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O tempo compila sem pedir nossa permissão

Existe uma ilusão comum entre programadores: a de que temos controle. Controlamos a lógica, os fluxos, as entradas e saídas. Mas fora da tela, a vida não aceita rollback. O tempo compila sem perguntar se o código está pronto.

Assistindo ao videoclipe de Hurt, de Johnny Cash, percebi como a vida é implacável. Um homem no fim da linha, cercado pelas próprias memórias, encarando tudo aquilo que já não pode alterar. É como olhar para um sistema legado que você mesmo construiu, mas agora é tarde demais para refatorar. Não dá para apagar as decisões ruins, não dá para reescrever a juventude com mais cuidado, não dá para documentar o que foi deixado no improviso.

E é aí que bate forte: não existe versão 2.0 da nossa própria vida. O tempo não volta para corrigir bugs. O que fazemos agora — seja em código, seja nas relações, seja em nós mesmos — é o que vai restar quando a tela escurecer.

Programar me ensinou que todo código é uma tentativa de conversar com o futuro. Talvez viver seja a mesma coisa. A diferença é que, no fim, não teremos a chance de abrir o editor e digitar git revert.

Videoclipe para quem quiser ver: https://www.youtube.com/watch?v=8AHCfZTRGiI&list=RDL0AykH20X3Q&index=6

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Tem um conhecido soneto de Percy Bysshe Shelley, publicado em 1818, chamado "Ozymandias". Tem um pouco a ver com essa sua reflexão...

Encontrei um viajante vindo de uma antiga terra
Que me disse: — Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas, sobre a areia
Meio enterrado, jaz um rosto despedaçado, cuja carranca
Com lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor soube ler bem suas paixões
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou
E no pedestal aparecem estas palavras:
"Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!"
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe.

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Meus 2 cents,

Otima lembranca - Obrigado por compartilhar !

Engracado que eh muito citado este trecho:

Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!

Mas esquecem as linhas seguintes que correm (ou poe em seu devido lugar) as impressoes de grandiosidade.

Por minha vez, prefiro a citacao:

Os cemitérios estão cheios de pessoas insubstituíveis

Saude e Sucesso !

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É meio triste sim. O tempo não volta atrás. Mas enquanto há vida há esperança. E mais, saber que não tem rollback é mais um motivo para levar a sério o presente. Se só dá pra sair a versão 1.0, que seja a melhor 1.0 possível, é importante focar no que é realmente importante.

2

Eu gosto muito de Rock e de música autoral. Eu assisti o filme do Bob Dylan e o Johnny Cash aparece na trama. Eu achei legal conhecer a história deles. Eles foram precursores. Influenciaram (diretamente ou indiretamente) muitos músicos que vieram depois.

Sobre a passagem do tempo eu tenho um pouco a dizer, mas quero mesmo insistir no tema arte (correlacionando com o tema proposto):
Eu tenho assistido/lido muitas biografias de uns anos para cá:
Raul Seixas, Bob Dylan, Bob Marley, Steve Jobs, Silvio Santos, Belchior, Elis Regina, Tim Maia,.. Lembrei dessas mas deve ter mais.

E (como quase todo filme que assisto/livro que eu leio) assisti/li mais de uma vez.

O do Steve Jobs eu acho que ví três vezes. A série do Raul só assisti uma por enquanto por que são 8 episódios... Mas eu já lí mais de uma biografia dele.

A obra do Johnny Cash e do Bob Dylan eu não entendo direito, me sinto frente a um quebra cabeças com muitas peças. Mas a história deles, a relevância e o impacto na sociedade é muito importante.

2

Sou o que sou hoje pois não pude alterar o ontem e luto para que eu possa ver um amanha mais brilhante.

Quando eu ouvi esse clipe pela primeira vez fui logo pegar o violão e essa frase veio a minha mente, impressionante a vida. A música, a arte, a logica e a simples ideia de uma pessoa nos faz pensar do que fizemos e do que não deu para mudar o que cabe a nós a buscar não errar novamente.

Seu texto me lembra um querido professor que eu tinha ele dava aulas de ingles porem ele sempre viajava pela filosofia para nos ensinar os conceitos e até além da escola ele falava sobre a vide e me apresentou um poema de Carlos Drummond que deixou a turma (os que estavam atentos a sua fala pelo menos) reflexiva.

José

Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...

Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

...No fim da citação do poema ele disse que todos seremos um Jose algum dia ou não