É melhor pedir perdão do que pedir permissão
O mantra que repito toda semana no Tintim
"É melhor pedir perdão do que pedir permissão." Essa frase incomoda muita gente. Parece irresponsável, egoísta, até arrogante. Mas há uma interpretação que a maioria ignora, e que muda completamente o que a frase significa.
Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu explico por que, em ambientes de crescimento acelerado, pedir permissão não é virtude: é uma forma elegante de fugir da responsabilidade.
Qual o ROI?
Ano passado nós patrocinamos o maior evento para gestores de tráfego do Brasil: o Subido Ao Vivo. Foi o maior patrocínio que já fizemos, tanto em questão de tamanho de evento, quanto em questões financeiras.
Lembro que na época foi uma decisão muito difícil de ser tomada, afinal, era um valor relevante. Eu, que fui criado na escola do tráfego pago e do marketing de performance, estou muito acostumado a medir o ROI de todas minhas ações de marketing. Como medir o ROI desse patrocínio? Como saber quantas vendas este evento nos geraria?
Foi quando lembrei de uma ação de marketing genial que o pessoal do GLA fez no RD Summit de 2023. Eles fizeram um jogo de enigmas relacionados ao evento, junto com uma dinâmica de indicação, que fez o jogo viralizar. Seria ótimo replicar a ideia, tanto pelo fato de coletar os leads e conseguir, depois, rastrear as vendas, quanto pela própria coleta de leads, hiper qualificados para o Tintim.
Mas, será que eu poderia fazer aquilo? Pensei: “bom… não tem nenhuma cláusula no contrato dizendo que não posso fazer um jogo… então bora fazer, afinal, é melhor pedir perdão do que pedir permissão”.
A mentalidade
É melhor pedir perdão do que pedir permissão. Quem trabalha comigo, sabe: pelo menos uma vez por semana eu repito essa frase. Esse é um dos principais mantras do nosso estilo de trabalhar, aqui no Tintim.
Essa frase pode ter diversas interpretações. Olhando por uma ótica mais pessimista e desconfiada, essa frase pode ter uma conotação meio tóxica. É possível interpretá-la como egoísta, inconsequente, ou até mesmo irresponsável. De fato, enquanto elaborava a ideia desse texto, encontrei um texto no Reddit analisando essa frase justamente sob essa ótica.
Segundo o autor do tópico, quando alguém age sabendo que não deveria e já espera ter que se desculpar depois, o pedido de perdão perde autenticidade. Pela lógica dele, o pedido acaba sendo muito mais uma tentativa de reduzir as consequências do que como arrependimento genuíno.
O texto defende que, se existem regras, com certeza existem razões para que essas regras tenham sido criadas. Será mesmo?
O porquê
O texto que citei vai muito por uma linha de culpa por fazer algo errado. O autor assume que, necessariamente, ao escolher pedir perdão ao invés de escolher pedir permissão, a pessoa está optando, deliberadamente, por fazer algo errado. Isso é falso.
A frase parte justamente de uma dúvida de que algo pode ser feito ou não. Diante da dúvida, eu tenho duas opções: pedir permissão para fazer algo, ou assumir que eu posso fazer e, caso eu esteja errado, eu peço desculpas. As desculpas não vêm de um lugar de “malandragem”, como se eu estivesse dando uma de “joão sem braço”. As desculpas vêm de um lugar genuíno, de quem assumiu uma premissa que achava que era verdadeira, mas, na verdade, era falsa.
No contexto do Tintim, que é uma startup em crescimento acelerado, escolher pedir perdão privilegia a velocidade, enquanto escolher pedir permissão privilegia o consenso. Em empresas que querem crescer rápido, velocidade é mais importante que consenso.
A nuance
Ok, mas isso não é uma regra, e sim, um mantra, um jeito de pensar. Como em tudo na vida, temos que usar nosso bom senso para entender quando podemos e quando não podemos fazer algo.
A primeira pergunta, e mais óbvia de todas a ser feita é: o que eu quero fazer prejudica alguém? Se sim, não faça. No exemplo do evento, nossa ação não traria nenhum tipo de prejuízo. No final, inclusive, descobrimos que a ação agregou ao evento, já que o pessoal amou o jogo e ficou super engajado.
A segunda pergunta a ser feita é: se eu errar, qual o custo? Jeff Bezos possui um modelo mental de tomada de decisão muito famoso e muito útil, chamado “two way door” que pode ser usado para responder a essa pergunta. A ideia é simples: se eu passar por essa porta, eu posso voltar facilmente? Ou seja, se eu tomar uma decisão e errar, o custo de voltar atrás é alto ou baixo? Se for baixo, vá em frente, se for alto, pense bem.
No evento, se alguém da produção nos procurasse dizendo que a gente não poderia fazer aquela ação de marketing, a gente simplesmente tiraria o jogo do ar. Simples assim.
Conclusão
Pode parecer nobre e responsável da parte de alguém querer pedir permissão e buscar consenso antes de tomar uma decisão. Não é. Pedir permissão é uma forma elegante de terceirizar a responsabilidade, caso algo dê errado.
Num ambiente de crescimento acelerado, o comportamento mais esperado é o de ownership, ou “senso de dono”. É o ato de tomar uma decisão e se responsabilizar por ela, seja qual for o desfecho. Uma empresa só cresce de forma acelerada se for formada por pessoas proativas, que recebem problemas e entregam soluções. Empresas que precisam de muito controle possuem o teto baixo.
Decidir pedir perdão, ao invés de pedir permissão, é privilegiar a velocidade, e assumir a responsabilidade do risco que se está tomando. É muito mais desafiador do que simplesmente cumprir ordens, sem dúvidas. Mas também é muito mais recompensador e satisfatório.
E, principalmente, trabalhar num ambiente desses é muito mais legal.
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