por tudo que o produto gera depois dela: acusação, defesa, sentença, resumo, sinopse, o depoimento de cada persona, e principalmente o stream de eventos que alimenta a sala ao vivo, que duplicava todo o texto sensível de novo. Metade do trabalho foi caçar por onde o texto vazava de lado.
A segunda: a regra da casa aqui é que a frase de venda só sobe depois que o código cumpre ela inteira. Nada de lançar a copy pela metade, com o campo da ideia cifrado e o replay ainda lendo em claro. Isso incluiu migrar todos os julgamentos que já existiam, porque uma promessa que só vale para quem chegar depois de hoje é uma promessa quebrada para quem confiou primeiro.
O contraintuitivo, para mim, foi perceber que isso não só uma feature de segurança. É também feature de conversão. Pelo menos aqui, o bloqueio número um nunca foi preço.
Se quiser ver rodando: https://www.tribunaldeideias.com.br