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# Construindo um sistema de pensamento com Obsidian e Claude — e como isso mudou minha forma de aprender

Eu sempre tive o hábito de pesquisar coisas.
Um problema aparece.
Eu pesquiso.
Encontro uma solução.
Testo.
Funciona.
Passo para o próximo problema.
Alguns meses depois, o mesmo problema aparece novamente.
E eu pesquiso tudo de novo.
Durante muito tempo achei que isso era simplesmente parte de trabalhar com tecnologia.
Até perceber uma coisa:
eu não estava perdendo informação. Eu estava perdendo contexto.

Eu já tinha aprendido aquilo.
Só não sabia mais onde estava, por que tinha tomado determinada decisão ou como aquela solução se relacionava com outras coisas que eu já tinha estudado.
Foi aí que comecei a experimentar uma ideia diferente:

e se eu parasse de tentar apenas guardar informações e começasse a construir um sistema para organizar meu próprio processo de pensamento?
Foi assim que comecei a usar o Obsidian junto com o Claude.

Não queria criar um lugar para fazer anotações

Quando comecei a usar o Obsidian, a primeira tentação foi fazer o que provavelmente muita gente faz:

Criar pastas.

Tecnologia/
    Redes/
    Linux/
    Programação/
    Hardware/

Projetos/
Estudos/
Ideias/
Referências/

Parecia organizado.

Mas rapidamente percebi um problema.

Onde eu colocaria uma nota sobre:

Usar WireGuard em um Raspberry Pi para acessar MikroTik remotamente através de clientes que podem estar atrás de CGNAT.
Isso pertence a:

  • Linux
  • Raspberry Pi
  • WireGuard
  • MikroTik
  • Redes
  • VPN
  • Acesso remoto
  • Segurança
    A informação não pertence a uma única pasta.
    Ela pertence a uma rede de conceitos.
    E foi aí que comecei a entender o verdadeiro potencial do Obsidian.

Conhecimento não é uma árvore

Durante muito tempo organizei informação como uma árvore:

Tecnologia
└── Redes
    └── MikroTik
        └── WireGuard

Mas meu conhecimento não funciona assim.

Ele se parece muito mais com isto:

                 Linux
                   │
                   │
             Raspberry Pi
              ╱         ╲
             ╱           ╲
        WireGuard ───── MikroTik
             │             │
             │             │
             └─────┬───────┘
                   │
                VPN
                   │
              Acesso remoto

Uma ideia pode pertencer a vários assuntos simultaneamente.

No Obsidian, isso pode ser representado simplesmente conectando as notas.

[[Linux]]
[[Raspberry Pi]]
[[WireGuard]]
[[MikroTik]]
[[VPN]]
[[Acesso remoto]]

O resultado é que comecei a parar de pensar em arquivos.

Comecei a pensar em relações.


A diferença entre armazenar e aprender

Essa foi uma das maiores mudanças.

Antes, quando eu aprendia alguma coisa, meu processo era aproximadamente:

Pesquisar
   ↓
Ler
   ↓
Entender
   ↓
Usar
   ↓
Esquecer

Depois comecei a experimentar:

Pesquisar
   ↓
Entender
   ↓
Experimentar
   ↓
Registrar
   ↓
Conectar
   ↓
Revisitar
   ↓
Expandir

Parece uma mudança pequena.

Mas muda completamente o resultado.

Uma experiência que antes terminava quando o problema era resolvido agora deixa um rastro.

Esse rastro pode ser utilizado meses ou anos depois.


Comecei a registrar problemas, não apenas soluções

Isso foi particularmente importante.

Imagine que eu esteja tentando configurar uma VPN.

Eu poderia simplesmente guardar:

WireGuard funcionando.

Mas isso não me ensina muito quando eu olhar novamente para a nota.

Passei a registrar algo mais parecido com:

# Problema

O cliente não conseguia estabelecer conexão.

# Hipótese

O MikroTik poderia estar atrás de CGNAT.

# Teste

Verifiquei o endereço recebido na interface WAN.

# Resultado

O endereço era privado.

# Descoberta

Não era possível depender de uma conexão recebida diretamente
da Internet.

# Solução

Alterar a arquitetura para que o cliente estabelecesse
a conexão com um servidor central.

# Conceitos relacionados

[[CGNAT]]
[[WireGuard]]
[[MikroTik]]
[[Raspberry Pi]]
[[VPN]]

Isso é muito mais valioso.

Porque não estou guardando apenas a resposta.

Estou guardando o caminho até a resposta.


Comecei a guardar minhas decisões

Outra coisa que comecei a perceber é que, depois de algum tempo, eu esquecia por que tinha escolhido determinada solução.

Por exemplo:

Por que usei WireGuard?

Por que coloquei o servidor no Raspberry Pi?

Por que não fiz port forwarding?

Por que os clientes precisam ser isolados?

Essas decisões parecem óbvias enquanto estamos trabalhando no projeto.

Depois de seis meses, não são mais.

Então comecei a criar notas de decisão.

