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13 min de leitura ·

A Cultura da Destruição de Castelos de Areia na Tecnologia

Essa história é de um dos criadores de Delégua, que devia ter uns 10 anos de idade na época. Em um desses dias de verão na praia, resolveu construindo um castelo de areia. Um bem elaborado: com torres, pontes, um fosso. Não era grande coisa para os padrões de nenhum arquiteto, mas era uma criação dele: cada torre compactada com cuidado, cada fosso escavado com precisão, cada detalhe ajustado com a paciência de quem sabe que areia e tempo não se combinam facilmente.

A areia mais molhada é ótima para fundações, mas não muito boa para modelar detalhes finos. Uma parte dos muros foi feita juntando punhados de areia nas mãos e despejando vagarosamente, dando aquele aspecto de parafina de vela quando se acumula. Para tudo isso, foram necessárias diversas idas ao mar com um baldinho, trazendo água para o fosso a cada vez. O fosso, a cada aplicação, absorvia uma parte da água e mantinha outra. Múltiplas dúzias de vezes repetindo o processo, o fosso finalmente começou a acumular água, assim como fornecia areia molhada para reforçar as estruturas suspensas.

Então passou uma criança, acompanhada de outras duas, um pouco mais velhas. Ela não tropeçou. Ela não estava distraída. Ela olhou para o castelo, olhou para o arquiteto do castelo, e pisou em cima, rindo, com satisfação. As outras duas crianças também riam: "Não tem mais castelo!". Chorar de raiva não é uma opção, afinal, é só um castelo de areia, certo? Que valor tem um castelo de areia?

Existe um fenômeno silencioso e devastador na cultura brasileira que raramente ganha nome, mas que qualquer pessoa que já tentou construir algo reconhece de imediato: a destruição como reflexo, como postura, como identidade. Não a crítica construtiva — essa é bem-vinda e necessária — mas o prazer visceral em ver algo cair. O conforto de quem nunca precisou empilhar grãos de areia porque sempre foi mais fácil chutar, ou pisar em cima. A satisfação de arruinar o dia do outro.

Os alemães têm uma palavra para isso: Schadenfreude — a alegria causada pelo sofrimento alheio, o prazer derivado do fracasso do outro. É uma palavra que o português não criou porque talvez não quisesse nomear algo que reconhece em si mesmo. Mas o sentimento existe, opera, e na vida adulta encontra territórios muito mais sofisticados do que uma praia de verão, ou em castelos de areia feitos por crianças. Ele encontra reuniões, fóruns de tecnologia, comentários em redes sociais. Ele encontra desenvolvedores sênior com quinze, vinte, vinte e cinco anos de experiência e uma tese formada antes de qualquer evidência. Em cima de tudo isso, a amnésia de como eram difíceis os começos.

O Argumento do Impossível

Quando alguém apresenta a ideia de uma linguagem de programação em português — como o projeto de Delégua, que desenvolvemos há anos — existe uma sequência previsível de reações. Ela começa com o riso, o escárnio. Passa pela condescendência ("pra quêêÊ"). E termina, invariavelmente, no argumento técnico emprestado como armadura para um preconceito muito mais antigo.

"Programação é em inglês." Ponto final. Sem discussão.

O curioso é que essa afirmação, repetida por profissionais com décadas de experiência, não é tecnicamente verdadeira — é culturalmente verdadeira. Ela descreve um estado de coisas, não uma lei da natureza. O inglês domina a programação porque os centros de poder que definiram os paradigmas da computação estavam, historicamente, nos Estados Unidos e no Reino Unido. Não porque existe alguma propriedade mística da língua inglesa que a torna mais adequada para instruir máquinas.

Mas o argumento técnico serve a uma função importante: ele transforma o conservadorismo em sabedoria. Ele transforma o desconforto com o novo em experiência acumulada. E, principalmente, ele dispensa o esforço de pensar. Um júnior não se atreve a desafiar o argumento de um sênior, sobretudo se é um subordinado de um sênior. Numa cultura profissional em que gerentes de área possuem o fetiche secreto do controle sobre a vida de seus subalternos, desafiar um dogma desses pode custar um emprego.

Os destruidores de castelo e seus amigos cresceram, se formaram, arrumaram empregos em tecnologia e agem como bullies de qualquer outra pessoa que não siga a ordem sagrada anglófona da tecnologia. No fundo, é pura alegria ao dano.

