Vamos precisar saber programar no futuro?
"100% do código será escrito por IA."
Disse o CEO de alguma empresa de IA. E confesso que até o final de 2025 eu duvidava disso. Mas mudei de opinião.
Hoje, estou convencido de que essa frase é verdade. Mas será o fim do programador? Alguém ainda vai precisar entender de código no futuro?
Num passado não muito distante, a dupla {compilador + linguagem C} tornou a necessidade de se saber Assembly quase nula para 99% dos programadores.
Irá a dupla {LLM + inglês} dar o próximo passo e acabar com a necessidade de sabermos linguagens de programação?
Essa analogia faz sentido pra mim, mas é fácil ver onde ela quebra:
- um compilador dá uma garantia formal e determinística. Mesma entrada, mesma saída.
- uma LLM faz interpretação aproximada de intenção.
Quando você diz "adicione autenticação JWT", essa frase subdetermina massivamente a implementação. Política de expiração, estratégia de refresh, tratamento de erros, tradeoffs de segurança... O compilador nunca precisou fazer julgamentos. A LLM faz centenas deles a cada geração.
E o modo de falha é diferente: um bug de compilador é raro e reproduzível. Um "bug" de LLM é uma interpretação silenciosa e equivocada da sua intenção que parece perfeitamente correta — até que não seja.
Mas, então, como ferramentas de "vibe coding" como a Lovable são possíveis? Vou falar disso em outro artigo.
LLMs e ferramentas como o Claude Code (baita ferramenta, por sinal) vão melhorar, disso não tenho dúvidas!
Então, para tarefas bem compreendidas — CRUD, integrações padrão, boilerplate — as LLMs vão se tornar confiáveis o suficiente para que muita gente não precise entender o código. Isso já está acontecendo.
Mas para sistemas onde a corretude importa, onde o problema é novo, onde existem tradeoffs arquiteturais reais — alguém ainda vai precisar entender o que está acontecendo por baixo.
- "Saber fazer funcionar" vai ser mais fácil
- "Saber como funciona" vai ser mais raro.
Então, a profissão de programador vai acabar? Resposta direta: não, mas vai mudar. Algumas tarefas vão ficar mais fáceis, logo, menos valorizadas. Outras, vão continuar sendo difíceis, mesmo com IA, mas vai ser mais difícil conseguir pessoas capazes de resolvê-las (afinal, se o caminho mais fácil é usar IA, menos pessoas vão desenvolver essa expertise profunda).
O artigo "No Silver Bullet" (de Frederick Brooks, publicado em 1986!!!) tem uma reflexão sobre complexidade essencial vs complexidade acidental que continua relevante nos dias de hoje.
A ideia central do artigo é que ferramentas eliminam complexidade acidental, mas a essencial — entender o problema, tomar decisões de design — permanece. LLMs são uma ferramenta poderosa, mas operam na mesma lógica.
Outro ponto interessante: o desempenho de uma LLM parece estar bastante associado à qualidade da base de código em que ela está trabalhando. Ou seja, "código limpo" ainda vai continuar sendo necessário para a LLM performar bem — e, com ele, pessoas que consigam fazer essa distinção.
Isso é quase um paradoxo circular:
A IA precisa de bons programadores, escrevendo bom código, para funcionar bem — o que força a existência de bons programadores.
...mas acho que isso é outro papo! (Falo mais disso aqui.)
Boris Cherny, criador do Claude Code, respondeu ao seguinte post no X:
"A coisa que eu não entendo é: O Claude Code está escrevendo 100% do código do Claude agora. Mas a Anthropic tem mais de 100 vagas abertas para desenvolvedores na página de empregos deles."
A resposta foi:
"Alguém precisa fazer os prompts para os Claudes, conversar com clientes, coordenar com outros times, decidir o que construir em seguida. A engenharia está mudando e grandes engenheiros são mais importantes do que nunca."
Por fim: mais pessoas vão conseguir construir software. A profissão vai se reestruturar. Mas a expertise não vai se tornar obsoleta — vai se tornar mais rara e valiosa. (A premissa por trás disso: vamos precisar de cada vez mais software!)
Hoje (em fevereiro de 2026), essa é minha melhor previsão sobre o futuro da profissão. Compartilhando aqui para registro. Vamos ver como isso envelhece. :)
Esse artigo foi originalmente postado no Linkedin:
https://www.linkedin.com/pulse/vamos-precisar-saber-programar-futuro-marco-souza-0oxif/