# Decisão

Utilizar WireGuard como camada de acesso remoto.

## Motivo

Os clientes podem estar atrás de CGNAT.

## Alternativas consideradas

- Port forwarding
- VPN tradicional
- Acesso via IP público

## Decisão

WireGuard.

## Motivo da escolha

- simples
- rápido
- baixo overhead
- fácil de automatizar
- funciona bem em Linux

Isso começou a transformar meu vault em algo diferente.

Ele não guardava somente o que eu sei.

Começou a guardar por que eu penso daquela maneira.


E então entrou o Claude

Foi aqui que o sistema começou a ficar realmente interessante.

Eu já tinha o conhecimento registrado.

Mas existia um problema:

eu não conseguiria reler tudo manualmente.

Com o tempo, um vault pode crescer bastante.

Então comecei a utilizar o Claude como uma camada de interpretação sobre esse conhecimento.

A ideia não é simplesmente:

“Claude, me ensine WireGuard.”

Isso qualquer IA consegue fazer.

A ideia que achei muito mais interessante é:

“Analise minhas anotações sobre redes, VPN, MikroTik e Raspberry Pi e encontre conexões que eu talvez não tenha percebido.”

Agora a IA não está apenas entregando conhecimento externo.

Ela está ajudando a trabalhar em cima do meu próprio conhecimento.


Isso muda completamente a pergunta

Antes:

O que a IA sabe sobre esse assunto?

Depois:

O que a IA consegue descobrir a partir do que eu já sei?

Essa diferença parece pequena.

Na prática, não é.

Uma IA pode conhecer milhares de coisas.

Mas ela não conhece automaticamente:

  • como eu trabalho;
  • quais projetos estou desenvolvendo;
  • quais problemas já encontrei;
  • quais soluções já testei;
  • quais ideias abandonei;
  • quais decisões tomei;
  • quais conceitos estou estudando;
  • quais perguntas ainda não consegui responder.

Meu vault começa a fornecer esse contexto.


O Obsidian virou uma memória externa

Não no sentido de substituir minha memória.

Mas de diminuir a quantidade de coisas que preciso manter nela.

Se eu descubro algo importante, posso registrar.

Se cometo um erro, posso registrar.

Se tenho uma ideia, posso registrar.

Se tomo uma decisão, posso registrar.

Se encontro uma solução interessante, posso registrar.

Com o tempo:

Experiência
     ↓
Nota
     ↓
Link
     ↓
Contexto
     ↓
Conhecimento

E esse conhecimento pode ser recuperado posteriormente.


O mais interessante são as conexões inesperadas

Uma das coisas que mais gosto nesse sistema é quando uma nota antiga ganha um novo significado.

Imagine que meses atrás eu tenha estudado:

CGNAT

Depois:

WireGuard

Depois:

Raspberry Pi

Depois:

Monitoramento

No começo parecem assuntos separados.

Mas depois percebo:

CGNAT
   ↓
necessidade de conexão de saída
   ↓
WireGuard
   ↓
Raspberry Pi
   ↓
servidor central
   ↓
monitoramento
   ↓
automação

O conhecimento não estava errado.

Ele estava fragmentado.

O trabalho de conectar essas peças é que transforma informação em algo muito mais útil.


Comecei a registrar perguntas

Essa talvez tenha sido uma das melhores mudanças.

Normalmente registramos respostas.

Eu comecei a registrar perguntas.

Por exemplo:

# Pergunta

Como posso administrar dezenas de MikroTik
sem depender de IP público?

Status: em investigação

Essa pergunta pode permanecer aberta durante meses.

Enquanto estudo outras coisas, novas conexões aparecem.

Talvez uma nota sobre WireGuard responda parte dela.

Uma nota sobre CGNAT responda outra.

Uma experiência com Raspberry Pi responda outra.

Até que, em algum momento:

Pergunta
   ↓
Pesquisa
   ↓
Experimento
   ↓
Erro
   ↓
Descoberta
   ↓
Solução

E então a pergunta deixa de ser uma dúvida.

Ela vira conhecimento.


Meu vault começou a registrar o processo de aprendizagem

Hoje eu gosto de pensar que existem pelo menos cinco tipos de informação importantes:

CONHECIMENTO
     │
     ├── O que descobri
     │
     ├── O que experimentei
     │
     ├── O que deu errado
     │
     ├── O que decidi
     │
     └── O que ainda não sei

Essa última categoria é especialmente importante.

Não saber alguma coisa também é informação.

Uma pergunta aberta é uma espécie de marcador apontando para uma região desconhecida do meu conhecimento.


IA + conhecimento pessoal

Comecei então a enxergar uma arquitetura diferente:

                  EU
                   │
                   ▼
            ┌─────────────┐
            │   OBSIDIAN  │
            │             │
            │ Experiências│
            │ Projetos    │
            │ Ideias      │
            │ Decisões    │
            │ Problemas   │
            │ Conhecimento│
            └──────┬──────┘
                   │
                   ▼
                CLAUDE
                   │
        ┌──────────┼──────────┐
        ▼          ▼          ▼
     Analisar   Conectar   Questionar
        │          │          │
        └──────────┼──────────┘
                   ▼
               NOVAS IDEIAS
                   │
                   ▼
              NOVOS TESTES
                   │
                   ▼
                NOVAS NOTAS
                   │
                   └──────────────► OBSIDIAN

E esse ciclo é o que realmente me interessa.