A Ciência Que Ninguém Leu

Os dados sobre o fracasso do ensino de programação no Brasil existem, estão publicados, passaram por revisão de pares, e são consistentemente ignorados por quem mais deveria conhecê-los.

Bosse e Gerosa documentaram, em estudo publicado pela Universidade de São Paulo em 2015, que a taxa de reprovação nas disciplinas de introdução à programação na USP chegou a 30% no período de 2010 a 2014, com casos individuais ultrapassando 50%. Os números se mantiveram constantes ao longo dos anos. Mais de um quarto dos alunos aprovados no período precisou cursar a disciplina duas vezes ou mais — e isso na universidade mais bem ranqueada do país, com alunos que já passaram por um dos vestibulares mais concorridos. O problema não é a qualidade do aluno. O problema está antes disso.

Em escala nacional, o quadro é igualmente preocupante. O Mapa do Ensino Superior revela uma taxa de evasão de 38,5% nos cursos de TI presenciais — comparada a uma média de 30,7% nas demais áreas. Cursos de Ciência da Computação perdem mais de um terço dos seus alunos antes da conclusão. O Google for Startups, por sua vez, projeta um déficit de 530 mil profissionais de TI no Brasil.

Esses números constroem uma narrativa de crise que, à primeira vista, parece urgente e bem documentada. Mas as soluções propostas revelam, com precisão cirúrgica, onde o raciocínio descarrilha.

Adaptar currículos. Oferecer tutoria. Firmar parcerias com empresas. Criar programas de financiamento estudantil. Implementar educação híbrida. Promover bootcamps. Realizar hackathons.

São frases que poderiam ser extraídas de qualquer documento de política educacional produzido nos últimos trinta anos sobre qualquer curso com alta evasão. Elas têm a vantagem de soarem razoáveis, de não ofenderem ninguém, e de não custarem coisa alguma intelectualmente. São, em linguagem técnica, platitudes — afirmações verdadeiras mas vazias, que identificam o sintoma e propõem remédios para tudo, exceto para a doença.

A doença tem nome. Silva, Santos e Rissoli documentaram-na no Simpósio Brasileiro de Informática na Educação de 2020: o aprendizado inicial de algoritmos se torna significativamente mais difícil quando a linguagem de programação utilizada possui comandos em uma língua estrangeira não dominada pelo aluno. Philip Guo, pesquisador da Universidade da Califórnia em San Diego, foi ainda mais direto em artigo apresentado na CHI 2018 — a principal conferência mundial de interação humano-computador: falantes não-nativos de inglês enfrentam barreiras específicas, documentáveis e distintas ao aprender programação, que não aparecem nos estudos sobre falantes nativos e que os currículos tradicionais simplesmente não abordam.

O mecanismo é conhecido pela psicologia cognitiva há décadas. Aprender a programar já exige um esforço cognitivo considerável por si só: o aluno precisa internalizar uma nova forma de decompor problemas, de pensar sequencialmente, de abstrair. Quando os comandos dessa nova forma de pensar estão escritos em uma língua que ele não domina, o cérebro divide sua capacidade de processamento entre duas tarefas simultâneas — decifrar o idioma e decifrar a lógica. Nenhuma das duas recebe atenção plena. O aprendizado de ambas fica comprometido. Isso não é opinião: é o que a teoria da carga cognitiva, desenvolvida por John Sweller nas décadas de 1980 e 1990, descreve com rigor.

O Brasil é o 81º colocado no English Proficiency Index da Education First, com pontuação considerada "baixa" e em queda contínua. Apenas 5% da população tem algum nível de compreensão do inglês — e apenas 1% pode ser considerado fluente. Quando um curso de Ciência da Computação matricula um estudante de escola pública do interior do Maranhão e o coloca diante de um terminal com if, while, function e return, não está apenas ensinando programação. Está impondo, sem reconhecê-lo, um pré-requisito não declarado: fluência suficiente em inglês para que o vocabulário da linguagem não seja um obstáculo cognitivo ativo.

E então, quando esse estudante reprova ou desiste, os relatórios recomendam tutoria: repetir tudo de novo até passar, ou por omissão, desistir.

