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Ter medo de empreender é irracional

Spoiler: os riscos reais são muito menores do que seu cérebro te faz acreditar.

Você provavelmente já ouviu que empreender é arriscado. Que a maioria das empresas quebra. Que você pode perder tudo. Eu ouvi isso por anos — e acreditei. O problema é que essa conta não fecha.

Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu explico por que ter medo de empreender é, matematicamente, a decisão irracional.

Mentalidade

Domingo, enquanto fazia minha corrida matinal para tentar melhorar minha capacidade cardiorrespiratória, que é um lixo, ouvi uma frase, em um podcast, que me impactou:

"O risco de empreender é mais baixo do que as pessoas pensam. [...] é uma decisão até irracional ter medo de empreender."

A frase foi dita por Bruno Koba, numa entrevista com Lucas Abreu, no Aura Podcast. O que ele falou não é novidade pra mim, mas, mesmo assim, a frase me impactou. Primeiro porque não é um pensamento óbvio. Segundo, porque eu demorei anos para conseguir entender e internalizar esse pensamento.

Imagina só, eu nasci em um bairro periférico de São Paulo. Não era uma favela, mas passava longe de ser um Jardins. Nasci em uma família de classe média-baixa, em que a rotina mensal era escolher qual conta seria paga e qual conta seria pedalada. Isso acontecia, justamente, porque eles se desdobravam para conseguir pagar um excelente colégio para eu estudar.

O colégio realmente era muito bom, tecnicamente falando. Me lembro que todo começo de ano saía, no jornalzinho interno, os vestibulares em que os alunos do terceiro ano tinham passado. Sempre tinha uma quantidade relevante de alunos conquistando vagas em grandes universidades, como USP, ITA, IME, federais, etc.

A mentalidade do colégio sempre foi a de se esforçar para estudar, passar em uma grande universidade, conquistar um grande emprego e fazer carreira, de preferência em uma multinacional. Mentalidade totalmente oposta do caminho que escolhi para minha vida.

Durante anos eu ouvi de todos à minha volta que empreender era loucura. Que o risco era muito alto, que a maioria das empresas quebra nos primeiros anos, que a montanha russa financeira poderia me levar para o buraco, que se eu quebrasse eu perderia tudo.

Não era só as pessoas à minha volta que achavam isso. Eu também achava isso. Essas pessoas acreditavam nisso justamente porque o meio em que viviam difundia essa mentalidade. Eu também era fruto desse meio.

Foi depois de anos, depois de muito pensar sobre o assunto, depois de muita terapia, muita conversa com colegas empreendedores, que eu consegui “quebrar” esse medo irracional e tratar esse assunto de forma racional e estratégica, encarando como um problema a ser resolvido.

O medo de perder

Daniel Kahneman cita, em seu livro Rápido e Devagar, que um dos vieses humanos é a aversão à perda. Ele descobriu esse viés através de um experimento simples: uma aposta de cara ou coroa. Cara, a pessoa ganha X, coroa a pessoa perde R$100. Quanto X precisava ser para que a pessoa topasse?

A maioria das pessoas só aceitava a aposta quando o valor de X passasse de R 200, o que é uma decisão matematicamente burra não-inteligente, já que qualquer valor acima de R 100 já é uma aposta estatisticamente favorável.

O ser humano não é racional, mas sim um ser emocional, que racionaliza suas emoções. Essa racionalização se dá através de vieses. Para o cérebro humano, perder dói mais do que ganhar agrada.

Faz sentido, se levarmos em consideração que nosso cérebro é fruto de milhões de anos de evolução, e que vivemos em civilização há menos de 10 mil anos. Nosso cérebro ainda não se adaptou. Ele ainda entende que perder significa morrer. O cenário padrão do nosso cérebro é a vida selvagem, onde perder o abrigo, a comida, ou o status no bando significava morte. O nosso cérebro foi calibrado para um mundo onde não perder era muito mais importante do que ganhar.

Só que isso é um cenário de vida selvagem, diferente do cenário atual em que vivemos. Perder um emprego não te mata. Dever dinheiro ao banco não te mata. Sofrer um processo trabalhista não te mata. São problemas perfeitamente lidáveis.

Assimetrias

Um dos meus autores favoritos é Nassim Taleb. Toda a sua obra dedica-se a explorar profundamente os conceitos de incerteza, risco e probabilidades. A sua tese central é de que o mundo é muito mais imprevisível do que imaginamos, e também de que os seres humanos criam narrativas para fingir que entendem e controlam essa imprevisibilidade (claro, afinal somos seres emocionais que racionalizam suas emoções).

