Por que parei de usar Cursor e voltei para o terminal
sei Cursor por seis meses. Era o futuro: VSCode com IA embutida, chat na lateral, autocomplete inteligente, tudo num lugar. Pagava os $20/mês, recomendava para amigos.
Em outubro de 2025 abandonei o Cursor e voltei para o terminal com Claude Code. Minha produtividade dobrou nos primeiros 30 dias. Esse texto é sobre o que mudou.
O problema que eu não enxergava no Cursor
Cursor é bom. O autocomplete é rápido, o chat é responsivo, e o encaixe com VSCode é praticamente perfeito. Eu não saí porque algo quebrou. Saí porque percebi um padrão que estava me sabotando sem eu ver.
O Cursor me convida a editar arquivo por arquivo. O cursor pisca, eu invoco a IA, ela sugere, eu aceito ou rejeito, e prossigo. É um workflow de microedição. Em uma hora eu fazia 30 microedições e tinha a sensação de produtividade. Mas no fim do dia, o que tinha sido entregue? Geralmente um arquivo modificado, talvez dois, com testes que eu mesmo precisava revisar e ajustar.
O terminal força um modo diferente. Eu mando um pedido como "implementa autenticação com JWT no padrão do projeto, escreve os testes, e me mostra o diff", e o modelo trabalha. Eu não vejo cada decisão. Vejo o resultado, faço review como se fosse PR de outro engenheiro, e aceito ou peço ajustes.
A mudança de granularidade muda tudo.

O que muda na prática
Sai a microedição, entra a tarefa. No terminal eu não fico babá do cursor. Mando um pedido bem definido e o modelo entrega 4 arquivos modificados. Em uma hora, em vez de 30 microedições, eu produzo 3-5 PRs completos.
Sai o lock-in no IDE, entra o controle do workflow. Cursor te prende dentro do VSCode. Claude Code roda em qualquer terminal, dentro de tmux, junto com git, com seus scripts shell, com qualquer outra ferramenta. Composição livre.
Sai o chat lateral, entra o CLAUDE.md. No Cursor, o contexto vivia no chat. Cada sessão eu re-explicava o projeto. Com Claude Code, o CLAUDE.md no repositório é lido toda vez que abro o terminal. O modelo já sabe as convenções, os comandos de teste, as decisões. Eu paro de repetir.
Sai a edição síncrona, entra o paralelismo. Esse foi o ponto mais importante. No Cursor eu trabalhava em um projeto por vez (porque um VSCode = um projeto, e múltiplas janelas viravam confusão). No terminal eu rodo Claude Code em três projetos diferentes em três tabs do tmux. Cada um trabalha em uma tarefa enquanto eu reviso o resultado do anterior.
A primeira semana doeu
Não vou mentir. A primeira semana fora do Cursor foi desagradável. Eu sentia falta do autocomplete inline, do "Tab Tab Tab" que me poupava digitar boilerplate. Tive que reescrever meu workflow do zero.
O que me fez aguentar foi o seguinte: o que eu achava que era "produtividade" no Cursor era, na verdade, a sensação de movimento. Editar texto rápido parece progresso, mas se o arquivo final ainda precisa de 3 rounds de revisão, o ganho líquido é pequeno.
No terminal, o ciclo é mais lento por interação (um pedido pode levar 90 segundos), mas o que sai já é executável. Em 8 horas, isso multiplica.
Quando Cursor ainda é melhor
Para ser justo: Cursor ainda ganha em alguns cenários:
- Exploração de código alheio: abrir um repo desconhecido, ler arquivos sem objetivo claro. O chat lateral ajuda.
- Tasks pequenas e visuais: editar CSS, ajustar copy, mexer em um snippet React. Microedição faz sentido aqui.
- Pareamento síncrono: quando você está mostrando código para alguém em call, Cursor é mais visual.
Para o resto do que eu faço (criar features, refatoração, testes, automação), o terminal venceu.
O setup mínimo
Se você quer testar, o setup é assim:
- Instala o Claude Code (
npm install -g @anthropic-ai/claude-codeou via Homebrew) - Cria um
CLAUDE.mdno root do projeto com 30 linhas: comandos de teste, padrão de erro, convenções de naming - Abre o terminal no projeto, roda
claude - Pede o primeiro PR: "olha o issue #X e propõe um plano"
A partir daqui é treino. Levei 2 semanas para deixar de querer abrir o VSCode no meio da sessão. Hoje só abro IDE para review visual ou para mexer em arquivo HTML/CSS.
O efeito colateral inesperado
Voltar para o terminal me reconectou com o Unix. Comecei a usar mais grep, awk, find, pipes. Comecei a escrever scripts shell pequenos para automatizar coisas repetitivas. Comecei a entender melhor o sistema operacional que estava abaixo de toda essa abstração.
Não esperava esse efeito. Mas faz sentido: o Cursor te dá uma camada de IDE em cima do código. O terminal te coloca diretamente na superfície. Você fica mais perto do metal.
Onde aprofundar
Eu juntei o que aprendi nesses meses no livro Practical Claude Code (versão PT-BR no Kindle, está no Kindle Unlimited). Cobre CLAUDE.md em detalhe, padrões de Skills, multi-agente, e o "porquê" de cada decisão de design do Claude Code.
Mas você não precisa do livro para começar. Cria um CLAUDE.md, abre o terminal, manda o primeiro pedido. Em duas semanas você sabe se voltar para o IDE faz sentido para você.
Eu não voltei.