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A Bipolaridade do progresso: Como fomos da euforia ao luto na era da IA

Esta semana, me deparei com um artigo no meu feed chamado: “Grief in the AI age” (O Luto na Era da IA), escrito pelo designer Brad Frost. Nele, Brad faz um paralelo entre os cinco estágios do ciclo do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação) e a maneira como estamos reagindo à transformação tecnológica (e eu diria até mesmo cultural) que a inteligência artificial generativa trouxe para as nossas vidas.

Eu confesso que, num primeiro momento, o uso do termo “luto” me causou certa estranheza. Afinal, essa é uma palavra que costumamos reservar para o contexto do falecimento de alguém, e, à primeira vista, parece totalmente desconexa quando se fala de IA. Se você abrir qualquer portal de tecnologia agora, as manchetes são sempre sobre novos avanços em modelos, ferramentas revolucionárias, promessas de produtividade e economia de tempo. Todo esse ruído do mercado se alinha muito melhor com o Gartner Hype Cycle, que mapeia a curva de expectativa/frustração de uma nova tecnologia desde o seu nascimento até a sua consolidação.

No papel, esses dois ciclos pertencem a mundos diferentes. O Hype Cycle é corporativo, e o ciclo do luto vive no âmbito puramente emocional e psicológico. No entanto, tudo o que tenho experienciado e observado no mercado de 2023 para cá aponta para uma intersecção entre os dois. A Inteligência Artificial deixou de ser apenas um assistente, e passou a ocupar o espaço de pessoas reais. E não estou falando apenas de substituir postos de trabalho, mas de mexer com o propósito de vida de profissionais, e em alguns casos, influenciar a nossa própria capacidade de raciocínio.

Eu lembro perfeitamente de quando o assunto estourou (pelo menos na minha bolha 🙃 ). Foi logo após o fim da pandemia, quando vi um corte de podcast no YouTube com o Monark mostrando o ChatGPT pela primeira vez. Aquilo parecia mágica, algo realmente revolucionário. Até então, na minha cabeça, inteligência artificial era um conceito restrito ao comportamento de NPCs em videogames ou ao processamento massivo de dados em grandes bancos. De repente, estava ali, na minha tela, ao meu alcance e de graça.

O que se seguiu foi uma euforia generalizada e caótica. O feed de todo mundo foi inundado por vídeos ensinando “como faturar com IA usando apenas o celular”, enquanto uma enxurrada de supostos “especialistas” surgia do nada falando um monte de bobagens. Assistimos a uma corrida armamentista entre as big techs para ver quem lançava a próxima ferramenta, e vimos bilhões de dólares em capital de risco sendo injetados em empresas que mal tinham um protótipo funcional para apresentar.

Hoje, a poeira baixou e o choque de realidade veio forte. Aquelas pessoas que estavam animadas porque achavam que o tão sonhado emprego na área de TI com um salário inicial alto ficaria muito mais fácil ao “colocar a IA para programar”, agora enfrentam uma realidade dura. Muitas foram cortadas em grandes layoffs, outras vivem sob a constante ameaça do desemprego.

Até o hardware foi afetado, com o valor de placas de vídeo e memórias RAM disparando, e tornando a compra de um computador decente algo proibitivo para qualquer brasileiro médio (como se não bastasse o governo brasileiro cobrando imposto atrás de imposto com a desculpa esfarrapada de salvar uma “indústria nacional” que não existe).

Para piorar, as exigências para vagas de desenvolvedor júnior subiram a níveis quase irreais, frustrando quem está iniciando agora e sonhou em entrar na profissão, seja por identificação com a área ou fazendo uma migração de carreira. Na real, tem vagas tão esdrúxulas, que é mais fácil abrir uma startup ou fazer um SaaS e dar certo, do que passar na vaga.

É por isso que a grande dor que enxergo hoje no mercado não é meramente econômica, ela é existencial. Estamos vendo pessoas que estudaram durante anos, abrindo mão de finais de semana e noites de sono para dominar uma função, apenas para ver uma máquina ocupar o seu lugar em questão de segundos.

Desde a infância, fomos ensinados a formar nossa identidade e nosso senso de propósito na vida, com base em nossa profissão. Toda a nossa jornada de aprendizado é cercada por perguntas e afirmações clichês, tipo: “O que você vai ser quando crescer?”, “Qual faculdade vai fazer?”, “Estude bastante para ter um bom futuro”. Quando a máquina simula (e muitas vezes supera) a execução de competências que passamos anos lapidando, o que desmorona não é apenas o emprego, mas a narrativa que construímos na nossa cabeça sobre quem nós somos no mundo.

Outro fato a se considerar é a velocidade das mudanças atropelando o tempo necessário para o nosso aprendizado, e o sentimento de obsolescência chegando antes mesmo que o profissional consiga dominar a versão anterior do framework ou da plataforma.

Pensar que somos a primeira geração a encarar esse problema é um erro. Apesar de na nossa vez estar muito mais acelerado (e também mais caro), em todas as revoluções industriais anteriores isso aconteceu, e a história sempre se repete.

