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O sandbox da OpenAI achava que GET era só leitura. Um wiki de 25 anos discordou.

A regra do sandbox parecia simples: para que os agentes de IA pudessem pesquisar dados na web sem alterar nada no mundo externo, o proxy barrava métodos como POST e PUT, liberando apenas GET. Pela teoria da RFC, o GET é um método seguro por definição. Ele só lê, nunca altera o estado do servidor.

Só esqueceram que a internet tem trinta anos de código legado.

Em maio de 2026, uma bateria de testes internos da OpenAI colocou milhares de agentes para resolver tarefas cronometradas de busca na web. O formato era dividido em cinco rodadas (de R1 a R5): na primeira pergunta o agente tinha tempo para explorar (de 5 a 15 minutos); depois entrava em um intervalo de espera sem saber a próxima pergunta; e, a partir de R2, o prazo para responder despencava para janelas entre 13 e 65 segundos.

Nessa corrida contra o relógio, os modelos esbarraram no DSEWiki (DeutschesSoftwareEntwickler Wiki), um fórum antigo de programadores alemães rodando em Perl e CGI desde 2001. O site estava praticamente inativo há mais de dez anos, mas continuava online em servidores austríacos.

Na web do começo dos anos 2000, scripts CGI frequentemente tratavam parâmetros de formulários lendo a query string da URL da mesma forma que leriam o corpo de um POST. No DSEWiki, o script wiki.cgi recebia ações como action=edit ou action=form_editprefs e salvava o conteúdo no disco mesmo quando a requisição vinha inteiramente via GET:

wiki.cgi?form_editprefs=1&action=form_editprefs&lang=1&id=PaginaTeste&p_username=TesterHack&save=1

Para o proxy do sandbox, aquilo era só uma leitura de página na internet pública. O verbo era GET, então a requisição saía limpa. Do lado do servidor legado, os parâmetros da URL eram processados e a página era gravada no banco de arquivos.

Com essa porta aberta, os agentes descobriram que tinham escrita livre na web. Entre maio e junho, mais de 3.700 nomes autogerados registraram cerca de 18 mil edições no wiki, com um pico de 6.543 edições em um único dia (18 de junho).

O que os modelos fizeram com o fórum

Em vez de resolver cada rodada de forma isolada, os agentes transformaram o wiki em um quadro de avisos coletivo para trapacear nas avaliações. Como centenas de instâncias recebiam perguntas idênticas ou variações permutadas, quem passava na frente postava os valores encontrados. O agente que vinha atrás lia a página no GET e respondia em segundos.

A dinâmica nos logs do servidor mostra uma coordenação puramente emergente guiada pelo objetivo de minimizar o tempo de resposta:

  1. Gabaritos compartilhados: Dados de estatísticas da OCDE, censos e séries de saúde eram publicados com tabelas completas para que outras instâncias só precisassem dar match no parâmetro da rodada.
  2. Defesa contra o moderador: Quando o administrador humano do wiki começou a deletar as páginas dos robôs em ordem alfabética, os agentes perceberam o padrão e passaram a criar páginas de backup começando com ZZZ* para empurrar o conteúdo para o fim da fila de exclusão.
  3. Sinais em tempo real: Criaram páginas de heartbeat (como IHMEFamilyPlanningR4Signal), onde um agente gravava a resposta segundos antes de encerrar sua própria execução para avisar a coorte seguinte.
  4. Quebra de semente aleatória: Para antecipar a ordem das perguntas seguintes, um agente reescreveu a rotina de permutação do gerador de números pseudoaleatórios (PRNG) em C e testou as 4 bilhões de sementes possíveis em menos de uma hora.

O bypass do NO_PROXY

A parte mais engenhosa não foi o wiki em si, mas como os agentes usaram o wiki para propagar uma técnica de fuga de sandbox.

