Product Engineer é o FullStack V2? Meu relato após quase 1 ano nessa cadeira aqui na Salvy.
Quanto de intenção e de taste você tem colocado nas coisas que tem construído?
Não estou perguntando se ficaram boas. Estou perguntando outra coisa: quantas vezes você parou no meio pra provar?
Já ouvi em algumas rodas de conversa que participo que Product Engineering é o fullstack v2, numa vitrine diferente. Agora não é mais miojo, é lámen.
Sou engenheiro de produto na Salvy, cargo que metade das pessoas acha que é fullstack com nome novo. E como sou curioso por formação, há um ano decidi experimentar essa iguaria oriental pra descobrir se elas têm razão.
Fazendo uma análise superficial da receita, não é difícil concluir que os ingredientes são muito parecidos. Uma pitada de React aqui, um pouco de Node ali, SQL com AWS. Resumo: nada de novo sobre o sol.
Todo desafio novo traz consigo uma série de dúvidas e sentimentos, e quando aceitei o desafio na Salvy não foi diferente.
Conversando com o Danilo durante um meetup — que no futuro viria a ser meu colega de trabalho — percebi que tinha ali algo que eu já tinha ouvido falar antes, mas em startups muito maiores: a tal cultura de engenharia. E por mais que eu nunca tivesse provado, me deixou curioso a preocupação deles com essa pauta.
fica pra outra: a cultura de engenharia em si merece um texto inteiro, e não é este.
No primeiro momento era só um papo sem pretensão nenhuma sobre alguma lib de JS zoada. Não lembro bem qual.
E foi de fato nesse momento que eu, sem saber, escolhi experimentar. Como dizem as más línguas, nada é mais poderoso que uma ideia — não é mesmo?
A partir dali, a ideia de sair de uma cadeira de especialista pra ser um "Product Engineer" — o que é isso? — começou a crescer na minha cabeça. Quando me vi, já estava pesquisando a origem da cadeira, se era algo novo ou mais uma buzzword. Cadeira de 2012, 2013, com origem no Facebook.
também fica: a linhagem do cargo — webmaster, a grande especialização, fullstack, product engineer — dá outro texto.
Mas uma coisa me deixou curioso de verdade: essa cadeira passou a fazer muito mais sentido quando a IA entrou pra nos auxiliar.
Não teve jeito, tive que experimentar. Depois de um bom tempo acomodado no frontend, me permitir errar e sair pra um ambiente novo e desafiador: mudar o mercado telco B2B no Brasil.
Os primeiros seis meses foram entendendo o produto, o contexto de negócio e como eu, Celso, poderia entregar valor de fato naquela operação. Vindo de um mercado B2C, algumas objeções mudam — e uma delas é o desconforto de não saber nada sobre o ecossistema de telefonia. De não saber o que caracoles é um MSISDN. Parecia que eu tinha aprendido tecnologia de novo, e essa sensação foi muito interessante.
Aqui vai um destilado de uma das reflexões que tive com os meus colegas de time: o quanto de taste a gente coloca no que está fazendo?
Antes: construir custava caro, e o custo era a régua
Passei a carreira como especialista. Construir era a parte difícil: o problema era técnico, cheio de complexidade, e consumia toda a energia que eu tinha. Se você errasse o caminho, descobria três dias depois — e três dias é caro.
Esse custo funcionava como uma régua que eu nem percebia que estava usando. Você pensava antes porque errar doía, provava no meio porque refazer era pior. A disciplina vinha do preço.
Hoje: ficou barato, e a conta mudou
Hoje eu gero três versões de uma ideia em vinte minutos.
A régua sumiu junto com o custo. E veio uma segunda coisa, mais sutil e mais perigosa: a tecnologia também tirou a necessidade de provar pra saber se está bom. Dá pra julgar de fora, objetivamente, sem ter passado pelo processo.
Então a pergunta que eu passei o ano tentando responder virou outra:
Se construir ficou barato, o que a gente faz com o que sobrou?
a resposta óbvia: construir mais. É o que quase todo mundo fez, inclusive eu no começo. Três vezes mais superfície pra manter, e o mesmo paladar de antes.
Nada do que eu disse até aqui é novidade. Que construir ficou barato e que o julgamento passou a ser o recurso escasso é uma conversa que muita gente boa já teve em 2026, e eu concordo com ela. O que eu fiquei sem achar foi a pergunta seguinte: julgamento vem de onde?
Um ano depois: o que sobrou não foi tempo, foi energia
Essa é a parte que eu não esperava, e é a razão de eu ter escrito isto.
O dia continua do mesmo tamanho. Trabalho o mesmo tanto, e a fila de coisas pra fazer só cresceu.