Sênior em Destruição

Há uma ironia dolorosa em ver um desenvolvedor com quinze anos de experiência torcer ativamente contra um projeto como Delégua. Esse profissional passou anos aprendendo a lidar com abstração, com sistemas complexos, com a necessidade de comunicar ideias difíceis para públicos variados. Ele sabe, melhor do que ninguém, o custo cognitivo de aprender a programar e aprender inglês ao mesmo tempo — custo que recai, de forma desproporcional, sobre crianças de escolas públicas em cidades do interior do Ceará, do Piauí, do Amazonas.

E ainda assim, ele torce contra.

Não porque avaliou o projeto e encontrou falhas técnicas irremediáveis. Não porque testou a linguagem e identificou limitações de design. Mas porque a existência do projeto o incomoda de um jeito que ele não consegue articular completamente, então ele empresta o vocabulário técnico para dar forma a um sentimento muito mais primitivo: Schadenfreude preventiva. O prazer antecipado do fracasso. A satisfação que virá quando o projeto morrer — e que, enquanto ele não morre, é substituída por uma campanha ativa para que morra logo.

A questão é que os argumentos dessa campanha não resistem ao confronto com os fatos.

A Refutação com Evidências

Os argumentos contra Delégua têm uma característica em comum: nenhum deles foi construído com base em dados verificáveis. São afirmações feitas por quem nunca abriu um terminal e digitou uma única linha de código da linguagem. A seguir, cada um deles é respondido com o que existe, funciona e está disponível publicamente hoje.

"Não é uma linguagem de programação de verdade"

Uma linguagem de programação "de verdade" possui gramática formal, analisador léxico, analisador sintático, representação em árvore de sintaxe abstrata, suporte a paradigmas reconhecidos e uma base de testes que garanta consistência. Delégua tem todos esses componentes.

O repositório principal acumula 2.580 commits, está na versão 1.18.0, licenciada sob a MIT (a mais permissiva de todas as licenças), e conta com 467 estrelas e 41 forks no GitHub — números que não surgem do nada. Sua estrutura inclui um diretório dedicado exclusivamente a gramáticas formais, testes automatizados e exemplos. A linguagem é orientada a objetos, suporta módulos reutilizáveis, depuração linha a linha, e é executável em qualquer dispositivo que interprete JavaScript — computadores, celulares e navegadores.

Mas Delégua não está sozinha. O ecossistema da Design Líquido inclui outras linguagens com gramáticas próprias e implementações independentes: LMHT (Linguagem de Marcação Hiper Texto), equivalente ao HTML em português, com 147 estrelas; FolEs (Folhas de Estilo), equivalente ao CSS e ao SASS, com 161 estrelas; e LinConEs (Linguagem de Consulta Estruturada), equivalente ao SQL, com 133 estrelas. Além disso, Delégua implementa múltiplos dialetos de outras linguagens em português já consolidadas no ensino técnico e superior: Portugol VisuAlg, Portugol Studio, Portugol Mapler, Portugol IPT, Calango, Pituguês e BIRL. Retrocompatibilidade com a linguagem Égua também é garantida.

Isso não é projeto de fim de semana — é infraestrutura de linguagens construída ao longo de anos.

"Não tem uso profissional"

Uso profissional pressupõe que seja possível construir produtos reais com a tecnologia em questão. Delégua passa nesse teste.

O projeto Líquido é um framework web completo para desenvolvimento de aplicações para a internet inteiramente em português. Com ele, é possível criar servidores, rotas, middleware e toda a estrutura de uma aplicação web moderna sem escrever uma palavra em inglês. Aplicações reais em React já foram construídas com ele, incluindo o Stardust (https://stardust-app.com.br), além de uma aplicação em React Native de mesmo nome.

O ecossistema de bibliotecas complementares cobre domínios que qualquer desenvolvedor profissional reconheceria como necessários: delegua-criptografia para operações criptográficas, delegua-imagens para manipulação de imagens, delegua-entidades para modelagem de dados, entre outras. A organização DesignLiquido no GitHub conta com 69 repositórios públicos. Isso não é ausência de uso profissional — é um ecossistema em construção, com a mesma lógica de crescimento que qualquer plataforma jovem de código aberto.
"Não compila para binário"

Este é o argumento técnico que mais impressiona pela desinformação de quem o usa, porque a resposta a ele está disponível publicamente — com benchmarks comparativos.