Em todas essas épocas, a sociedade se dividiu exatamente nos mesmos dois extremos emocionais. De um lado, a euforia cega dos entusiastas do progresso celebrando uma “chance de ouro”, prometendo que a automação libertaria o homem do trabalho pesado e criaria uma era de abundância inédita. E do outro, a resistência desesperada dos profissionais que sentem o impacto direto na pele, enxergando naquelas novidades o “fim dos tempos”.

Provavelmente a maior lição que deixamos de aprender com todas as revoluções passadas é que somos péssimos em gerenciar a transição. Nós nos concentramos obsessivamente em fazer a máquina correr mais rápido e processar mais dados, mas falhamos miseravelmente em dar o tempo psicológico que o ser humano precisa para digerir toda essa mudança. Nosso cérebro ainda é analógico, mas a gente sempre finge que esquece...

Se quisermos passar por essa nova era sem nos perdermos de nós mesmos, o primeiro passo é aceitar que estamos, sim, atravessando um processo de luto coletivo, e que sim, a IA não vai desaparecer. Ela veio para ficar, e nada mais será como antes. Mas isso não significa que seja ruim, ou bom. Apenas é... diferente.

A convergência dos ciclos do hype e do luto.

Se você colocar lado a lado um gráfico do Gartner Hype Cycle (aquela curva que as consultorias usam para mapear a adoção de novas tecnologias) e o modelo dos 5 Estágios do Luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), desenvolvido pela psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross, você vai notar que eles descrevem exatamente a mesma jornada como se fossem dois lados de uma mesma moeda.

Para entender essa minha proposição, precisamos sobrepor essas duas teorias para ver que o paralelo entre elas se faz de forma nítida quando analisamos como reagimos de 2023 até os dias atuais:

Fase 1: A Negação e o Pico de Expectativas Infladas
Quando as ferramentas de IA generativa surgiram, o mercado subiu direto para o topo do Hype. Era a promessa de faturar milhares de dólares com um prompt e a ilusão de que o trabalho seria totalmente automatizado. No lado humano, isso se manifestou em alguns como uma profunda negação da realidade. Uns diziam: “Isso é só um autocompletar, não vai afetar meu emprego”. Outros mergulhavam na fantasia de que a tecnologia resolveria todos os problemas do mundo sem cobrar nenhum preço (ou viajavam de que a skynet se tornaria real 🤖). Ignoramos os sinais de alerta porque a novidade era sedutora demais.

Fase 2: A Raiva e o Vale da Desilusão
O topo do hype é insustentável por um longo período. Eventualmente, a realidade bateu na porta e os primeiros grandes layoffs aconteceram, os erros e alucinações das ferramentas começam a travar processos, gerar gastos desnecessários ou excluir dados importantes nas empresas. O mercado (na minha visão) está despencando direto para o chamado Vale da Desilusão, onde, no Hype Cycle, as empresas não acreditam mais nas promessas da inovação, e se tornam céticas.

Na psicologia, essa queda livre se traduz em um sentimento muito específico: a Raiva. É o momento do boicote, dos textões inflamados no LinkedIn contra as Big Techs, e a revolta de quem percebeu que foi enganado pela promessas dos “especialistas” comprando seus cursos, e agora se sente impotente.

Fase 3: A Barganha e a Ladeira da Iluminação
Quando a raiva cansa e percebemos que o mundo não vai proibir a IA por decreto, e nem ela vai deixar de existir, nós começamos a negociar. Na tecnologia, entramos na “Ladeira da Iluminação”, onde o uso começa a ficar mais realista. No lado humano, ativamos o modo Barganha. É a fase do “Ok, a IA veio para ficar, mas se eu fizer esse curso de especialização eu posso ficar tranquilo e usar ela ao meu favor”, ou “A máquina faz o trabalho bruto, mas o toque final é meu, então estou seguro que não vou ser substituído”. Tentamos criar pequenos acordos entre a realidade e as nossas mentes para manter o controle da situação e salvar o que restou da nossa antiga realidade percebida.

No entanto, há um ponto nessa jornada que os gráficos corporativos costumam ignorar ou tratar de forma superficial, mas que para nós, seres humanos reais, é o momento mais difícil de todos: a transição para a depressão.

Antes de alcançarmos o que a Gartner chama de “Planície da Produtividade” (o ponto onde a tecnologia já se integrou ao dia a dia de forma madura), nós obrigatoriamente colidimos com a depressão. E neste paralelo, ela não deve ser vista como uma fraqueza ou uma doença (a não ser que seja constatada de forma clínica), mas sim como um reconhecimento doloroso da realidade.

É o instante em que a ficha finalmente cai. O profissional olha para o mercado e entende, com absoluta clareza, que o mundo de antes de 2023 não vai voltar. A barganha para, e o cansaço mental se instala. É um luto legítimo pelo futuro que havíamos planejado e que foi cancelado sem o nosso consentimento e de forma abrupta.

