Estava querendo escrever algo, acho que esta é a oportunidade.
Eu começaria considerando algumas questões daqui: https://www.tabnews.com.br/maniero/faq-do-programador-perdidao. "Senioridade" nunca foi definida.
Quase todo mundo que se denomina sênior só o é na carteira de trabalho. Porque é assim que o termo surgiu.
O tempo e a maneira como nosso mercado evolui — ou seja, de forma caótica e sem fundamento real, baseando-se em crenças que são repetidas tantas vezes que um conceito errado passa a ser considerado correto por muita gente.
E passamos a chamar de sênior quem é experiente. Mas sem nenhuma definição clara do que é essa experiência. E nem estou falando de quantidade de tempo ou do que ele conhece, até porque não é assim que se define experiência. Assim como se chama de júnior quem é iniciante. E pior: não importa se é um iniciante que não sabe nada ou um que tem boa formação e uma pequena, mas existente, experiência. E, claro, usamos o termo pleno para quem está no intermediário. Ignoram-se trainee, master ou outras definições.
Mas note que raramente se usa o termo pleno, porque a intenção é só separar quem é iniciante de quem é experiente. Mais uma confirmação do uso errado dos termos.
O experiente, ou sênior, como gostam de usar, é alguém com grande conhecimento, capacidade de análise, crítica, raciocínio, planejamento, escolhas baseadas em método científico, experiência real e aproveitada dos erros dos outros, além dos próprios. O experiente abraça tudo e decide o que é realmente útil, sem cair nas armadilhas das modinhas. Ele tem apego ao acerto e zero compromisso com o erro.
Então o experiente entende os problemas como eles são. Ele sabe coletar requisitos e informações de funcionamento de processos. Ele sabe conceituar e dar nome adequado para as coisas. O experiente não se chama de sênior; no máximo diz que tem esse título oficial no emprego atual ou tinha nos anteriores. Ele não se importa com isso, ele sabe o que tem valor real. Sabe que uma palavra não consegue definir o que ele é. E sabe que, mesmo que isso fosse possível, cada pessoa veria de forma diferente. E a mesma pessoa mudaria a forma de ver de tempos em tempos (há casos de mudar no mesmo dia).
É claro que os recrutamentos e contratações continuarão usando os termos, até de forma adequada, afinal é o que eles enxergam e usam na burocracia do RH. E os profissionais continuarão usando o termo equivocadamente.
Não é que a régua mudou: a régua é diferente para cada pessoa em cada momento.
O experiente sabe que a IA não está entregando essa maravilha que algumas pessoas acreditam. Há vantagens em usá-la, mas a maioria está apenas criando dívida técnica, porque não é experiente, não domina o artifício da profissão.
Quanto mais a pessoa nega isso e outros mitos, como este, mais, ela está distante de ser realmente experiente.
O inexperiente ainda colhe crenças, ainda acha que o uso da IA está fazendo mais do que apenas ganhar algum tempo no curto prazo, não tendo uma relação com o que vai acontecer no longo prazo.
"Capacidade de debugar sem ajuda" é um exemplo do que pode ser coisa de sênior para uns e outra coisa para outros. Para mim, qualquer júnior deve saber fazer isso muito bem. Ele pode se enroscar em um problema muito complexo, talvez com paralelismo em que a depuração não funciona tão bem. Escrever código com IA só é trivial se for algo muito bobo, repetitivo, que já era para ter ferramentas para ganhar tempo e qualidade há tempos, ou se aceita uma porcaria, ignorando a engenharia. E, claro, os inexperientes de antes agora passam a acreditar no contrário, da mesma forma que acreditam que são experientes, mantendo seu selo de mestre em DK.
Não mudou tanto; continuamos acreditando em sinais errados para contratar alguém. E por isso está cada vez mais difícil achar softwares que rodam liso, fazem o que devem fazer, de forma simples, fácil, intuitiva e rápida, mesmo que não haja motivos para não ser assim.
Infelizmente, no Brasil não costuma haver locais para bons debates.
Dá tempo de a pessoa correr atrás do prejuízo.
Não dá para formar alguém mais rápido por causa da IA. A cognição das pessoas permanece igual, ou está até mais prejudicada. A IA ajuda a pular degraus importantes.
Como sempre, projetos high profile estão fazendo o certo, enquanto os outros cerca de 99,9% dos projetos estão em um espectro enorme, desde fazer bem, passando por vários níveis de slop (não é algo novo), até coisas impraticáveis que vão para o lixo. Para ganhar experiência, veja menos LinkedIn e mais GitHub desses projetos que agora restringem os casos de uso de IA por um bom motivo.
S2
Farei algo que muitos pedem para aprender a programar corretamente, gratuitamente (não vendo nada, é retribuição na minha aposentadoria) (links aqui).