O projeto delegua-llvm converte código Delégua em representação intermediária LLVM — a mesma infraestrutura usada por Clang (C/C++) e Rust — gerando executáveis nativos para qualquer sistema operacional. O projeto inclui benchmarks com três cenários concretos: cálculo de Fibonacci recursivo até o 40º termo, contagem de números primos até um milhão, e bubble sort sobre um vetor de dez mil elementos. Em todos os casos, o binário gerado por Delégua é compilado com as mesmas otimizações que os equivalentes em C e Rust, e os resultados são verificados para garantir que são idênticos entre as três linguagens antes de medir o tempo de execução.

Além do LLVM, o compilador principal — delegua-nativo — é independente de arquitetura de processador. O núcleo da linguagem suporta ainda tradução direta para assembly x64 (NASM, YASM e FASM) e ARM (Linux e Android). Para suportar Windows — historicamente o sistema mais difícil de configurar com LLVM — a equipe criou do zero dois projetos auxiliares com bindings nativos e versões pré-compiladas do LLVM, algo que muitas linguagens maduras simplesmente não oferecem.

"Não tem ferramentas"

A extensão para Visual Studio Code tem 171 estrelas, 642 commits e está disponível tanto no Visual Studio Marketplace quanto no Open VSX — o repositório de extensões para editores baseados em VS Code no Linux, incluindo VSCodium e Cursor. Funciona tanto na versão desktop quanto na versão web, via https://vscode.dev e https://github.dev.

Suas funcionalidades cobrem o que qualquer desenvolvedor esperaria de um ambiente profissional: destaque de sintaxe, formatação automática, análise semântica com diagnósticos em tempo real, IntelliSense com sugestões e documentação contextual, snippets para construções comuns, depuração linha a linha com inspeção de variáveis, e suporte a múltiplos dialetos. Há ainda um Estilizador — um linter configurável que aplica convenções de nomenclatura (camelCase, snake_case, PascalCase), fortalecimento de tipos e explicitação de parâmetros — integrado diretamente ao ciclo de formatação do editor. A extensão inclui também tradução bidirecional entre Delégua e JavaScript, Delégua e Python, e VisuAlg para Delégua.

O padrão é consistente. Cada objeção, quando confrontada com o repositório correspondente, dissolve-se. O que sobra não é um argumento técnico — é Schadenfreude vestida de competência.

O Custo Real da Destruição

Castelos de areia se reconstroem. Projetos de software, raramente. Cada vez que uma iniciativa como essa é ridicularizada publicamente por vozes de autoridade dentro da comunidade, ela deixa de ganhar algo que não está nos repositórios do GitHub: os contribuidores que poderiam ter aparecido, os estudantes que poderiam ter se interessado, o financiamento que poderia ter chegado se o ambiente fosse apenas um pouco mais hospitaleiro.

A destruição, nesse contexto, não precisa ser ativa. Basta ser vocal o suficiente para esfriar o entusiasmo alheio. Basta um comentário sarcástico no momento certo, de uma pessoa com credibilidade suficiente, para que dez pessoas que estavam dispostas a contribuir decidam, em silêncio, que não vale a pena.

A criança na praia pelo menos foi honesta. Ela olhou nos olhos do criador do castelo, sem sequer esconder sua satisfação.

Construir é um Ato de Amor com as Próximas Gerações

Em uma cultura que recompensa a destruição com atenção e pune a construção com o silêncio ou a chacota, terminar qualquer coisa é um ato de perseverança e determinação. Publicar uma linguagem de programação em português, com documentação, com casos de uso, com gramáticas formais, com compilação para binário, com extensão de editor e com uma comunidade — mesmo que pequena — é recusar a lógica de que só o que vem de fora merece existir.

Não dizemos que Delégua é perfeita. Dizendo que ela existe, que continua existindo apesar de tudo, e que isso, em si, já é uma resposta completa para todo desenvolvedor sênior que um dia passou os olhos no projeto e decidiu, sem ler uma linha sequer do código fonte, que era uma bobagem. Atualmente, estamos testando o potencial de Delégua com professores e alunos de três países: Brasil, Angola e Moçambique. Mal podemos esperar pelo fechamento do ano letivo para obtermos o resultado. Em breve queremos ter estudos com amostras significativas de alunos, para finalmente produzirmos a prova fundamental da importância da eliminação da barreira da língua.

O castelo de areia está de pé.

Pode vir.

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