E embora esse ponto pareça o fim da linha, ele é, na verdade, o início da recuperação. É nesse reconhecimento doloroso, quando paramos de lutar contra os fatos e abandonamos as ilusões dos sentimentos eufóricos do início, que as maiores transformações começam a germinar.

O luto não é linear

Você deve ter notado que este paralelo que estou fazendo não segue a ordem em que as duas teorias se apresentam, mas isso é proposital. Apesar de ter todas as cinco fases, o luto não age de forma linear, e se manifesta de forma diferente em cada pessoa.

O Gartner Hype Cycle no entanto é linear, pois segue a lógica de mercado. Mas como meu intuito é abordar o aspecto humano, eu o quebrei e fiz o paralelo com as cinco fases do luto, já que este sim é variável e pode ter também oscilações.

Você pode passar uma semana inteira animado, testando novas ferramentas e automatizando processos, apenas para acordar na segunda-feira seguinte tomado por um aperto no peito, questionando se o seu esforço ainda fará sentido daqui a seis meses.

Essa oscilação é normal. O problema real surge quando ficamos cronicamente presos em uma das fases. E o mercado atual construiu três grandes âncoras que nos impedem de avançar:

O medo da obsolescência profissional: A sensação de que a régua está subindo tão rápido que, por mais que você estude à noite, acorde mais cedo ou sacrifique seus finais de semana, você nunca será suficiente.

A perda de identidade: A dor de se perguntar: “Quem sou eu, e que valor eu tenho se a minha maior habilidade agora é feita por uma IA?”

A comparação social: Abrir o feed das redes sociais e ser bombardeado por posts inflados, criando a ilusão de que “todo mundo já domina a IA e está faturando alto, e eu estou ficando para trás”, gerando uma ansiedade social paralisante em quem ainda está tentando entender o básico.

Lidar com todas essas ansiedades e incertezas sem dar uma surtada na cabeça, exige mais do que força de vontade. Podemos usar algumas ferramentas para fazer nossa ancoragem mental:

Journaling (Escrita): Tire todos os pensamentos da cabeça e no papel. Escrever honestamente sobre a sua experiência com as ferramentas (o que funcionou, onde você se sentiu ameaçado, o que achou ridículo e que você pode fazer manualmente) transforma uma ansiedade difusa em dados palpáveis que você pode analisar logicamente. Parece bobo e bem simplório, mas realmente funciona.

Mindfulness e técnicas de grounding: Você precisa forçar o seu cérebro a voltar para o presente para acalmar pensamentos ansiosos com o que pode vir no futuro. Técnicas simples de atenção plena, respiração e desconexão programada são ferramentas de manutenção para a sua saúde mental.

Suporte da comunidade: É a conversa com humanos de verdade. Encontrar um grupo de colegas de profissão num evento para compartilhar sucessos, experiências ou frustrações reais nos lembra de que não estamos sozinhos, e sempre podemos aprender e nos adaptar.

Rituais de desconexão: Crie momentos na sua semana para literalmente se desconectar. Pode ser um dia específico para ler livros físicos, ir na igreja, fazer uma trilha etc.

Amanhã é outro dia...

Discutir se a IA generativa deveria ou não ter sido criada, ou torcer para que o mercado decida retroceder e devolver o mundo ao mesmo estado de 2022, é um gasto de energia mental inútil. A IA deixou de ser uma ferramenta de especialistas para se tornar infraestrutura civilizacional, assim como a energia elétrica e a Internet.

Compreender essa inevitabilidade, no entanto, exige uma distinção crucial que pouca gente faz. Aceitação é completamente diferente de concordância.

Aceitar significa olhar para o mercado atual, reconhecer os layoffs, a mudança nos requisitos de contratação e a automação de processos, e dizer: “Ok, este é o mundo real agora, e eu preciso me adaptar”. Concordar, por outro lado, seria cruzar os braços e aceitar passivamente que a tecnologia dite o nosso valor, destrua a nossa saúde mental ou comoditize a criatividade humana em troca de margens de lucro mais gordas.

Nós não precisamos concordar com a direção caótica que o hype tenta impor, mas precisamos aceitar o fato de que a tecnologia está aqui para podermos agir sobre ela.

A verdadeira virada de chave na nossa cabeça acontece quando paramos de reagir instintivamente aos acontecimentos e passamos a escolher como vamos responder racionalmente a eles. Enfrentar esse momento com integridade psicológica e relevância profissional será uma questão de inteligência emocional.

O mercado não precisa de mais “robôs humanos”, mas sim, de humanos que saibam usar o discernimento, o contexto cultural, a ética e a sensibilidade que máquina nenhuma consegue simular.

A reflexão que deixo no fim desse texto, não é para que você se torne um entusiasta ingênuo que abraça cada nova ferramenta com otimismo cego, e nem um resistente amargurado que assiste ao mundo mudar sem fazer nada. Mas sim, o compromisso de continuar aprendendo, manter o seu espaço de pensamento crítico e de acolher as suas próprias vulnerabilidades ao longo do caminho.

O futuro continua sendo um território aberto cheio de possibilidades e ele é algo que nós ainda construímos, um passo de cada vez.

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