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Um Nó na Garganta - O Agente Secreto - Gurgel Motores - O Futuro que trocamos por espelhos - Análise Pessoal

Fui assistir a "O Agente Secreto" com o coração aberto. Esperava a assinatura brasileira inconfundível, aquele gosto agridoce de brasilidade que aprendi a amar em filmes como "Saneamento Básico, O Filme" ou a melancolia potente de "Ainda Estou Aqui". E o filme me entregou tudo isso. Eu vi a tela, mas o que senti foi a vida, a morte, o peso de ser brasileiro que o filme tenta brandamente amargo passa. Eu vivi partes daquele filme. Eu conheci aquelas pessoas — não os atores, não as figuras históricas, mas os arquétipos: a vó acolhedora, o pai distante, quem representa e usa o estado para oprimir, o jeito malandro, a esperança, o nojo, e por um fim sem dramatizar a morte, um gosto amargo como um remédio necessário.

Eu estava preparado para o drama, para o suspense, para a estética. Mas eu não estava preparado para a patente ficticia do filme.

Quando a trama revelou que o personagem de Wagner Moura, um cientista fugitivo em 1977, carregava o segredo para uma tecnologia avançada de baterias de lítio, algo dentro de mim quebrou. Não foi apenas uma virada de roteiro; foi um soco no estômago. Um nó na garganta se formou e se recusou e desceu com um gosto de "não é impossível".

Ali, a ficção se misturou com uma realidade indigesta. Aquele MacGuffin do filme não era mágico; era plausível. Era o elo perdido da nossa história industrial. Imediatamente, minha mente viajou para o Gurgel Itaipu, nosso carro elétrico pioneiro que fracassou não por falta de engenharia, mas por falta de investimento e interesse do estado, com o próprio estado, fazendo politica particular para pessoas que tinha o poder, e re resolveram enfiar no C#. Se aquela patente fosse real — e quem garante que variantes dela não foram silenciadas? — o Brasil poderia ter liderado a transição energética global quarenta anos antes de Elon Musk pensar em comprar a telas dos verdadeiros criadores.

O que senti não foi apenas tristeza; foi ódio. Um ódio visceral, "nojento" e podre, de perceber que a história dos inventores apagados e das teorias de conspiração, não é só coisa de filme de espião. É a história da nossa submissão. Não só por matar eles, mas por compra-los.

O filme escancara uma ferida que eu já constato todos os dias: o poder do conhecimento ainda se ajoelha diante do poder monetário.

É revoltante ver como a inovação, a genialidade e a soberania intelectual são tratadas como mercadorias perigosas. Se o conhecimento ameaça o lucro de um monopólio ou a estabilidade de um regime, ele é sufocado. O filme mostra isso de forma crua: não importa o quão brilhante você seja, se você não tem o capital ou as armas, você é uma presa.

Eu saí daquela sessão com uma certeza amarga: eu cansei de esperar pelo futuro. A promessa de que "um dia o conhecimento vencerá" é uma mentira contada para nos manter dóceis. Eu já desisti de esperar que a justiça histórica aconteça naturalmente.

Eu quero isso agora. Eu quero isso para ontem.

Não basta mais apenas "saber". O conhecimento precisa aprender a brigar. Ele precisa deixar de ser uma atividade passiva de laboratório e se tornar uma ferramenta de ocupação. Se a indústria nacional foi sabotada por interesses estrangeiros ou pessoais, mesquinhez interna nos anos 70 até hoje, o que estamos deixando acontecer de errado? Onde estão as nossas patentes? Onde você está ?

Eu quero engajar. Eu quero fazer parte de algo que não permita que o próximo Armando tenha que fugir ou ser encontrado em um jornal no quarto 101 de um futuro distópico hollywoodiano. Eu quero uma tecnologia que seja nossa, não só fique aqui, mas que saia daqui e que sirva à nossa gente.

"O Agente Secreto" é um ótimo filme. Ele me lembrou que a ciência sem poder político é apenas um hobby perigoso. E que se quisermos ver um Brasil que não seja apenas o "país do futuro" que nunca chega, precisamos parar de admirar a tecnologia na tela e começar a defendê-la com unhas e dentes na vida real.

O conhecimento precisa aprender a sobreviver. E nós precisamos aprender a não deixar que ele morra.

Sim, por que estou falando de patente se EU acho que todas não deveriam existir?

Não é sobre criar um novo sistema do zero - ISSO NÃO EXISTE - é sobre saber usar o sistema atual para mudar a realidade que ele opera.

