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Automatizei minha declaração de imposto com Claude Code: 14 horas viraram 47 minutos (e o que a Receita ainda não sabe)

Nas últimas cinco declarações de IRPF eu perdi, sem exceção, um fim de semana inteiro dentro de uma planilha. O ritual era mais ou menos assim: sexta à noite eu abria o Excel jurando que dessa vez ia ser rápido. Domingo à noite eu ainda estava tentando entender por que o extrato do Nubank não batia com o cartão da Caixa em três centavos.

Total, nas contas do ano passado: 14 horas de teclado colado na planilha, distribuídas em três finais de semana. Sem contar o fim de tarde de terça em que eu descobri que tinha esquecido a nota fiscal do dentista.

Esse ano eu tentei diferente. Montei um harness em Claude Code, plugado num MCP que puxa extrato via Open Finance, e deixei o agente fazer o serviço bruto. O resultado ficou em 47 minutos de revisão minha, do começo ao fim.

Vou contar como, com o que ainda não funciona, e — importante — em quais partes eu ainda não confio na IA sozinho.

O contexto de 2026 (Receita, prazo, pré-preenchido)

Antes de qualquer código, três coisas do calendário fiscal desse ano que mudaram o cálculo:

  • Prazo IRPF 2026: 15 de março a 31 de maio de 2026. Quem entregou depois pagou multa mínima de R$ 165,74.
  • O pré-preenchido da Receita ganhou mais amplitude — inclui agora dados de previdência complementar e informe do INSS puxado direto do eSocial.
  • Limite de dedução por dependente: R$ 2.275,08. Educação: R$ 3.561,50 por pessoa. Saúde: sem teto (mas exige comprovante).

Esses três números vão aparecer na hora de conferir. Guarde eles no cache mental.

Fluxo Claude Code + MCP: extratos → categorização → carnê-leão → conferência com pré-preenchido

O harness em quatro peças

Não é nada sofisticado. Quatro peças:

  1. Claude Code rodando local (subscription Pro, sem estourar quota)
  2. MCP server que fala com Open Finance via Belvo (poderia ser Pluggy — testei os dois, Belvo tinha mais bancos com sandbox estável)
  3. Um CLAUDE.md de 60 linhas com as regras de categorização (o que é dedutível, o que não é, formato da resposta)
  4. Uma planilha final em CSV para eu importar no programa da Receita ou no freee-like que eu uso

O agente não toca no site da Receita. Isso é importante e volto nisso.

Passo 1: puxar extratos

O MCP Belvo expõe uma ferramenta list_transactions(institution_id, from, to) que devolve um JSON com todas as transações do ano. Rodei uma vez para cada conta (banco principal, banco secundário, cartão de crédito, corretora). Consolidado no meu caso: 1.847 transações em 2025.

O prompt inicial foi só isso:

Puxe todas as transações de 2025 das quatro contas conectadas.
Devolva um único CSV com colunas: data, banco, descrição, valor, tipo.
Tipo: crédito, débito, transferência-interna, aplicação.

Tempo: 4 minutos. A parte que demorou foi a corretora (Open Finance para investimentos ainda é meio capenga em 2026).

Passo 2: categorização com regras dedutíveis

Aqui o Claude ganhou o dia. O CLAUDE.md tinha as regras:

# Regras de categorização IRPF 2026

## Dedutíveis
- Saúde: hospital, plano de saúde, dentista, psicólogo, laboratório
  → precisa comprovante fiscal
- Educação: mensalidade escolar/universidade (não inclui cursos livres)
  → teto R$ 3.561,50/dependente
- Previdência privada PGBL: até 12% renda bruta

## Não dedutíveis (mas classificar)
- Alimentação, transporte, lazer, vestuário
- Investimentos → tratar separado (carnê-leão, ganho de capital)

## Ambíguos → deixe para revisão manual
- Farmácia (só com nota fiscal e prescrição)
- Cursos técnicos (depende do CNAE do fornecedor)

Depois foi só rodar:

Categorize o CSV de transações usando as regras do CLAUDE.md.
Marque itens ambíguos com [REVISAR].
Devolva o CSV com uma nova coluna: categoria_fiscal.

O Claude classificou 1.664 das 1.847 transações. Deixou 183 marcadas [REVISAR]. Passei por elas em 12 minutos, quase tudo era farmácia e assinatura de serviço (spoiler: eu tinha 7 streamings ativos, dois esquecidos).

Passo 3: carnê-leão para os pró-labores

Meu caso tem uma complicação: recebo pró-labore de duas PJs próprias, e isso vai para carnê-leão mensal, não para o pré-preenchido.

O agente gerou uma planilha mês a mês com os valores brutos, INSS retido, IR retido na fonte, e o cálculo do carnê-leão baseado na tabela progressiva 2025. Cruzei com o que eu já tinha pago pelo eCAC. Deu diferença de R$ 43 em um mês (juros de mora que eu não tinha computado). Ajustei manualmente.

Tempo: 8 minutos incluindo a conferência.

Passo 4: conferir contra o pré-preenchido

Baixei o pré-preenchido pelo eCAC (isso continua manual — o Claude não tem acesso ao meu certificado digital, e nem quero que tenha). Salvei o XML.

