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Soberania digital: por que o próximo grande ciclo de SaaS no Brasil será local

O mundo está se fragmentando, e o software vai junto

Vivemos um momento de inflexão geopolítica. Alianças históricas estão sendo questionadas, cadeias de suprimentos estão sendo redesenhadas e a palavra "soberania" voltou ao vocabulário de governos e empresas como não se via desde a Guerra Fria. Mas o que isso tem a ver com software?

Tudo.

A mesma lógica que leva países a repatriar indústrias e diversificar fornecedores de energia está chegando à tecnologia. Empresas estão percebendo que dependência digital é dependência estratégica, e estão começando a agir.

A ilusão do "seu"

A última década de SaaS nos ensinou uma lição dura: nada é realmente seu.
Seu software? Roda em servidores que não são seus.
Seus dados? Estão em data centers em regiões que você não escolheu.

Suas regras de negócio? Dependem de APIs que podem mudar os termos de serviço amanhã.

Seu conhecimento? Com a explosão das LLMs, até o conhecimento que você alimenta em plataformas de IA pode ser usado para treinar modelos que competem com você.

Isso não é teoria da conspiração, é modelo de negócio. Quando você não paga pelo produto, o produto é você. E mesmo quando paga, o controle real está do outro lado.

Quando a dependência vira risco

Vamos ser sinceros, se a AWS sofre uma interrupção na us-east-1, metade da internet brasileira vai junto (foram 6 em 2025), mesmo que os clientes estejam em São Paulo. Se a Cloudflare toma uma decisão de política de conteúdo, seu site pode sair do ar sem aviso. Se a Stripe ou a Mastercard decidem que seu segmento é "alto risco", voce esta sem dinheiro. Nenhuma dessas empresas tem um escritório em Brasília, um SAC em português ou qualquer obrigação de responder à legislação brasileira.

São empresas globais, que sofrem pressões globais. O seu problema local não é prioridade delas.
Esse cenário está gerando uma mudança real de mentalidade. Tenho ouvido cada vez mais empresas brasileiras dizendo coisas como: "Não queremos mandar nossos dados para uma IA de fora" ou "Estamos planejando um servidor on-premises para ter controle sobre nossa stack."

A reação natural é perguntar: "Mas você sempre rodou na Azure. O que mudou?" O que mudou foi a percepção de risco. As pessoas finalmente estão conectando os pontos entre dependência tecnológica e vulnerabilidade operacional.

O open source

A resposta óbvia seria o open source. Mas aqui a realidade é mais complicada do que o entusiasmo sugere.

Projetos open source podem ser descontinuados sem aviso. Basta o mantenedor principal perder interesse ou financiamento. Licenças podem mudar da noite pro dia, como vimos com a Redis, a HashiCorp e o Elasticsearch. E a segurança da cadeia de suprimentos de software open source é uma preocupação crescente: o caso do backdoor no xz-utils em 2024, onde um "contribuidor" malicioso quase sequestrou toda a infraestrutura de SSH global, mostrou que até projetos críticos podem ser alvos de ataques sofisticados e persistentes.

E não é só o open source puro que apresenta riscos. Tecnologias que parecem "seguras" por terem uma empresa por trás podem se tornar armadilhas. O caso da Oracle com o Java é emblemático: uma linguagem que foi praticamente sinônimo de "gratuito e aberto" por décadas se transformou em um campo minado de licenciamento. A Oracle passou a cobrar retroativamente por uso do JDK em produção, forçando empresas no mundo inteiro a auditar suas instalações, migrar às pressas para alternativas como o OpenJDK ou pagar licenças que ninguém havia previsto no orçamento.

Se isso acontece com o Java, uma das tecnologias mais estabelecidas do planeta, pode acontecer com qualquer coisa.

Confiar uma área estratégica da empresa a um projeto que você não controla, não financia e não audita é trocar uma dependência por outra.

A oportunidade: o software brasileiro

Então, se soluções estrangeiras são caras e arriscadas, e soluções open source são imprevisíveis e difíceis de manter com garantias, o que sobra?

A solução local. O software brasileiro, cobrado em real, hospedado no Brasil, sujeito à LGPD e ao Marco Civil da Internet, com suporte em português e entendimento do contexto regulatório local.