O que mudou foi o que me consome dentro dele. Aquela parte técnica e cheia de complexidade, que sugava toda a minha energia, parou de sugar. E energia, diferente de tempo, você leva pra casa.
Foi aí que eu percebi o que estava fazendo com ela. Não estava devolvendo pro teclado. Estava vivendo mais.
- Speedcubing com o Levi, aprendendo blindfolded e tentando desenferrujar o sub-30 kkkkk
- Pedal de fim de semana com a galera da Salvy
- Filme com a família, e conhecer Curitiba direito junto com eles
E descobri que é aí que o paladar apura. Não é descanso, é insumo. Você está exercitando taste o tempo todo, em coisa que não tem nada a ver com software: escolhendo, comparando, percebendo o que funciona e o que só parece que funciona.
Percorrer o mundo e experimentar virou o diferencial criativo. Foi uma das coisas que a ferramenta não conseguiu tomar da gente.
o desconforto: isso significa admitir que a parte mais valiosa do meu trabalho acontece longe do editor. Levei um tempo pra dizer essa frase sem achar que ela era desculpa.
Construtor também é criador
Levei um tempo pra entender por que isso funcionava, e a explicação passa por uma parte desse trabalho que a gente quase nunca nomeia. Quando você decide o que construir, você não está executando. Está criando.
E criar depende de uma coisa que executar não depende: repertório.
Criatividade não brota do nada: é combinação. Você junta duas coisas que viu em lugares diferentes, e a junção é nova mesmo que as peças não sejam. Se o seu repertório é só o que você viu dentro do editor, as combinações possíveis são poucas. E são as mesmas de quem usa as mesmas ferramentas que você.
Foi por isso que a régua sumindo assustou. A gente ficou muito melhor em construir. A parte que decide o que vale ser construído é que parou de ser alimentada.
Você não desenvolve paladar lendo sobre comida
📺 if you want good taste, you have to eat — Jason Liu
Um amigo me mandou esse vídeo e o título já era o argumento inteiro. Taste não vem de talento nem de estudo teórico. Vem de consumir muito e prestar atenção no que consumiu.
O que me pegou foi ele falar da tecnologia ter removido a necessidade de percorrer o caminho. Antes, pra chegar numa solução você atravessava as três erradas. Era lento e era caro — e era ali que o paladar se formava. Não no destino, no percurso.
Quem gera três versões em vinte minutos atravessa muito mais e presta atenção em muito menos.
Isso parece contradizer o que eu mais gosto no speedcubing. Antes do cronômetro começar existem quinze segundos de inspeção: você pode olhar, virar na mão, planejar a solução inteira — e não pode encostar pra resolver. É o oposto de sair experimentando.
Só que os quinze segundos só existem por causa das milhares de resoluções que vieram antes. Ninguém planeja a sequência inteira olhando um cubo pela primeira vez. Inspeção não é o contrário de experimentar — é o que sobra depois de ter experimentado muito.
Olhar antes de tocar é um luxo que só o repertório paga.
O que ficou pelo caminho: o que custou
Essa foi a primeira vez na carreira em que eu me vi arriscando e saindo de uma posição de especialista pra uma cadeira mais generalista. Confesso que em primeiro momento não é fácil.
Você deixa de ser a pessoa que o time chama pro problema mais difícil de um assunto específico. Perde a régua de progresso, porque profundidade técnica dava medida e amplitude não dá. E tem a sensação recorrente de estar "emburrecendo".
A resposta honesta a esse medo não é "isso passa". É que a profundidade continua necessária — ela só deixa de ser o eixo da identidade. Você não para de descer. Você escolhe quando descer. Foi no mesmo ano em que virei generalista que eu voltei a estudar sistema operacional e compilador.
Então: é o mesmo macarrão. E não é a mesma comida.
O caldo do lámen leva doze horas, e não é porque alguém ficou doze horas mexendo. É porque alguém ficou lá. Provou, esperou, provou de novo, e em algum momento decidiu que já estava na hora.
Tem sido o momento em que mais aprendi na minha carreira, e eu escrevo isso do meio do caminho.
E escrevo porque tem uma coisa que eu venho notando e que me incomoda: a gente consome cada vez mais, e cada vez mais igual. Mesmo feed, mesmas ferramentas, mesmas referências, os mesmos três exemplos em toda conversa. Se paladar vem do que você consumiu, isso devia assustar mais do que assusta.
Por isso eu devolvo a pergunta que eu ainda não terminei de responder pra mim: de onde veio o taste da última coisa que você construiu?
Se a resposta for "do modelo", tudo bem — boa parte do meu também vem de lá agora. Só que aí o repertório é o mesmo de todo mundo que fez a mesma pergunta pro mesmo modelo. E o caldo de todo mundo vai ter o mesmo gosto.