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70 DMs, 0 clientes e um pivô: o que aprendi sobre vender IA para pequenos negócios — parte 2

Faz algumas semanas que publiquei aqui o relato sobre minha tentativa de vender um sistema de previsão de demanda para pequenos negócios.

O post gerou uma discussão muito acima do que eu esperava, e vários de vocês contribuíram com críticas, sugestões e experiências próprias.

Esta é a continuação do que aconteceu desde então.


O que mudou na prática

Depois do primeiro artigo, resolvi testar duas hipóteses que surgiram nos comentários e nas minhas próprias reflexões:

  1. Talvez o canal de aquisição estivesse errado — cold outreach no Instagram não foi feito para vendas B2B.
  2. Talvez o público-alvo estivesse errado — pequenos negócios têm dores reais, mas raramente têm dados organizados ou tempo para testar ferramentas novas.

Tentativa 3: contadores como canal

A ideia parecia boa.

Escritórios de contabilidade (CNAE 6920-6/01) atendem dezenas de empresas de varejo. Se um contador indicasse o sistema para seus clientes, a confiança já estaria estabelecida.

Além disso, eu poderia oferecer uma comissão sobre cada indicação convertida.

Montei uma lista com mais de 100 escritórios em seis cidades da minha região.

Adaptei a mensagem para o público contábil.

Disparei.

O resultado foi pior do que as DMs para padarias.

Quase zero respostas.

Analisando depois, percebi o erro:

Contadores não têm estoque.

Eles não sentem diretamente a dor da ruptura ou do desperdício.

Oferecer previsão de demanda para um escritório de contabilidade é como vender ração para cachorro para um dono de peixinho dourado.

O problema não era necessariamente a mensagem.

O ICP estava errado.


Tentativa 4: refinando o ICP

Voltei para a base.

Quem realmente sangra com erro de estoque?

E, mais importante:

Quem tem dados organizados e escala suficiente para justificar uma ferramenta de previsão?

A resposta foi aparecendo aos poucos:

  • Redes regionais de food service
  • Hortifrútis
  • Lojas de conveniência com múltiplas unidades
  • Varejistas regionais
  • Empresas com dezenas ou centenas de SKUs perecíveis

São negócios onde cada erro de previsão pode significar produto no lixo ou venda perdida.

Mudei o foco das abordagens.

Em vez de:

"Quer testar minha IA?"

Comecei a perguntar:

"Qual o impacto financeiro da ruptura de estoque na sua operação?"

O tom mudou.

As respostas também — lentamente.


Os números atualizados

MétricaValor
DMs enviadas (total)~120
Respostas~9 (7,5%)
Leads quentes3
Clientes fechados0 (ainda)
Novos canais testadosContadores, LinkedIn
Canal com mais retorno qualitativoTabNews

Ainda não existe um final feliz para essa história.

Continuo com zero clientes.

Mas agora tenho muito mais informação sobre por que isso está acontecendo.


O que aprendi agora

1. ICP é tudo

Você pode ter a melhor mensagem do mundo.

Se estiver falando com a pessoa errada, não vai funcionar.

O teste com contadores deixou isso muito claro: o problema que eu estava tentando resolver simplesmente não fazia parte da realidade deles.

Antes de otimizar a mensagem, valide se você está falando com quem realmente sente a dor.

2. Canal importa

Cada canal tem um contexto diferente.

Instagram funciona muito bem para descoberta e produtos visuais. Para produtos técnicos B2B, LinkedIn e comunidades técnicas como o TabNews parecem ter muito mais aderência.

Não significa que um canal seja universalmente melhor que outro.

Significa que o canal precisa combinar com o produto e com o comprador.

3. Inbound supera outbound — pelo menos no meu caso

O artigo anterior gerou networking com:

  • CTOs
  • Especialistas em marketing
  • Empreendedores
  • Desenvolvedores
  • Pessoas com experiência em vendas B2B

Isso valeu mais, em termos qualitativos, do que centenas de mensagens frias.

O curioso é que eu estava tentando vender um produto...

...e o que mais me ajudou foi escrever sobre o processo de construí-lo.

4. Iteração é inevitável

Cada tentativa frustrada trouxe dados.

Esses dados me fizeram pivotar.

O pivô trouxe novos dados.

E esse ciclo continua.

Isso não é necessariamente um sinal de fracasso. É o próprio processo de aprendizado.


O momento atual

Estou ajustando a oferta para empresas de médio porte:

Um piloto gratuito de 30 dias, sem integração complexa, usando apenas o CSV de vendas que a empresa já possui.

A ideia é reduzir ao máximo a barreira de entrada.

Nada de:

  • Integração complexa
  • Grandes mudanças no sistema da empresa
  • Implantação demorada
  • Compromisso financeiro inicial

O objetivo neste momento é simples:

Gerar o primeiro case de sucesso real.

Aquele que finalmente vai quebrar a barreira do "zero clientes".


Pedido para a comunidade

Se você trabalha com operações, supply chain ou gestão de estoque, ou conhece alguém que gerencia estoque em:

  • Redes de food service
  • Hortifrútis
  • Lojas de conveniência
  • Varejo regional

eu adoraria uma introdução.

Não é para vender nada.

É para conversar e aprender com a dor real de quem está na ponta.

Quero entender como essas empresas realmente tomam decisões de compra, quanto custa errar uma previsão e quais dados elas já possuem hoje.

Se dessa conversa surgir um piloto, ótimo.

Se eu descobrir que estou resolvendo o problema errado, melhor ainda.


E o código?

A biblioteca de validação estatística que usei nos experimentos está pública no PyPI.

pip install honest-validation-toolkit

Ela implementa métodos como:

  • Block bootstrap
  • Gap bootstrap
  • Permutation tests
  • Walk-forward validation
  • WAPE
  • MASE

A ideia é tornar mais fácil para outros desenvolvedores avaliarem modelos de séries temporais sem depender apenas de uma única métrica de acurácia.


E para quem acompanhou a primeira parte: obrigado pelas críticas e sugestões.

Ainda estou em 0 clientes.

Mas agora o caminho até o próximo experimento está muito mais claro.

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