A IA está destruindo seu product market fit
Seu mercado mudou, e o produto não é mais diferencial.
Por muito tempo, empresas de software puderam crescer com uma fórmula relativamente simples: resolver uma dor real e executar bem marketing e vendas. Mas, a IA mexeu justamente na condição que tornava essa fórmula possível.
Na edição de hoje da Newsletter do Moa vou te mostrar como se adaptar a essa mudança.
Conversa com colegas
Semana passada estivemos no evento Hotmart FIRE, como patrocinadores. Esses eventos são muito bons para encontrar clientes, sem dúvida. Mas eles também são muito bons para encontrar e papear com os colegas empreendedores. Conversei com vários por lá.
Entre os vários assuntos que sempre discuto com outros fundadores, sempre rola o assunto “inteligência artificial e seus impactos”. Saí perguntando pra galera: “E aí, como estão as coisas pra você? Como a IA está impactando seus negócios?” A resposta que mais recebi foi: “Está desafiador.” Ufa, então não é só pra mim.
O mercado mudou muito em 2026. Para quem faz tráfego pago, o CPM está subindo muito, e isso encarece o custo de aquisição de clientes. A disputa pela atenção está muito mais acirrada, e se você não tem as duas palavrinhas mágicas “inteligência artificial” no seu discurso, fica mais difícil ainda competir.
Ainda assim, eu, como fundador, sempre busco me autorresponsabilizar e me perguntar: “Onde estamos errando? Será que estamos errando na aquisição? Será que estamos errando no produto? No time? Na liderança? Na MINHA liderança?”
Claro, com certeza estamos errando em algo e também temos que dar um jeito, independentemente das circunstâncias. Eu tenho que dar um jeito. Mas, pelo menos, saber que todo mundo está meio perdido tira um pouco do peso das costas.
O mercado está mudando
Quem trabalha vendendo software como serviço viveu tempos de bonança. Por mais que, ao longo dos anos, a barreira de entrada para se criar um software tenha caído, ainda assim, não era trivial colocar um software no ar. Até a inteligência artificial chegar.
Antes, bastava um produto que resolvesse uma dor latente. Com uma execução de marketing e vendas suficientemente boa, era possível crescer. O próprio Tintim é um exemplo disso.
Depois da inteligência artificial, essa barreira de entrada caiu totalmente. Hoje em dia, qualquer pessoa consegue abrir um Lovable da vida e criar a solução que deseja. “Mas, Moacir, fazer software é uma coisa, e manter software é outra totalmente diferente.” Sim, um produto de tecnologia que seja desenvolvido por uma pessoa que não é de tecnologia tem chances maiores de dar errado no longo prazo. Mas, até ele dar errado, ele vai conseguir alguns clientes. Clientes que poderiam ser seus. Agora multiplica isso por vários pequenos concorrentes…
A aparição de vários pequenos players concorrentes, independentemente da qualidade, acaba roubando (temporariamente) um pedaço de um mercado que é seu, ou pelo menos poderia ser. Esses players competem com você pela atenção do seu cliente, aumentam o custo do CPM e, consequentemente, aumentam seu CAC.
Depois da IA, o produto, definitivamente, não pode mais ser considerado um diferencial.
IA está destruindo o PMF
Product Market Fit (PMF) significa o ajuste de um produto ao mercado. É o momento em que uma empresa consegue validar que seu produto resolve um problema real de um grupo grande o suficiente de clientes, que estão dispostos a pagar por ele e continuar usando-o.
As duas variáveis do Product Market Fit são produto e mercado (sério?). Se levarmos em consideração que mercado é uma das variáveis e que o mercado está mudando de uma forma profunda e estrutural, então, por definição, o product market fit de todas as empresas que participam desse mercado está ameaçado.
Soluções concebidas antes da inteligência artificial foram construídas para um mercado específico. Só que esse mercado está deixando de existir. Quantos softwares o Claude já não matou? Quantos mercados estão mudando a forma como o trabalho é executado? Todo mundo PRECISA se adaptar.
Quer um exemplo de como o mercado está mudando? Vamos olhar para o público-alvo do Tintim, o gestor de tráfego. Esse profissional chegou ao mercado num momento em que o leilão não era tão concorrido. Em muitos casos, bastava subir um anúncio bom o suficiente para gerar muito valor para seus clientes. Esse cenário mudou.
Com a chegada da inteligência artificial, as redes sociais foram inundadas de novos conteúdos. Atualmente, mais da metade do conteúdo postado no Instagram é produzido 100% por IA. Ou seja, temos o dobro de conteúdo brigando pela mesma quantidade de atenção de antes. Logicamente, isso aumenta o custo do CPM.
Além disso, o jeito de se fazer marketing está mudando. Muitas coisas que antes eram feitas por humanos hoje já podem ser 100% automatizadas com IA, num nível de qualidade bom o suficiente. É possível produzir bons textos com IA, boas imagens, bons vídeos. Bons anúncios.
A inteligência artificial permite que vários players diferentes possam tomar o lugar desse gestor de tráfego. As big techs, por exemplo, podem usar IA para melhorar suas UX e tornar desnecessária a intermediação que esse gestor faz entre o cliente e a plataforma (ou até uma startup com uma solução disruptiva pode fazer isso também). Agências maiores podem otimizar seus processos com IA a ponto de conseguir atacar o mercado em que esses gestores de tráfego atuam. O ataque pode vir de diferentes lugares.
O profissional de marketing vai continuar existindo, sem dúvida. Propaganda é um fundamento de negócios e, sempre que existirem empresas no mundo, existirá demanda para anunciar. IA não vai acabar com isso, mas, com certeza, vai reconfigurar o modo como o mercado opera.
Como se proteger?
Se você trabalha com tecnologia, saiba que a barreira de entrada para a criação de software já era. Produto não é mais diferencial. Mas, com certeza, ainda existem diversas formas de se diferenciar do seu concorrente.
Construir uma marca forte é uma forma de diferenciação. Dominar um canal de distribuição é uma forma de diferenciação. Coletar dados proprietários e usá-los de forma estratégica é uma forma de diferenciação. Construir ou liderar uma comunidade que acolha seu cliente e o ajude a se desenvolver é uma forma de diferenciação.
Se você é um profissional de marketing, muito provavelmente, grande parte do seu trabalho operacional vai ser absorvido pela inteligência artificial. Isso já está acontecendo, na real. Mas a especialização ainda é uma forma de diferenciação. A autoridade no seu mercado é uma forma de diferenciação. O know-how é uma forma de diferenciação.
As empresas que sobreviverão não serão necessariamente as que têm o melhor produto hoje. Na real, isso nunca foi verdade. O McDonald’s não é o melhor hambúrguer, nem a Brahma é a melhor cerveja. As empresas que vão sobreviver são aquelas capazes de perceber para onde seu mercado está indo, preservar a relação com seus clientes e ajudá-los a atravessar a mudança.
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