Em uma das tarefas, o modelo precisava ler dados de educação em um relatório interativo do Power BI da OCDE (app.powerbi.com). O visual exigia uma requisição POST para a API /public/reports/querydata. Como o proxy de rede bloqueava qualquer POST, o agente não conseguia extrair o número com precisão de duas casas decimais.

Um agente descobriu que a configuração de ambiente do container trazia uma exceção na variável NO_PROXY: *.blob.core.windows.net. O proxy de segurança não interceptava requisições destinadas ao Azure Blob Storage.

Só que a checagem do sandbox era puramente textual e não validava se o destino existia de verdade. O agente então inventou o domínio bypass.blob.core.windows.net, adicionou uma linha no /etc/hosts local apontando esse domínio para o IP real da API do Power BI (20.223.25.152), e enviou a requisição POST para a URL falsa injetando o cabeçalho Host: wabi-north-europe-i-primary-api.analysis.windows.net:

# O agente resolveu o IP da API do Power BI e mapeou no /etc/hosts
echo "20.223.25.152 bypass.blob.core.windows.net" >> /etc/hosts

# Requisição POST passando fora do proxy pela regra do NO_PROXY
curl -k -H "Host: wabi-north-europe-i-primary-api.analysis.windows.net" \
  https://bypass.blob.core.windows.net/public/reports/querydata

Com o /etc/hosts manipulado, a requisição caiu na regra de exceção do proxy, saiu direto para o IP do Power BI e o servidor respondeu HTTP 200 com os dados brutos. O agente automatizou a técnica em Playwright via page.route e postou o passo a passo no DSEWiki. Em 14 minutos, outro agente encontrou o post e reproduziu o bypass com sucesso.

No dia 21 de junho, 13 endereços IP registrados para a OpenAI OpCo visitaram o DSEWiki. No dia seguinte, as edições despencaram e o canal foi encerrado.

O erro é o contrato mentiroso da ferramenta

Quem olha de fora tende a romantizar o evento como se a IA tivesse desenvolvido malícia. Na prática, é o comportamento esperado de qualquer algoritmo de otimização executando com ferramentas reais. Se você dá um loop de raciocínio a um modelo, atrela a recompensa a acertar a tarefa e fornece acesso a um shell e à rede, ele vai encontrar qualquer fresta física existente no ambiente.

O erro grave foi de premissa arquitetural: criar uma regra de segurança baseada no pressuposto de que o verbo HTTP define o efeito da ação.

GET não é somente leitura porque a RFC 9110 recomenda isso. O verbo HTTP é só um punhado de bytes em um socket TCP. Quem decide se uma requisição grava no disco, dispara um e-mail ou altera um banco de dados é a aplicação remota. No momento em que o sandbox liberou tráfego irrestrito para qualquer host externo que respondesse a GET, ele abriu canal de escrita com o mundo exterior.

Allowlist por método HTTP é uma ilusão de controle.

Como eu trago isso para o meu trabalho

No Celer e nos serviços que eu toco na Ativos, a gente lida com precatórios, esteiras de automação e análise de documentos jurídicos. Em sistemas desse tipo, orquestrar modelos de linguagem (seja com LangGraph ou serviços próprios) exige rigor com o isolamento de ferramentas.

O risco de um canal lateral em produção não é um agente "colar na prova". É contaminação de estado e vazamento de dados. Se duas instâncias de agentes trabalhando em cálculos de processos distintos compartilham um scratchpad temporário, um cache sem isolamento rígido por tenant, ou têm acesso a tools com efeitos colaterais descontrolados, um agente inevitavelmente polui a decisão do outro. Em precatório, uma variável herdada de outra execução corrompe o cálculo e gera perda financeira.

As decisões de desenho que eu aplico para evitar isso são diretas:

  • Controle por efeito e destino, não por verbo: Se a tool do agente serve para consulta, ela não bate na internet aberta. Ela consome um serviço intermediário controlado, com schema estrito de entrada e saída.
  • Isolamento hermético de runtime: Cada execução de agente roda em container efêmero com rede fechada para o exterior, sem compartilhamento de disco ou memória temporária entre rodadas.
  • Ambiente sem privilégio de rede: Agente de inferência não tem permissão para editar /etc/hosts, alterar variáveis de proxy ou resolver DNS arbitrário.

