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A nova corrida do ouro digital

Vídeos curtos são o “novo SEO”

Se olharmos os últimos 30 anos, a cada 10 anos uma janela curta de oportunidade se abre. Quem entendeu o SEO lá em 2010 criou grandes impérios. Quem entendeu o tráfego pago em 2017 ficou milionário. Hoje, em 2026, uma nova janela está se abrindo, e quase ninguém está olhando pra ela.

Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu te explico porque acho que os vídeos curtos são o “novo SEO”.

Black hat

Quando eu era jovem, lá pelos meus 13~14 anos, eu adorava jogos online. Um dos meus preferidos era o tão famoso Tibia. Para quem não sabe, é um jogo de MMORPG, que significa Massive Multiplayer Online Role-Playing Game. Em jogos desse tipo, para melhorar as skills dos seus personagens, é comum que você precise fazer determinadas tarefas rotineiras, como treinar, caçar, etc. Só que fazer isso era chato, então, programadores inventaram os famosos “bots”, que eram softwares (proibidos) que automatizavam essas tarefas.

Lembro que, pesquisando no Google, eu encontrei um site que listava todos os bots disponíveis para o Tibia. Além de disponibilizar os softwares para download, o site também tinha tutoriais super completos, que ensinavam a operar os softwares. Agora, o curioso mesmo, era que, no rodapé do site havia diversas palavras soltas, que não faziam muito sentido, camufladas, da mesma cor do fundo do site, e, portanto, invisíveis a olho nu.

Anos mais tarde eu fui descobrir que isso era uma tática de SEO black hat. Search Engine Optimization é um conjunto de estratégias usadas para posicionar um site nas primeiras páginas do Google. O objetivo é atrair visitas orgânicas ao seu site. Black Hat é o conjunto de práticas antiéticas e agressivas (que violam as diretrizes do Google) com o objetivo de manipular o algoritmo para seu site subir rapidamente no ranking.

Essa história que contei aconteceu lá por 2004, talvez. Essa foi a era da mamata do SEO black hat. Bastava fazer keyword stuffing (isso de encher de palavras-chave no rodapé), comprar alguns backlinks e rapidamente você aparecia em primeiro nas buscas. Essa farra acabou lá pelos anos de 2011, 2012, com atualizações marcantes do Google, como o algoritmo Panda e Penguin. Esses algoritmos deram início à era do SEO estratégico, que foi de 2013 até o fim de 2022, quando o Google passou a compartilhar tráfego de busca com o ChatGPT.

Verdadeiros impérios foram construídos em cima do SEO estratégico. O StackOverflow, que foi a principal plataforma online gratuita de perguntas e respostas para programadores, virou o que virou por causa do SEO. RD Station, um dos maiores cases de SaaS do Brasil, cresceu produzindo toneladas de artigos de blog, que tinham como objetivo aparecer na primeira posição do Google para milhares de palavras-chave diferentes. Airbnb foi um dos primeiros grandes cases a usar programação para automatizar a construção de páginas focadas em atrair visitantes que faziam buscas no Google.

Mas, como eu disse, a era de ouro do SEO acabou com a chegada da inteligência artificial generativa. Com a sua chegada, acredito que uma nova era de ouro está surgindo.

Como hackear o growth

SEO é uma das táticas usadas para se fazer growth hacking, mas não é a única. O livro Traction, de Gabriel Weinberg e Justin Mares, lista outros 18 canais e táticas que podem ser utilizados para “hackear” o sistema e estimular o crescimento de uma empresa.

Esse livro foi publicado pela primeira vez em 2014, há 12 anos, e possui algumas táticas que estão datadas. Além disso, de lá pra cá, o mundo evoluiu muito e um outro fenômeno que vi acontecendo foi a combinação de duas ou mais táticas, que acaba gerando meio que uma tática nova.

Uma dessas combinações foi a mistura de marketing de conteúdo com tráfego pago. Isso começou lá por 2016, 2017, mas ganhou força mesmo com o boom do digital impulsionado pela pandemia. Grandes fenômenos se criaram através de estratégias de marketing digital, misturadas com estratégias de marketing de conteúdo e potencializadas através de tráfego pago.

