Sim, é o fim da "IA Go Horse". Mas o que está morrendo não é o uso de IA — são as ideias ruins que a IA acelerou até o fracasso.
O relato do colega captura algo real: depois do hype, as empresas estão cortando licenças, impondo limites e questionando se o uso desenfreado de IA realmente compensa. Mas discordo do diagnóstico implícito de que "a IA não entregou a produtividade prometida". A IA entregou exatamente o que sempre entrega: velocidade. O problema é que velocidade só multiplica resultados — e se você multiplica algo ruim, o desastre chega mais rápido.
O que estamos testemunhando não é uma falha da tecnologia. É um expurgo de ideias mirabolantes que jamais deveriam ter saído do papel. Muita gente, inclusive dentro de grandes empresas, confundiu "ter uma ideia" com "ter uma ideia boa". A IA permitiu que essas ideias fossem executadas em tempo recorde, sem filtro, sem validação real de mercado. O custo do lançamento rápido parecia compensar — até que o público rejeitasse em massa e a conta dos tokens chegasse.
A produtividade não aumentou como o esperado? Claro que não. Porque produtividade não se mede por linhas de código geradas, mas por resultado de negócio. E resultado de negócio depende de boas ideias, não de mais código. As empresas que estão botando o pé no freio agora não estão reagindo a uma falha da IA — estão reagindo ao fato de que suas próprias apostas não tinham lastro. A IA só tornou a falha mais rápida e mais cara.
Agora, compare isso com quem nunca caiu nessa armadilha. O JPMorgan Chase não saiu enfiando IA em qualquer feature. Mapeou 450 casos de uso reais, integrou estrategicamente e está gerando quase 2 bilhões de dólares em valor anual. A Klarna não usou IA para "fazer mais código". Redesenhou processos operacionais inteiros: receita por funcionário saltou para 1 milhão de dólares, custo de atendimento caiu 40%, vendas cresceram 20%. A Cisco colocou agentes em renovações — economia de até 4 horas por especialista por semana, receita recorrente de 31 bilhões de dólares. No Brasil, Natura, Vivo, Ambev e Itaú estão colhendo ganhos reais porque souberam exatamente onde e como aplicar.
Nenhuma dessas empresas está cortando licenças de IA. Nenhuma delas está medindo produtividade por volume de tokens. Elas não caíram na armadilha da "IA Go Horse" porque nunca trataram a IA como um fim em si mesma. Trataram como ferramenta para executar boas ideias — e é por isso que os números delas não estão caindo.
O que está morrendo, portanto, não é a adoção de IA. É a ilusão de que IA substitui pensamento estratégico. É a soberba de achar que qualquer ideia merece ser acelerada. É a mentalidade que mede sucesso por tokens consumidos em vez de valor gerado.
O movimento atual de restrições e cortes é positivo. Significa que as empresas estão finalmente entendendo que IA não faz milagre com ideias ruins. E que a pergunta certa nunca foi "como usar mais IA?", mas "o que realmente vale a pena acelerar?". Quem souber responder isso não está recuando da IA — está usando mais do que nunca.