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Não seja o arrogante da IA

Ser competente não basta quando o mercado muda a demanda.

Você já olhou para um trabalho feito com IA e pensou: “Tá bom, mas um profissional de verdade faria melhor”? Eu entendo a reação. Mas ela é perigosa.

Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu falo qual deve ser sua postura para que você não perca seu emprego para a IA.

Perigo

Esse final de semana eu estava conversando com a minha esposa sobre inteligência artificial (ela finge muito bem que gosta de conversar sobre esse tipo de assunto). Estava explicando pra ela o quão avançado e de qualidade estava o trabalho produzido por IA.

Usei como exemplo uma apresentação que precisei preparar. Eu fiz uns rascunhos bem escrotos no Google Slides, peguei uma skill de criação de slides bonitona no GitHub, peguei o manual de marca do Tintim e pedi pro Astra fazer os slides da apresentação pra mim… Ficou SURREAL de bom! Com umas duas rodadas de ajustes, a apresentação ficou perfeita. Foi menos de uma hora de trabalho. Um trabalho que, antes, exigiria um dia inteiro de um bom designer, no mínimo.

Usei esse exemplo para corroborar um post que meu amigo Renan Caixeiro fez no X, em que ele argumenta que a arrogância de quem trabalha com economia criativa pode estar impedindo a maioria dos profissionais de se adaptar a essa nova era, em que tudo é feito usando IA. De fato, quem trabalha nessas áreas tende a ser mais intelectualizado e, por consequência, mais arrogante. Isso é perigoso… Muito perigoso!

Oferta e demanda

Navegando pelo X, topei com essa história. Um programador com anos de experiência (pelo menos 15 anos, segundo o print e os relatos), alegando que cansou da área de tecnologia, especificamente da programação. O motivo? Ele se sente desvalorizado, mesmo sendo altamente capacitado.

Na história contada pelo Fernando, essa pessoa participava de um time que insistia em métodos e tecnologias ultrapassados (isso já acontecia há 15 anos). Delphi já era ultrapassado em 2012. Poucas pessoas queriam começar um novo projeto nessa linguagem. Nessas linguagens ultrapassadas, o único motivo para um programador ganhar bem é justamente porque ele se torna um profissional difícil de ser encontrado. A boa e velha lei da oferta e demanda.

Mas por que havia (e ainda há) demanda para profissionais que usam linguagens ultrapassadas? Porque, em muitos casos, é mais caro reconstruir todo o sistema do zero do que pagar pequenas fortunas para os profissionais escassos que dominam a tecnologia antiga. O bom e velho custo de oportunidade (estamos em 2026 e o COBOL ainda é uma das principais linguagens usadas em bancos).

O fato de alguém ganhar bem, ou estar bem posicionado em determinada profissão, significa que essa pessoa está aproveitando uma assimetria de mercado. Existe mais demanda para aquele tipo de profissional do que oferta, ou seja, profissionais disponíveis.

Eu deixei um comentário na publicação fazendo uma brincadeira: “Ou ele é altamente capacitado, ou ele é desvalorizado. Os dois não dá”. Obviamente, é possível que a pessoa seja altamente capacitada, só que em uma especialidade desvalorizada, que não tem demanda. Delphi é um exemplo perfeito. Meu comentário se refere mais ao fato de que a pessoa não é altamente capacitada em ler o mercado e se posicionar como um profissional que é capaz de atender uma demanda que possui pouca oferta. Um profissional capaz de identificar e aproveitar uma assimetria de mercado.

Um dos piores erros que um profissional pode cometer é se tornar arrogante por ser bom em algo, principalmente no século XXI, época em que as coisas estão mudando com uma velocidade absurda. Isso porque a arrogância impede a pessoa de enxergar que essa qualidade de “ser bom em algo” é cada vez mais passageira. Basta ver o tanto de programadores “bons” que estão sendo substituídos por inteligência artificial.

A curiosidade e a experimentação

Contei essa história para mostrar o risco da arrogância. Para você não correr o risco de se tornar um arrogante e acabar ficando para trás, é preciso abandonar os preconceitos. É preciso aceitar que suas habilidades técnicas estão sob ameaça e adotar uma postura de curiosidade intensa. Em outras palavras, é preciso humildade intelectual.

Pensa, por exemplo, num editor de vídeos. Vamos assumir que, antes da inteligência artificial, era factível que um editor conseguisse editar 3-4 vídeos por dia, em média. Com a chegada da inteligência artificial e a melhora das ferramentas de edição, vários trabalhos repetitivos foram automatizados, e um editor passou a conseguir editar o dobro, talvez. Show! Esse editor nem precisou se aprofundar em estudar IA, já que a ferramenta implementou melhorias.

Só que, agora, os modelos foram treinados para eles próprios editarem os vídeos. Os laboratórios de inteligência artificial estão atacando diretamente o mercado de ferramentas de edição de vídeo, tornando sua utilidade obsoleta. Como consequência, atacam também o editor de vídeo que usa essas ferramentas. E agora?

Por isso, acredito que o único caminho para conseguir atravessar a revolução tecnológica que vivemos é a humildade intelectual, a extrema curiosidade e a experimentação. Quem não está metendo a mão na massa e experimentando diariamente com IA corre um sério risco de ficar para trás.

Isso porque, nas outras ondas, os inovadores faziam esse trabalho de sair experimentando e entendendo como a tecnologia funciona. A partir disso, desenvolviam novos métodos para empacotar e vender. O resto do mercado, então, seria treinado e adotaria esses métodos.

Só que, no caso da inteligência artificial, temos uma variável que subverte essa estrutura. Quem está experimentando continua aprendendo e desenvolvendo novos métodos, sim. Só que, dessa vez, a chance de esses métodos serem empacotados e vendidos é muito menor, por um motivo muito específico.

Antes, um editor de vídeo, por exemplo, por mais produtivo e capacitado que ficasse a partir de novos métodos, ainda assim teria uma limitação de capacidade de produção, pois era ele quem metia a mão na massa e produzia o vídeo. Ainda que essa pessoa trabalhasse 24h por dia, o limite dela seria essas 24h.

Na era da inteligência artificial, quem trabalha não é o ser humano, mas sim a máquina. O limite deixa de ser tempo e passa a ser dinheiro. Quanto mais dinheiro você tem, mais tokens você compra. Quanto mais tokens, mais vídeos uma pessoa consegue produzir (e essa pessoa não necessariamente é uma editora de vídeo).

As pessoas que estão descobrindo os novos métodos estão usando esses métodos para escalar sua capacidade de produção. Antes, era mais vantajoso empacotar e vender o método. Agora é mais vantajoso usar o método como vantagem competitiva e passar a vender 10x, 100x, 1000x mais.

Ao profissional da economia criativa resta aceitar que seu conhecimento técnico corre sério risco de se tornar obsoleto. A única saída é ser humilde e tentar se adaptar.

Nada mais constante que a mudança.


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