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O Leão, a Zebra e o Software: Por que o Brasileiro Desconfia de software Produzido no Brasil e prefere o estrangeiro?

Por Edilson Maia

Vender software no Brasil é um exercício de resistência. Não é raro ver empreendedores brasileiros de tecnologia quebrando a cabeça para convencer o mercado local de que seu produto é bom, seguro e competitivo, enquanto um software estrangeiro, muitas vezes com menos recursos e suporte pior, é adotado sem pestanejar.

Como programador; empresário; psicanalista e observador do mercado, sempre me intriguei com isso. A explicação mais óbvia — preço, qualidade, tradição — não dá conta do fenômeno. Há algo mais profundo, uma dinâmica psíquica e instintiva que faz o brasileiro desconfiar do seu igual e buscar refúgio no estrangeiro.

Este artigo propõe uma teoria para esse comportamento. Uma teoria que parte da biologia evolutiva, passa pela psicanálise e deságua no que o próprio brasileiro fala nos fóruns de discussão.

O Estado Oportunista e o Déficit Relativo
Vamos começar pela savana. Um leão caça uma zebra, come o quanto pode e, quando está satisfeito, abandona a carcaça. Em poucos minutos, hienas, abutres e outros animais se aproximam para se aproveitar do que sobrou. Esse é o estado natural do oportunismo animal: aproveitar a brecha, a fraqueza ou a ausência do outro para garantir a própria sobrevivência.

A hipótese central deste artigo é que, no ser humano, esse mesmo instinto oportunista existe e é ativado o tempo todo. Porém, ao contrário do leão, que age por fome biológica, o ser humano age por uma fome psíquica.

Aqui entra o conceito denominado Déficit Relativo.

O gatilho para o oportunismo humano não é a necessidade absoluta — não se trata apenas de comer hoje —, mas a percepção de uma lacuna entre o Eu Real (o que se é e se tem agora) e o Eu Ideal (o que se acredita que deveria ser ou ter para se sentir completo). É a conhecida "falta" da psicanálise.

Quando essa lacuna é percebida como intransponível pelas vias legítimas — trabalho, estudo, espera —, o instinto animal assume. A carcaça, ou seja, a oportunidade, aparece e o sujeito se lança sobre ela.

É aqui que a teoria se torna universal e explica a corrupção em todos os níveis:

Um homem pobre, sem educação formal, olha para o padrão de consumo vendido pela sociedade — o smartphone, a moto, o tênis — e sente que o salário que recebe jamais o levará até lá. A lacuna é gigantesca. Ele vê a oportunidade e aplica o "jeitinho".

Da mesma forma, um executivo rico, com MBA no exterior, olha para a fortuna do sócio majoritário ou do investidor estrangeiro e sente que o que tem ainda é pouco. O nível financeiro que almeja — o Eu Ideal — exige um patamar que ele ainda não alcançou. Para encurtar essa lacuna, ele sonega, paga propina ou frauda o mercado.

A causa raiz não é a falta de diploma, mas a ausência de uma educação de valores que sirva de freio ao desejo. Quando os valores éticos e familiares são fracos, não há nada segurando o instinto animal do leão.

A Projeção: "Se eu sou assim, o brasileiro também é"
Até aqui, foi explicado o mecanismo do oportunismo. Mas como isso se conecta com a venda de software? Através de um dos mecanismos de defesa mais primitivos e conhecidos da psicanálise: a Projeção.

A projeção é o ato de atribuir ao outro os desejos, medos ou impulsos que não se aceita ou não se reconhece em si mesmo. Se uma pessoa, na própria vida, opera na lógica do leão — aproveitar a carcaça sempre que possível para diminuir o déficit relativo —, ela automaticamente acredita que o outro também opera nessa lógica.

Se a pessoa, na posição de vendedor, pensa em enganar o comprador para lucrar mais, então, na posição de comprador, terá certeza de que o vendedor está tentando enganá-la.

É o famoso raciocínio projetivo: "Se eu estivesse no lugar dele, eu faria o golpe; logo, ele vai fazer o golpe em mim."

Essa projeção gera uma paranoia social. O brasileiro, consciente de seu próprio instinto de "levar vantagem" — a Lei de Gérson internalizada —, torna-se um desconfiado crônico. Os dados confirmam isso: 93% dos brasileiros afirmam não confiar em outros brasileiros.

Mas aqui está o ponto crucial desta teoria aplicada ao software: a desconfiança é seletiva. Ela é direcionada ao igual. O estrangeiro, por ser visto como diferente, escapa da projeção. Não se consegue projetar a própria natureza oportunista no estrangeiro porque, no imaginário brasileiro, ele não vive na mesma savana de escassez. Ele é "superior", portanto, confiável. É o que Nelson Rodrigues chamou de "Complexo de Vira-Lata".