Ele defende que devemos aceitar essa imprevisibilidade e aprender a nos posicionar para nos beneficiar dela. O que importa numa decisão sob incerteza não é a probabilidade de acerto, mas o tamanho do payoff em cada cenário. Ou seja, você pode estar errado a maior parte do tempo e ainda assim vencer, desde que, quando acertar, ganhe muito mais do que perde quando erra.

Taleb usa os conceitos de assimetria côncava e convexa para mostrar como diferentes decisões reagem ao inesperado. É simples: em uma assimetria côncava, o imprevisível joga contra você, e em uma assimetria convexa, joga a favor. Numa assimetria côncava, pequenos ganhos frequentes escondem a possibilidade de perdas enormes e desproporcionais. Numa assimetria convexa, as perdas são limitadas, mas os ganhos potenciais são exponencialmente maiores. Ou seja, você aceita errar várias vezes porque sabe que basta um acerto extraordinário para compensar todas as perdas anteriores.

Taleb leva essa lógica um passo além com o conceito de antifragilidade. Pensa comigo: algo frágil é algo que quebra com o caos; algo robusto é algo que não quebra, mas apenas resiste. Não queremos ser frágeis. Queremos ser, no mínimo, robustos. Mas, o bom mesmo é ser algo antifrágil, que melhora quando exposto à volatilidade, ao estresse e ao inesperado.

A metáfora que ele usa é a da Hidra da mitologia grega: toda vez que uma de suas cabeças era cortada, duas nasciam no lugar. Ou seja, o dano não apenas não a destruía, como a tornava mais forte. Sistemas antifrágeis funcionam assim.

Empreender é ser antifrágil

Vamos pensar nos benefícios de empreender. Se olharmos pelo lado financeiro, estamos falando de possibilidades de ganho bem maiores do que as de quem trabalha como empregado (estou generalizando aqui, óbvio).

Além do dinheiro, existem diversos outros benefícios. Ao empreender, você tem muito mais autonomia do que trabalhando para alguém. Pode controlar seu tempo, seu ritmo, pode escolher as pessoas com quem vai trabalhar, pode escolher as pessoas com quem NÃO vai trabalhar.

E os riscos de empreender? Existem? Claro, e não são poucos. O principal deles é você quebrar. Quando você empreende, a responsabilidade é sua, no matter what. E não pense que o risco é voltar à estaca zero. O risco de empreender é quebrar devendo. Devendo ao banco, devendo a fornecedores, devendo ao Estado.

Além desses riscos financeiros, existem outros riscos, talvez piores. Cansei de ver amizades acabando por conta de trabalho. Casamentos acabando por causa de uma falência. Problemas emocionais por conta da pressão diária que o empreendedorismo traz. E tem ainda o pior tipo de risco, que é aquele que você nem sabe que tem. Um sócio pode te roubar, você pode tomar um processo milionário por algum problema “pequeno”, você pode assinar um contrato sem ler as cláusulas pequenas e comprometer todo seu patrimônio pessoal…

Todos esses riscos são reais, mas, o que a maioria das pessoas que não empreendem não sabem é que a maioria desses riscos são mitigáveis. Quando a gente entende isso, entende que os riscos de empreender não são tão catastróficos quanto parecem.

Mas, o que realmente torna o empreendedorismo uma atividade antifrágil é o aprendizado que a exposição ao risco traz. É a casca que você desenvolve por estar batalhando na linha de frente, tendo que se virar para brigar pelo ganha pão da sua família. Empreender é enfrentar a realidade nua e crua. A realidade que não se importa com seus sentimentos, com suas dores, com seu cansaço. Empreender é como viver na selva, lutando por sua sobrevivência.

Desenvolver essa habilidade de sobrevivência é o maior ativo do empreendedorismo. Se você quebrar, você não volta à estaca zero. Você está mais qualificado do que estaria se estivesse em um emprego formal. Você tem uma rede de relacionamentos muito mais ampla do que teria se estivesse em um emprego formal. Você tem uma resiliência mental muito maior do que teria em um emprego formal.

O pior cenário do fracasso do empreendedorismo não é “morar debaixo da ponte”. É voltar ao começo, mas munido de diversas ferramentas, que provavelmente você não teria se tivesse seguido a manada.

Isso significa que empreender é o melhor caminho para todo mundo? Obviamente não. Empreender é para poucos. Empreender exige repertório intelectual, exige disciplina, exige alta tolerância a risco, exige extrema curiosidade e, com certeza, algum traço de inquietude.

Sem essas condições, o empreendedorismo deixa de ser uma assimetria convexa e passa a ser uma assimetria côncava. Nesse caso, o melhor caminho, sem dúvidas, é o emprego formal.


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