Construindo um sistema de crescimento orientado a campanhas, conteúdo e inteligência aplicada
Nos últimos tempos tenho pensado bastante sobre uma dor recorrente em projetos digitais: muitas pessoas e pequenos negócios produzem conteúdo, fazem campanhas, testam ideias e usam ferramentas de IA, mas quase sempre tudo fica espalhado.
Uma parte está em planilhas.
Outra está em ferramentas de tarefas.
Outra em conversas de WhatsApp.
Outra em documentos soltos.
E, quando chega a hora de entender o que funcionou, o histórico já está fragmentado demais.
A partir dessa observação, comecei a estruturar um projeto pessoal que chamo, por enquanto, de um sistema operacional de crescimento.
A ideia não é simplesmente criar mais uma ferramenta de calendário editorial. O objetivo técnico é modelar um fluxo completo que conecte:
- campanhas;
- objetivos;
- planejamento de conteúdo;
- geração de briefs;
- memória e conhecimento;
- métricas;
- aprendizado contínuo.
O projeto ainda está em construção, mas já vem servindo como um bom laboratório para decisões de arquitetura, modelagem de domínio e uso responsável de IA em produto.
A ideia geral do sistema
O funcionamento, em alto nível, é simples.
O usuário define uma campanha, informa um objetivo e organiza conteúdos em torno dessa estratégia. Cada conteúdo pode ter um formato, uma plataforma, um status e uma data planejada.
A partir disso, o sistema ajuda a responder perguntas como:
- o que precisa ser produzido esta semana?
- quais conteúdos estão em atraso?
- quais campanhas estão em andamento?
- quais objetivos cada conteúdo atende?
- quais ideias ainda precisam virar roteiro?
- quais conteúdos já foram publicados?
- quais aprendizados surgiram a partir dos resultados?
A proposta é transformar um processo normalmente disperso em um fluxo mais rastreável.
Em vez de tratar cada post, vídeo ou roteiro como item isolado, o sistema passa a enxergar tudo dentro de um contexto: campanha, fase, objetivo, plataforma, formato e resultado.
Modelagem de domínio antes da interface
Uma decisão importante foi começar pela modelagem do domínio, não pela tela.
Em projetos desse tipo, é tentador começar desenhando dashboard, calendário e cards bonitos. Mas, sem um domínio bem definido, a interface acaba virando apenas uma camada visual em cima de dados frágeis.
Por isso, a base do projeto está sendo organizada em torno de entidades como:
Campaign
ContentPlan
Content
ContentObjective
FlagPost
StorySequence
StoryFrame
AiBrief
KnowledgeItem
Memory
Cada uma representa uma parte do processo.
A Campaign organiza o contexto maior.
O ContentPlan representa o planejamento editorial.
O ContentObjective define o motivo daquele conteúdo existir.
O AiBrief guarda uma solicitação estruturada de apoio inteligente.
O KnowledgeItem representa conhecimentos reutilizáveis.
A StorySequence permite modelar conteúdos compostos, como sequências de stories.
Essa modelagem ajuda a evitar que tudo vire apenas uma tabela genérica de “tarefas”.
Pipeline editorial
Outro ponto central do projeto é o pipeline editorial.
Um conteúdo não nasce pronto. Ele normalmente passa por etapas:
idea → planned → scripted → recorded → edited → ready → published → archived
Esse ciclo permite entender em que estágio cada item está e quais gargalos existem.
Na prática, isso abre espaço para visualizações como:
- conteúdos por status;
- calendário semanal;
- itens prontos para publicar;
- roteiros pendentes;
- conteúdos gravados, mas ainda não editados;
- publicações já realizadas;
- campanhas sem conteúdo suficiente.
A intenção é que o sistema funcione como uma camada de operação, não apenas de cadastro.
IA como capacidade do produto, não como prompt solto
Uma parte importante do projeto é o uso de IA para apoiar a criação de briefs, roteiros, sequências de conteúdo e sugestões de adaptação por plataforma.
Mas estou tentando tratar IA de uma forma mais arquitetural.
Em vez de simplesmente salvar prompts livres e chamar diretamente um modelo específico, a ideia é caminhar para um modelo baseado em intenções e contratos.
Por exemplo, em vez de pensar apenas em:
"gere um post para Instagram sobre esta campanha"
o sistema pode estruturar algo mais próximo de:
intent: generate_content_brief
campaign_context: ...
objective: ...
platform: instagram_reels
format: short_video
constraints: ...
tone: ...
Essa abordagem facilita:
- trocar de provedor de IA no futuro;
- testar fluxos sem depender sempre de chamadas reais;
- auditar o contexto usado;
- separar regra de negócio de prompt;
- padronizar entradas e saídas;
- reduzir acoplamento entre produto e fornecedor.