Eu mesmo construí dois projetos em cima dessa mistura. A DevPro cresceu rapidamente através de lançamentos, que nada mais era que uma tática de vendas ancorada em cima de marketing de conteúdo. O Tintim cresceu mais rápido ainda usando táticas similares. Eu não fui um player da época de ouro do SEO, mas consegui aproveitar bastante essa época de ouro do marketing digital (estou chamando assim a mistura de várias táticas potencializadas por tráfego pago).

Atualmente, táticas como SEO e marketing digital ainda funcionam bem, mas a atenção do público está em outro canal (e tem como hackear esse canal e atrair essa atenção para você).

A nova era de ouro

No auge da pandemia, em agosto de 2020, o Instagram decidiu lançar sua cópia do TikTok seu novo recurso de vídeos curtos: o Reels. Hoje, seis anos depois do seu lançamento, o recurso conta com 2 bilhões (com B de bola) de usuários ativos mensais, e projeta uma receita de mais de US$ 50 bilhões para a Meta. Se levarmos em conta todas as plataformas de vídeos curtos, estamos falando de 5,8 bilhões de usuários mensais. Isso é mais que 70% de TODOS OS HABITANTES DA TERRA. A média de uso é de cerca de 50 minutos por dia (TikTok chega a uma média incrível de 95min). É surreal. Indiscutivelmente, a atenção do mundo está nos vídeos curtos.

Mas, isso não é novidade, certo? Eu tenho certeza que o seu criador de conteúdo predileto está produzindo vídeo curto. Os criadores foram praticamente obrigados a começar a produzir vídeos curtos, já que a matéria-prima do trabalho deles é a atenção, e é lá que essa atenção está atualmente. Novos impérios já estão sendo construídos nessa plataforma.

Mas, diferente da época do SEO, é muito mais difícil construir uma marca corporativa em cima desse novo canal. Vídeo é algo muito mais pessoal, e o fato de estarmos falando de redes sociais dificulta muito mais, afinal, seres humanos querem se relacionar com outros seres humanos, e não com marcas.

Sem contar que, devido à abundância de conteúdo disponível atualmente, é muito mais desafiador pautar temas e formatos. No SEO bastava pegar a palavra-chave e explicá-la. No vídeo curto existe uma infinidade de outros formatos de conteúdo, e uma concorrência de ordens de grandeza maior. É muito mais complexo sistematizar a produção de vídeos curtos, e talvez impossível automatizar, igual era feito com SEO. Ou pelo menos era.

Usando IA para hackear os vídeos curtos

Usar IA para produzir conteúdo também não é novidade. É muito fácil bater o olho em um roteiro e sacar que ele foi escrito por IA. “Não é isso, é aquilo”, “isso é brutal”, e outros maneirismos típicos de uma LLM caguetam que esse roteiro não foi escrito por um humano.

Mas, enquanto tem muita gente usando IA para aumentar sua produtividade pessoal ao produzir conteúdo, ainda há poucas pessoas usando IA para sistematizar e automatizar todo o processo de produção de conteúdo.

Devido ao avanço de toda a infraestrutura operacional que fica em torno de um modelo de IA (o famoso Harness), eu acredito fortemente que já é possível planejar, pesquisar, roteirizar e editar de forma 100% automática e com uma boa qualidade. Também já dá para criar o vídeo, de fato, mas ainda tenho minhas dúvidas em relação a qualidade.

Dizem que história não se repete, mas rima. Assim como o SEO teve sua era de ouro onde grandes operações eram criadas para produzir conteúdo com o objetivo de atrair visitas orgânicas através de buscas no Google, nós já temos grandes operações cujo objetivo é atrair visitas orgânicas através de conteúdos de vídeos curtos. Isso não é novidade.

O que é novidade é a ideia de “criação programática de conteúdos curtos”. Assim como a programação possibilitou a automatização do trabalho de SEO, eu acredito que a IA vai possibilitar a automatização do trabalho de criação de conteúdo com uma qualidade suficientemente boa. Talvez não seja possível automatizar 100%, mas o suficiente para que o único “trabalho braçal” seja sentar na frente de uma câmera durante uma hora para gravar dezenas de roteiros que foram criados por uma IA (e que serão editados depois por uma IA).

Essa é uma tese que vem rondando a minha cabeça nas últimas semanas. O que você acha? Faz sentido?


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