E a infraestrutura para isso já existe ou está sendo construída:

Meios de pagamento? O PIX revolucionou o mercado e criou uma infraestrutura de pagamentos instantâneos que é referência mundial. Temos processadores locais, adquirentes brasileiras e um ecossistema financeiro cada vez mais maduro.

Cloud? Já temos provedores nacionais investindo em infraestrutura local, oferecendo alternativas reais para quem precisa de dados residentes no Brasil.

CRM, atendimento ao cliente, ERP? Existem soluções brasileiras competentes em cada uma dessas categorias, mesmo que muitas ainda não tenham a visibilidade que merecem.

Linguagens de programacao? TEMOS! Elixir, Lua, Bend e outros projetos mostram o profundo conhecimento tecnicos dos desenvolvedores brasileiros. Ate empresas, como o Nubank, compraram os direitos da Clojure, fundamental na sua infra de pagamentos.

O que falta não é capacidade técnica. O que falta é a percepção por parte do mercado de que essas soluções são viáveis, confiáveis e, em muitos casos, superiores para o contexto brasileiro.

O modelo indiano como referência

A Índia oferece um paralelo interessante. O país construiu infraestrutura digital soberana, como a UPI para pagamentos, o Aadhaar para identidade digital, se tornando uma plataforma para um ecossistema inteiro de empresas de tecnologia.

Empresas como a Zoho nasceram nesse contexto de capacidade técnica local e cresceram até competir globalmente com Salesforce e Microsoft. Não porque copiaram — porque entenderam profundamente as necessidades do seu mercado primeiro e depois escalaram.

O Brasil tem condições semelhantes. O PIX é o nosso UPI. A LGPD é o nosso framework regulatório. Temos um mercado interno de mais de 200 milhões de pessoas e um ecossistema de desenvolvedores que é um dos maiores do mundo. A base está lá.

A tese

Minha tese é simples: todo SaaS relevante que empresas brasileiras usam hoje deveria ter uma alternativa nacional — soberana, em real e com dados no Brasil.

Isso não é nacionalismo tecnológico ingênuo. É pragmatismo. É reconhecer que, num mundo onde a fragmentação geopolítica é tendência e não exceção, quem depende exclusivamente de infraestrutura estrangeira está acumulando risco silenciosamente.

Para nós, desenvolvedores brasileiros, isso é uma oportunidade rara. Não estamos falando de competir com a AWS em escala global. Estamos falando de construir a camada de software que o Brasil precisa para operar com autonomia: deploy, pagamentos, observabilidade, comunicação, banco de dados, autenticação.

Cada uma dessas categorias é um mercado esperando por alguém que entenda o contexto local e construa com seriedade.

Trazer os nossos de volta

Existe um ativo estratégico que o Brasil subutiliza: a diáspora tech brasileira. Temos desenvolvedores de altíssimo nível espalhados por empresas de ponta no Vale do Silício, em Londres, em Berlim, em Toronto. Gente que aprendeu a operar em escala, que viveu a cultura de produto das maiores empresas do mundo e que acumulou um capital técnico e gerencial enorme.

Se criamos as condições certas, um ecossistema local vibrante, empresas com problemas reais para resolver, remuneração competitiva em real e a perspectiva de construir algo com impacto, esses profissionais têm motivos para voltar. E quando voltam, não voltam sozinhos: trazem metodologias, padrões de engenharia e uma rede de contatos global.

Mais importante ainda: essa geração experiente pode formar a próxima. O Brasil já produz um volume enorme de desenvolvedores, mas muitos entram no mercado sem mentoria de quem operou em ambientes de alta exigência. Combinar a experiência da diáspora com o talento bruto que temos aqui é o que transforma o país de exportador de mão de obra em polo de inovação.

Não estamos falando só de soberania de software. Estamos falando de soberania de conhecimento. Um Brasil que domina sua própria infraestrutura digital, que forma engenheiros de classe mundial e que retém esse talento não está apenas pronto para liderar a América Latina — está posicionado para ser referência em todo o continente americano.

O futuro do SaaS no Brasil não é uma cópia traduzida do que existe lá fora. É uma versão que nasce daqui, para resolver problemas daqui — e que, como a Índia mostrou, pode acabar conquistando muito mais do que o mercado interno.

A pergunta que fica: o que você está construindo?

Eu estou construindo a trapiche, deploy no Brasil, pagamento em Pix.

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