Não é simplesmente:

Obsidian + IA.

É:

experiência → registro → conexão → reflexão → nova experiência.


O que mudou na minha forma de aprender

Antes eu estudava para resolver problemas.

Agora também estudo para construir conexões.

Se aprendo alguma coisa nova, começo a pensar:

“Com o que isso se conecta?”

Essa pergunta mudou bastante minha maneira de aprender.

Quando estudo uma tecnologia nova, não quero apenas saber como ela funciona.

Quero saber:

Onde isso se encaixa?
O que isso resolve?
O que isso substitui?
Com o que isso se conecta?
Que problema isso pode resolver no futuro?

A informação começa a ter contexto.

E contexto é o que faz uma informação ser reutilizável.


Não estou tentando construir um vault perfeito

Essa parte é importante.

No começo existe uma tendência de querer criar:

  • a estrutura perfeita;
  • os plugins perfeitos;
  • os templates perfeitos;
  • os dashboards perfeitos;
  • o sistema perfeito.

Depois percebi que isso pode virar uma armadilha.

Você começa a gastar mais tempo organizando conhecimento do que adquirindo conhecimento.

Então hoje tento seguir uma regra simples:

Registrar primeiro. Organizar depois.

Se uma ideia é importante, eu escrevo.

Se existe uma relação óbvia, eu crio o link.

Se não sei onde colocar, deixo para organizar depois.

O sistema precisa ajudar meu pensamento.

Não virar mais uma tarefa.


O verdadeiro “segundo cérebro”

Hoje eu nem gosto tanto da expressão “segundo cérebro”.

Porque não acho que o objetivo seja criar uma cópia da minha mente.

O objetivo é criar uma extensão da minha capacidade de lembrar, relacionar e revisitar ideias.

Meu cérebro é bom em:

Criatividade
Intuição
Experiência
Contexto
Decisão

O sistema é bom em:

Memória
Organização
Busca
Relacionamentos
Histórico

E a IA adiciona outra camada:

Síntese
Análise
Questionamento
Exploração
Geração de hipóteses

A combinação fica muito mais interessante:

        EU
        │
        ├───────────────┐
        │               │
        ▼               ▼
   EXPERIÊNCIA      INTUIÇÃO
        │               │
        └───────┬───────┘
                ▼
             OBSIDIAN
                │
                ▼
             CLAUDE
                │
                ▼
          NOVAS CONEXÕES
                │
                ▼
          NOVAS HIPÓTESES
                │
                ▼
             EU TESTO
                │
                ▼
          NOVA EXPERIÊNCIA

É um ciclo de aprendizagem.


A maior mudança não foi tecnológica

Foi comportamental.

Passei a perceber que aprender alguma coisa não significa apenas conseguir responder uma pergunta.

Significa conseguir reutilizar aquilo que aprendi em outro contexto.

E talvez seja essa a diferença entre acumular informação e construir conhecimento.

Hoje, quando resolvo um problema, tento não deixar a solução morrer naquele momento.

Eu registro.

Quando tenho uma ideia, registro.

Quando erro, registro.

Quando descubro uma conexão, registro.

Quando não sei alguma coisa, registro.

E, com o tempo, essas coisas começam a conversar entre si.


O sistema ainda está longe de estar pronto

E provavelmente nunca estará.

Porque meu conhecimento muda.

Meus projetos mudam.

Minhas perguntas mudam.

As ferramentas mudam.

E a própria IA muda.

Por isso não vejo isso como um projeto que um dia vou terminar.

Vejo como uma infraestrutura pessoal.

Algo que cresce junto comigo.

Hoje pode ser:

Obsidian + Claude

Amanhã pode existir outra ferramenta.

Outra IA.

Outro método.

Mas a ideia continua:

não deixar meu conhecimento morrer no momento em que resolvo um problema.


Talvez seja isso que eu estava procurando

Durante muito tempo achei que precisava estudar mais.

Hoje acho que precisava perder menos do que aprendia.

Não preciso lembrar de tudo.

Não preciso transformar cada experiência em uma obra-prima.

Preciso apenas criar um sistema onde boas ideias tenham uma chance de sobreviver.

Porque uma ideia que parece inútil hoje pode ser exatamente a peça que falta em um problema daqui a dois anos.

E é aí que o Obsidian deixou de ser, para mim, apenas um aplicativo de notas.

Ele virou uma espécie de mapa do meu próprio aprendizado.

E o Claude passou a ser uma ferramenta para explorar esse mapa.

No final, talvez o objetivo não seja construir um segundo cérebro.

Talvez seja construir um sistema que permita ao primeiro cérebro pensar com mais liberdade.

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