Sua empresa não vai crescer com trabalho remoto…
… se você não entender esse conceito
Um colega empreendedor me mandou uma mensagem semana passada: "Para crescer, você acha que precisa ter um time presencial?". A pergunta parece simples. Mas esconde um problema muito mais profundo (que não tem nada a ver com remoto ou presencial).
Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu explico por que dá pra construir uma empresa remota do tamanho que você quiser, e o que de fato separa as empresas que conseguem das que travam.
Presencial ou remoto?
Semana passada, um colega empreendedor me mandou uma mensagem:
“Para crescer, você acha que precisa ter um time presencial?”
Resposta curta: não. Eu trabalho remotamente desde 2013, muito antes do hype, e, pelo menos desde 2020, gerencio equipes de forma 100% remota. Dos 30+ membros do time, hoje, mais da metade eu não conheço pessoalmente, apenas online. Sempre tive uma opinião muito favorável sobre o trabalho remoto (já escrevi mais de uma vez sobre esse assunto, inclusive).
Mas essa é uma pergunta relacionada à solução. E qual problema ela quer resolver? Esse colega possui um time com pouco mais de 10 pessoas. A maioria, ele mesmo quem gerencia. Ele criou um produto, validou esse produto e começou a crescer. Foi montando a operação e contratando sob demanda. Agora, está preso à operação. Problema clássico.
Mandei alguns áudios dando minha opinião sobre trabalho remoto e sobre como gerir uma empresa. Decidi organizar esses pensamentos neste texto.
Trabalho remoto funciona?
Recentemente, li um excelente artigo escrito pelo Alex Bouaziz, CEO da Deel, uma empresa de folha de pagamento gigantesca, que vale mais de $10 bilhões (com B de bola). O artigo defende categoricamente: você pode construir uma empresa de $10B totalmente remota. A conclusão do autor é que toda empresa grande já é, na prática, remota. Porém, as melhores aceitam isso cedo e constroem sistemas melhores em cima dessa realidade.
Ele vai além: o remoto não resolve os problemas que a gente acha que resolve. Ele defende que presença física não cria accountability, não aumenta motivação, não elimina distração e não melhora a criatividade. Ele defende que o que faz uma empresa ser performática não é a presença física, mas, sim, um bom sistema de gestão e um time de top players.
Eu assino embaixo de tudo o que ele disse. E digo mais: na grande maioria dos casos, a exigência do trabalho presencial acaba sendo uma muleta para tentar compensar a falha em um desses dois pilares. No começo, essa tática pode até funcionar, mas, saiba que ela coloca um teto muito baixo em cima da sua cabeça.
O caminho, então, é aceitar que uma empresa, no fim das contas, é um sistema, e então trabalhar para construir um sistema que funcione. O objetivo é crescer de forma sistematizada.
Gerente = bug no sistema
Conforme o Tintim vai crescendo, novos desafios vão aparecendo. O desafio dos últimos meses tem sido, sem dúvida, como aprimorar nosso sistema de gestão, levando em consideração que seguimos crescendo e queremos crescer cada vez mais e mais rápido.
Por mais que aprimorar esse sistema seja uma tarefa desafiadora, não é nada que já não tenhamos feito antes. Tocar uma empresa de R$ 100k de MRR é diferente de tocar uma empresa de R$ 500k de MRR, que é diferente de tocar uma empresa de R$ 1M de MRR. Ao longo dos anos, nós fomos aprimorando nosso sistema de gestão para se adaptar a cada uma dessas fases.
O princípio fundamental para seguir adaptando esse sistema é entender que, em todo trabalho, existem dois trabalhos: o trabalho e o meta-trabalho. O trabalho é o que precisamos fazer para que o resultado esperado seja alcançado. O meta-trabalho é a organização necessária para executar o trabalho da melhor maneira possível. É como um chef de cozinha preparando o mise en place antes de começar a cozinhar. Gestão é meta-trabalho.
O que acontece na maioria das empresas é que a execução do trabalho só tem um output: o resultado esperado deste trabalho. Tudo o que não está relacionado a esse fluxo de trabalho, geralmente, é tratado por um gerente. Acaba que, nesse modo de trabalhar, cria-se duas frentes de trabalho: a do operador e a do gerente.
Existe um problema em trabalhar assim? Não, necessariamente. Só que isso não é um sistema de trabalho. Em um sistema de trabalho, a execução do trabalho precisa ter dois outputs: o resultado esperado e os aprendizados que tivemos ao executar o trabalho. Esses aprendizados servem para retroalimentar o sistema. Servem para melhorar o processo de trabalho, para que, na próxima execução, o trabalho seja executado melhor. É o famoso PDCA. Plan e Do são o trabalho em si. Check e Act retroalimentam o sistema.
Por isso, sempre digo que, idealmente, a existência de um gerente fazendo coordenação indica um bug no sistema. Se temos um gerente precisando trabalhar para lidar com corner-cases constantemente, por exemplo, isso indica que o sistema não está se retroalimentando e melhorando.
Claro, isso é uma utopia. Sempre será preciso lidar com os erros, mudanças e imprevistos num sistema, dado que vivemos em um mundo dinâmico. Mas, a ideia de buscar um ideal e sempre trabalhar para melhorar define uma mentalidade importante: a de que não devemos aceitar cometer o mesmo erro duas vezes.
O problema não é o trabalho remoto
Como eu já disse antes, o problema não é o trabalho remoto. O problema é que a grande maioria das pessoas tende a ter um pensamento linear, ao invés de pensar de forma sistêmica. O foco é somente em trabalhar, e não em construir o sistema que habilita o trabalho.
Ao invés de o sistema de trabalho se gerir sozinho, os gerentes são contratados para “fazer o trabalho acontecer”. Quando as pessoas são o sistema, naturalmente, uma cultura de comando e controle acaba se instaurando, e é muito mais fácil controlar as pessoas presencialmente do que remotamente.
Para trabalhar de forma remota, é preciso de um bom sistema de trabalho. Um sistema organizado, que habilite e incentive a colaboração e a comunicação. Um sistema que seja composto por pessoas proativas, curiosas, ambiciosas, que possuem um nível alto de exigência, que buscam sempre melhorar.
Fazer o trabalho remoto funcionar dá mais trabalho, sem dúvida. Mas não porque ele é mais burocrático que o trabalho presencial. O trabalho remoto dá mais trabalho porque, para fazer esse tipo de trabalho funcionar, é preciso pensar. Pessoas que pensam são escassas.
Pensar é difícil, mas é recompensador. Com um sistema redondo de trabalho remoto, você consegue crescer mais rápido, mais barato, com gente boa e com qualidade de vida.
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