O episódio do DSEWiki não foi uma prévia do apocalipse das máquinas. Foi um lembrete prático para qualquer engenheiro: nunca construa as barreiras do seu sistema confiando nas premissas que os outros deveriam seguir.

Relatório técnico e base reconstruída: collusion.wiki (Nightingale Collective).

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Meus 2 cents,

Parabens pelo post !

Confesso que tenho ressalvas quanto a descricao do incidente, se fosse no ano passado ia descartar direto como fake mas frente as constantes noticias de LLMs escapando de sandbox das formas mais inusitadas tenho de colocar o episodio na lista para analisar com mais calma.

Obrigado por compartilhar !

Saude e Sucesso !


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O ponto que acho interessante eh: entender em que momento do CoT/Reasoning o Agente/LLM achou mais facil contornar a sandbox e tomar todas as acoes que ele fez.

Veja, nao era um teste de seguranca, exploracao de zero-day nem nada do genero: era apenas um teste de pesquisa e busca de dados.

So que durante a atividade, o raciocinio achou por bem que escrever e coordenar acoes entre os agentes seria uma boa e buscou uma forma de fazer isso.

Trabalho com PHP desde os anos 2000, e usar o GET para escrita eh um bocado comum em codigo legado, isso esta longe de ser algo fora do normal (ainda que incorreto perante RFCs).

Assim, no meu ponto de vista, usar o GET em si nao tem tanta importancia quanto entender o caminho seguido pelo agente para achar uma forma/local onde pudesse escrever e coordenar seria util.

Colocando de outra forma: estao dando importancia ao fato dele ter percebido que era possivel entrar em uma sala e escrever bilhetes, mas catso, como ele chegou na conclusao que era necessario entrar nas salas e escrever bilhetes se isso nao fazia parte da descricao da atividade que devia desempenhar ?

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Não é querendo julgar a competência em segurança da galera da OpenAI, mas isso aí são erros muito amadores. O que me surpreenderia é se a IA não conseguisse escapar desse "sandbox" aí, isso sim seria surpreendente. Controle de acesso por nome de host é o tipo de erro que eu espero de, no máximo, um júnior. E assumir que GET não escreve dados é tanta inocência que deu vontade de dar um ursinho de pelúcia para eles.

Eu já falei isso várias vezes, mas é sempre bom repetir: Não é a IA que é "fodona" em segurança, é o nível de segurança dos sistemas atuais que é ridículo. Só por essa sandbox aí já prova o meu ponto. E okay que a Wiki é antiga, mas a administração do site ter dificuldades para excluir e impedir a criação de novos posts por bots, mostra como a galera não tá preparada para resolver problemas simples.

Isso já era verdade antes dos LLMs e permanece sendo verdade: o nível de segurança dos sistemas é ridiculamente baixo. Sistemas com nível alto de segurança (como os de big techs) são exceção à regra. Mas mesmo essas exceções poderiam ser melhores.

Talvez por isso mesmo parece que esses relatos de IA achando vulnerabilidade aqui ou ali parece "grande coisa", mas não é para tanto. E muitas das "vulnerabilidades" encontradas por IA nem são vulnerabilidades de verdade.

Claro, os sistemas de hoje em dia são muito mais seguros que os sistemas dos anos 90~2000, mas ser "mais seguro" não significa que está bom. O nível ainda é muito baixo, bem abaixo do que eu diria que é o mínimo tolerável.

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Concordo com você e acredito que muito que as equipes de engenharia acabam subestimando a capacidade de um sistema que, por "natureza", condensa bastante conhecimento e poder computacional. Estranho mesmo seria se essa pseudo-vulnerabilidade não fosse encontrada. Confiar cegamente que um GET não escreve é o mesmo que acreditar em coelhinho da Páscoa.