Em um futuro perfeito, armas não serão precisas, patentes não trancarão o conhecimento e o lucro não ditará o progresso. Mas agora, neste presente imperfeito e brutal, precisamos saber colocar essas ferramentas nas mãos certas. E, para mim, essas mãos são as nossas.

Somos o coração do mundo. Recebemos todos, misturamos tudo, criamos o novo a partir do caos. Mas há uma diferença abissal entre ser inocente e ser permissivo.

Já fomos o país cordial que aceita o atraso imposto como destino. Não podemos mais ser. Se o jogo é jogado com patentes, com proteção de mercado, com soberania tecnológica, então que joguemos para ganhar. Não para perpetuar a ganância de poucos, mas para garantir que a nossa criatividade — a mesma que criou o avião, a urna eletrônica e a tecnologia de águas profundas, a PORRA DO PIX — sirva para nos libertar, e não para nos manter como colônia de exportação de cérebros.

O filme acabou, as luzes acenderam. Mas a nossa história, a sua vida, os seus filhos não precisa ter um final amargo. O conhecimento precisa aprender a se defender, e nós precisamos ter a coragem para fazermos diferente.


A Patente e o Avanço Tecnológico (Realidade vs. Ficção)

No filme, o personagem Armando desenvolve uma tecnologia de bateria de lítio que poderia revolucionar a autonomia energética.

  • O Contexto Real: Na década de 1970, a pesquisa global sobre lítio estava no início. O cientista M. Stanley Whittingham propôs a primeira bateria de lítio recarregável em 1976 (o filme se passa em 1977). O avanço que essa patente abriria seria a solução para o peso e a baixa autonomia de veículos, superando as baterias de chumbo-ácido.
  • A "Fuga de Cérebros": O filme usa essa patente como símbolo do que o Brasil perdeu durante a Ditadura Militar (1964-1985). Fontes históricas confirmam que cientistas como Mário Schenberg e José Leite Lopes foram perseguidos, o que atrasou décadas de desenvolvimento nacional.
  • Fonte: Agência Pública – "O que a ciência brasileira perdeu com a repressão durante a ditadura" (2024); Nobel Prize – História das Baterias de Íons de Lítio (Nobel de Química 2019).

A Associação com a Gurgel e Carros Elétricos

O filme faz uma conexão direta (ou implícita pela época) com o sonho de João Augusto do Amaral Gurgel, o maior entusiasta do carro nacional.

  • Gurgel Itaipu (1974): Foi o primeiro carro elétrico da América Latina. O maior problema do Itaipu era justamente a tecnologia de baterias disponível na época e o investimento e a falta de interesse do governo: ele usava baterias de chumbo-ácido, que eram extremamente pesadas e ofereciam apenas 60-80 km de autonomia.
  • A Conexão do Filme: A "patente de lítio" de Armando no filme teria sido a peça que faltava para a Gurgel. Se o Brasil tivesse dominado o lítio nos anos 70, o Itaipu poderia ter competido globalmente décadas antes da Tesla.
  • Fonte: Revista Pesquisa Fapesp – "A história de uma marca: Como Gurgel conseguiu fabricar carros brasileiros"; Motor1 UOL – "Gurgel Itaipu: elétrico nacional esbarrou na tecnologia da época".

Onde estão essas indústrias brasileiras hoje?

Atualmente, o Brasil tenta retomar esse protagonismo através do chamado "Vale do Lítio" e novas fábricas:

  • Minas Gerais (Vale do Jequitinhonha): As cidades de Araçuaí e Itinga concentram as maiores reservas de lítio do país. Empresas como a Sigma Lithium e a CBL (Companhia Brasileira de Lítio) operam lá. É o polo de extração (o "Ouro Branco").
  • Pernambuco (Belo Jardim): A Baterias Moura, sediada em Belo Jardim (estado onde o filme se passa), é uma das líderes em pesquisa de baterias no país e possui parcerias para sistemas de armazenamento de energia.
  • Amazonas (Manaus): A gigante chinesa BYD possui uma fábrica de baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) no Polo Industrial de Manaus, fornecendo para chassis de ônibus elétricos.
  • Bahia (São Sebastião do Passé): A Bravo Motor Company anunciou recentemente investimentos para instalar uma "gigafábrica" de células de baterias de lítio na região.
  • Santa Catarina (Jaraguá do Sul): A WEG é a principal fabricante nacional de motores elétricos e sistemas de recarga para veículos.

Fontes

1. Sobre o Filme "O Agente Secreto" e o Contexto

2. Sobre a Gurgel e o Carro Elétrico Itaipu

3. Indústria Atual: Onde estão as empresas hoje

4. Contexto Histórico: Cientistas na Ditadura

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