Crédito de carbono explicado por quem está construindo uma startup disso no interior do Ceará
Faz uns meses que eu sempre tenho que explicar o que é crédito de carbono quando falo da startup que estou construindo. Então resolvi escrever aqui de uma vez, e aproveitar pra contar por que acho que dá pra fazer algo grande disso saindo de Juazeiro do Norte.
O que é crédito de carbono, sem enrolação
Toda empresa emite CO2 de alguma forma. Algumas conseguem reduzir, outras não conseguem zerar tudo. Pra compensar o que sobra, elas compram créditos de carbono.
Cada crédito equivale a uma tonelada de CO2 que deixou de ir pra atmosfera ou foi retirada dela. Esse crédito nasce de algum projeto: reflorestamento, energia renovável, ou o que me interessa aqui, manter vegetação nativa em pé que estaria em risco de ser derrubada.
Mas não é só falar "preservei mato aqui". Pra virar crédito de verdade, o projeto tem que ser medido, documentado, auditado por uma empresa independente e registrado numa certificadora, como a Verra. Só depois disso o crédito existe e pode ser vendido.
O tamanho disso
Alguns números que me fizeram levar a ideia a sério:
- A McKinsey estima que o mercado voluntário de carbono pode chegar a US$ 50 bilhões até 2030, e que o Brasil tem cerca de 15% do potencial de captura natural de carbono do mundo.
- Um estudo da ICC Brasil com a WayCarbon diz que o Brasil poderia atender entre 22% e 48% da demanda global do mercado voluntário até 2030.
- No fim de 2024 saiu a lei do mercado regulado de carbono no Brasil. Ou seja, nos próximos anos uma parte das empresas vai ser obrigada a lidar com isso, não só as que querem.
Só que tem um detalhe. Quase todo esse dinheiro vai pra Amazônia e pra projetos gigantes.
O problema que eu vi
A Caatinga ocupa uns 10% do território brasileiro e só existe aqui. E é praticamente invisível pro mercado de carbono.
Aqui no interior tem muito produtor que mantém mata nativa na propriedade e não recebe nada por isso. Pra ele, preservar é custo. Desmatar pra pasto ou vender lenha é dinheiro no bolso. Enquanto essa conta não mudar, a mata perde.
E o pequeno produtor não entra nesse mercado sozinho porque um projeto certificado é caro e técnico demais. Ninguém com 200 hectares vai pagar auditoria internacional do próprio bolso.
O que a Dossel faz
A Dossel junta várias propriedades num projeto só, cuida de toda a parte técnica e da certificação, e conecta os créditos com empresas compradoras. O produtor não precisa entender nada de carbono. Ele ganha uma renda nova por algo que já faz.
Por que acho que isso pode ficar grande
Não é porque o mercado é bilionário. Todo pitch fala isso.
É porque tem uma oferta enorme que ninguém está organizando. Os grandes players olham pra floresta tropical. O semiárido, que existe em vários países, fica de lado. Quem resolver bem a agregação de pequenas propriedades num bioma ignorado tem um espaço que ninguém está disputando ainda.
A tecnologia barateou muito a parte de monitoramento. O que antes exigia equipe em campo o tempo todo, hoje dá pra fazer boa parte à distância. Isso muda a conta pra propriedades pequenas, que antes simplesmente não compensavam.
E estar aqui ajuda. Produtor rural confia em quem ele conhece, que fala a língua dele e aparece na fazenda. Uma empresa de São Paulo teria muito mais dificuldade de conquistar isso.
Hoje tenho 15 proprietários interessados, uns 2 mil hectares, e conversas iniciais com compradores.
Onde estou travado
O primeiro projeto custa caro antes de dar qualquer retorno, e o primeiro crédito pode levar mais de um ano pra sair. Estou atrás de investimento ou parceria pra destravar isso. Se você conhece alguém da área, ou já passou por algo parecido, me chama.
Se quiser acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente, segue a Dossel no LinkedIn: https://www.linkedin.com/company/99901496/
E se achar que estou errado em alguma coisa, comenta. Crítica aqui me ajuda mais que elogio.