A Voz do Povo nos Fóruns
As pesquisas acadêmicas falam de xenocentrismo, complexo de vira-lata e orientação à dominância social. Mas é nos fóruns de tecnologia que a hipótese apresentada se manifesta com clareza. Analisando comentários de compradores, o mecanismo da projeção fica evidente:

A busca pelo "jeitinho" revela a mentalidade do comprador:

"Alguém sabe se dá pra comprar a chave do Windows na gringa e ativar aqui? Vi que lá fora é mais barato."

Nesse comentário, o comprador revela sua própria propensão a quebrar regras para economizar — ou seja, para reduzir o déficit. Ele está disposto a contornar o sistema. E é exatamente por se saber capaz disso que ele desconfia do vendedor brasileiro. Ele pensa: "Se eu estou tentando levar vantagem sobre o sistema, o vendedor brasileiro certamente está tentando levar vantagem sobre mim."

A vergonha de ser "trouxa":

"Comprei uma chave e o cara sumiu. Fiquei com vergonha de postar, mas vai que alguém cai no mesmo golpe."

Nos fóruns, ser enganado não é apenas um prejuízo financeiro; é uma falha de caráter. É a humilhação de ser o "trouxa", o animal que não viu o predador chegando. Para se proteger dessa humilhação, o comprador projeta no vendedor brasileiro a intenção de enganá-lo, antes mesmo de qualquer evidência.

A autoridade estrangeira como refúgio seguro:

"Eu só compro no site oficial da Microsoft, mesmo sendo mais caro. Pelo menos sei que não vou ter dor de cabeça."

A empresa estrangeira é vista como isenta do instinto animal. O comprador brasileiro não consegue se imaginar no lugar do CEO da Microsoft. A Microsoft é o superego, a lei, a ordem. O vendedor brasileiro, por outro lado, é o espelho. E ninguém confia no espelho quando sabe o que se passa dentro de si.

Onde a Ciência Confirma a Teoria
Um estudo da PUCRS, que avaliou a disposição de quase 1.900 brasileiros a pagar propina, descobriu que a propensão à corrupção não estava ligada à baixa escolaridade formal, mas a um traço chamado "Orientação à Dominância Social" — o desejo de hierarquia e superioridade.

À primeira vista, isso pode parecer uma contradição com a teoria apresentada. Mas, na verdade, é a sua confirmação.

A Orientação à Dominância Social é a expressão clínica de um sujeito cujo "déficit relativo" é infinito. É o leão que nunca está satisfeito. O sujeito dominador não tem um Eu Ideal estático; ele quer subir na hierarquia indefinidamente.

Portanto, esse estudo demonstra que a causa da corrupção e do oportunismo não é a falta de educação formal — o pobre ignorante —, mas a falta de valores internos que limitem o desejo, tanto no rico quanto no pobre. É a ausência de um freio moral que permite ao instinto animal agir quando a carcaça, a oportunidade, aparece.

Conclusão: Quebrando o Ciclo da Desconfiança
O mercado de software brasileiro sofre, portanto, de um problema psicossocial profundo. O comprador brasileiro, vivendo em uma sociedade que historicamente normalizou o "jeitinho", projeta seu próprio oportunismo no desenvolvedor brasileiro. Para fugir do medo de ser devorado pelo leão que ele mesmo carrega dentro de si, ele busca abrigo no estrangeiro.

Isso cria um ciclo vicioso: o vendedor brasileiro, sentindo a desconfiança, muitas vezes é forçado a baixar preços ou adotar estratégias agressivas, o que, aos olhos do comprador, "comprova" que ele era um leão oportunista, afinal. A profecia se autorrealiza.

A solução, portanto, não é apenas técnica ou econômica. Ela passa por duas frentes:

Reconstrução da educação de valores: não a educação técnica de diplomas, mas a educação ética familiar e escolar que ensina a gestão do desejo, a tolerância à frustração e a importância da reputação a longo prazo.

Construção de reputação e confiança institucional: os desenvolvedores brasileiros precisam, mais do que os estrangeiros, investir em prova social, garantias, atendimento próximo e transparência. Precisam mostrar, na prática, que são a exceção à regra da carcaça.

Enquanto o país não olhar para a própria sombra oportunista, continuará acreditando que a salvação vem sempre de fora. E a zebra — a oportunidade do software brasileiro — continuará sendo deixada de lado, esperando que o leão estrangeiro se sirva de todos nós.

Nota Metodológica: Este artigo baseia-se em uma análise interdisciplinar que une a psicanálise à análise de discurso de redes sociais e fóruns especializados, em diálogo com dados de pesquisas sociais — PUCRS, estudos de xenocentrismo — e a obra de Nelson Rodrigues (Complexo de Vira-Lata). A teoria do "Déficit Relativo" e da "Projeção do Oportunismo" é uma hipótese psicanalítica proposta pelo autor para explicar o fenômeno da preferência nacional pelo estrangeiro.

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