Compare o pré-preenchido (arquivo anexo) contra o CSV categorizado.
Liste:
- Rendimentos que estão no pré-preenchido mas não no meu CSV
- Rendimentos que estão no meu CSV mas não no pré-preenchido
- Divergências de valor acima de R$ 10

Duas divergências apareceram:

  • Um rendimento de aplicação de R$ 384 que a corretora tinha reportado à Receita mas que meu MCP não puxou (bug do Belvo, tema para outro artigo)
  • Uma diferença de R$ 0,73 em juros de conta poupança (arredondamento — irrelevante)

A primeira eu adicionei manualmente. A segunda ignorei. Total de conferência: 15 minutos.

O total

Somando tudo, 47 minutos. Contra 14 horas do ano passado.

Etapa2025 (manual)2026 (Claude + MCP)
Consolidar extratos4h 30min4min
Categorizar despesas5h 00min12min (revisão de ambíguos)
Carnê-leão pró-labore2h 20min8min
Cruzar com pré-preenchido1h 40min15min
Retrabalho / achar comprovante30min8min
Total14h 00min47min
Custo IA (Sonnet 4.6 + MCP calls)R$ 6,20

Sim, R$ 6,20 de API. O harness inteiro. Se você quer o número que impressiona planilha de ROI: 14 horas de trabalho meu (a R$ 200/h como consultor sênior de dev, seja modesto) viraram 47 minutos. Sobrou R$ 2.786 na conta.

Onde eu ainda não confiaria

Agora a parte que eu queria fazer questão de dizer.

Não deixei o agente falar com o site da Receita. Nem via automação de browser, nem MCP, nem nada. O eCAC é meu, o certificado é meu, a assinatura da declaração é minha, e a responsabilidade legal também. Se o agente errar categorização em R$ 500 e a Receita cair em cima, quem paga a malha fina sou eu, não a Anthropic.

Isso não é paranoia gratuita. Eu já rodei um agente autônomo por 24 horas seguidas em modo --dangerously-skip-permissions e caí em três incidentes de segurança. Um agente autônomo com acesso ao eCAC seria um vetor maravilhoso para o mesmo tipo de estrago, só que com a Receita como testemunha.

Regra pessoal: o agente pode ler, calcular, sugerir. Não pode assinar, submeter, autenticar. A fronteira é onde tem irreversibilidade jurídica.

Não confiei na categorização automática de itens ambíguos. O [REVISAR] existe porque farmácia sem nota fiscal simplesmente não é dedutível, e o agente às vezes categoriza pelo nome do estabelecimento sem verificar se o comprovante fiscal veio junto.

Não confiei no carnê-leão sem cruzar com o eCAC. A tabela progressiva muda, alíquotas mudam, e o pró-labore de PJ próxima tem regras específicas de INSS que o Claude, honestamente, não domina em 2026 nem se você der o CLAUDE.md mais detalhado do mundo.

O que a Receita ainda não sabe

O título é meio dramático mas o ponto é sério.

A Receita tem hoje muito mais dados sobre você do que você imagina (Open Finance, DIRF, Dimob, e-Financeira, eSocial, CBS piloto...). O pré-preenchido é a ponta do iceberg. Nos próximos 2-3 anos, provavelmente 80% da declaração pessoal comum será pré-preenchida por completo.

O que a Receita ainda não consegue automatizar é o julgamento — "essa despesa é dedutível?", "esse rendimento é isento?", "esse aporte foi PGBL ou VGBL?". É exatamente aí que o Claude + MCP + CLAUDE.md bem escrito me deram vantagem: eu virei o auditor da minha própria declaração, não mais o digitador.

A Receita não sabe (ainda) que essa camada de julgamento agora dura 47 minutos. Ela vai descobrir quando a próxima onda de fiscalização automática começar a bater contra pessoas físicas que declararam bem demais para o padrão médio da faixa. Aí a régua sobe.

Se você vai tentar

Três dicas rápidas para quem vai rodar o mesmo em 2026:

  1. Comece pelo CLAUDE.md, não pelo código. Um CLAUDE.md bem escrito com as regras de dedução vale mais que qualquer prompt engineering rebuscado.
  2. Não conecte a corretora no primeiro ano. Investimentos + Open Finance ainda é um caos cheio de bug. Faça manual, ganhe confiança no resto do fluxo.
  3. Guarde os prompts. Ano que vem você repete. Meu CLAUDE.md do IRPF 2026 vai ser 90% igual em 2027. É um investimento de 60 linhas que rende para sempre.

Fim de semana livre, R$ 2.786 na conta, malha fina zero. E o mais importante: o Claude não sabe onde eu guardo o certificado digital. Continua sendo assim.


ken imoto · WebRTC & Voice AI engineer · kenimoto.dev · TabNews

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Eu acho muito estranho ter que confiar/usar esses proxy da Open Finance. São empresas terceiras que acaba tendo acesso a todas as suas contas. Fico muito desconfiado com isso, mas não tenho noção real do impacto e nos riscos.

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Só um adendo sobre a multa na entrega por atraso:
Eu sempre envio na primeira semana e sempre recebo a restituição no primeiro lote, mas...

Se você teve alguma questão que não te deixou preencher a declaração no tempo, envie qualquer coisa 1 ou 2 dias antes do final do prazo, e depois envie uma declaração de ajuste na semana seguinte sem susto e sem multa. Enviar no último dia é pedir pra se extressar!

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