O tempo compila sem pedir nossa permissão
Existe uma ilusão comum entre programadores: a de que temos controle. Controlamos a lógica, os fluxos, as entradas e saídas. Mas fora da tela, a vida não aceita rollback. O tempo compila sem perguntar se o código está pronto.
Assistindo ao videoclipe de Hurt, de Johnny Cash, percebi como a vida é implacável. Um homem no fim da linha, cercado pelas próprias memórias, encarando tudo aquilo que já não pode alterar. É como olhar para um sistema legado que você mesmo construiu, mas agora é tarde demais para refatorar. Não dá para apagar as decisões ruins, não dá para reescrever a juventude com mais cuidado, não dá para documentar o que foi deixado no improviso.
E é aí que bate forte: não existe versão 2.0 da nossa própria vida. O tempo não volta para corrigir bugs. O que fazemos agora — seja em código, seja nas relações, seja em nós mesmos — é o que vai restar quando a tela escurecer.
Programar me ensinou que todo código é uma tentativa de conversar com o futuro. Talvez viver seja a mesma coisa. A diferença é que, no fim, não teremos a chance de abrir o editor e digitar git revert.
Videoclipe para quem quiser ver: https://www.youtube.com/watch?v=8AHCfZTRGiI&list=RDL0AykH20X3Q&index=6