Para mim, esse é um ponto cada vez mais importante em produtos que usam IA: a IA precisa ser uma capacidade integrada ao sistema, não uma dependência escondida em textos soltos.
Memória e conhecimento
Outro desafio interessante é lidar com conhecimento reutilizável.
Em um sistema de crescimento, nem tudo é conteúdo. Existem informações que precisam ser lembradas:
- tom de voz;
- preferências de comunicação;
- público-alvo;
- aprendizados de campanhas anteriores;
- mensagens que funcionaram;
- mensagens que não funcionaram;
- restrições de marca;
- padrões editoriais;
- hipóteses validadas;
- ideias descartadas.
Por isso, o projeto separa conteúdos operacionais de itens de conhecimento.
A ideia é que o sistema consiga diferenciar, por exemplo:
- um fato;
- uma preferência;
- uma regra;
- uma hipótese;
- um aprendizado;
- uma orientação editorial.
Isso é essencial para que a IA não receba contexto desorganizado e para que as decisões futuras sejam mais consistentes.
Métricas e aprendizado contínuo
A etapa seguinte é conectar planejamento e resultado.
Publicar conteúdo é apenas parte do processo. O valor real aparece quando conseguimos entender o que aconteceu depois.
Mesmo que inicialmente as métricas sejam cadastradas manualmente, a estrutura precisa permitir análises como:
- quais formatos performaram melhor;
- quais plataformas geraram mais resposta;
- quais objetivos tiveram mais tração;
- quais campanhas produziram mais aprendizado;
- quais conteúdos merecem reaproveitamento;
- quais hipóteses foram reforçadas ou descartadas.
O ponto aqui não é criar uma ferramenta avançada de analytics logo no início. É criar uma base onde métricas e aprendizados possam ser relacionados ao planejamento original.
Sem isso, o processo vira apenas produção contínua, mas sem melhoria contínua.
Stack técnica
Neste primeiro momento, estou usando uma stack moderna e relativamente enxuta:
Next.js
React
TypeScript
Prisma
SQLite/PostgreSQL
Zod
Vitest
Tailwind
shadcn/ui
A escolha por Next.js e TypeScript permite trabalhar produto, interface e backend em uma base única.
O Prisma ajuda a formalizar o domínio e manter a evolução do banco mais controlada.
O uso de testes com Vitest entra principalmente para validar regras de negócio, transições de status, contratos e comportamentos críticos.
A ideia não é apenas fazer o sistema funcionar, mas manter uma base evolutiva e testável.
Principais desafios técnicos
Alguns desafios têm sido especialmente interessantes:
- Separar produto de caso específico
O sistema pode nascer de uma dor concreta, mas precisa ser modelado de forma genérica o suficiente para atender outros contextos. - Evitar que tudo vire tarefa
Campanha, conteúdo, roteiro, aprendizado e métrica são coisas diferentes. Misturar tudo simplifica no início, mas prejudica a evolução. - Tratar IA com governança
Usar IA é simples. Integrar IA com rastreabilidade, contexto, fallback e revisão humana é outra história. - Criar uma memória útil
Guardar informação é fácil. O difícil é organizar conhecimento de forma que ele seja reutilizável e não vire ruído. - Equilibrar escopo e entrega
Um sistema desse tipo pode crescer demais rapidamente. Por isso, estou priorizando um MVP operacional antes de recursos mais sofisticados.
Próximos passos
Os próximos passos do projeto são:
- consolidar o fluxo de campanhas;
- melhorar o calendário editorial;
- estruturar melhor os briefs inteligentes;
- criar uma camada de conhecimento reutilizável;
- adicionar métricas manuais;
- documentar decisões técnicas;
- publicar uma versão demonstrável;
- manter o repositório com README, screenshots, arquitetura e testes.
Mais do que criar uma ferramenta finalizada, este projeto tem servido como laboratório para pensar em produto, arquitetura e automação de forma integrada.
Conclusão
Projetos pessoais podem ir além de CRUDs, clones e tutoriais.
Quando escolhemos um domínio com problemas reais, mesmo um projeto pequeno pode demonstrar muita coisa: modelagem, arquitetura, produto, testes, IA aplicada e capacidade de transformar processos confusos em sistemas mais claros.
Esse é o objetivo deste laboratório.
Construir um sistema que ajude a planejar, executar e aprender com campanhas de crescimento, mas que também sirva como vitrine técnica de decisões bem pensadas.
No fim, a tecnologia mais interessante não é a que apenas automatiza tarefas.
É a que organiza melhor o processo de decisão.