Eu achava que "tudo que eu penso já existe", até parar de buscar ideias e começar a fatiar
Por muito tempo eu travei no mesmo lugar: toda ideia de projeto que me vinha, eu descartava com "isso já existe". E quase sempre existia mesmo, de alguma forma. O resultado é que eu não terminava nada — nem começava.
O que destravou não foi ter uma ideia genial. Foi mudar duas coisas.
A primeira: parei de buscar ideias originais e comecei a buscar problemas que me incomodam. Originalidade quase nunca está no conceito — está no recorte. Já existe editor de texto, já existe app de tarefa, já existe tudo. Mas não existe feito do seu jeito, pro seu uso, com as decisões que você tomaria.
No meu caso o incômodo era ruído de terminal. npm install cospe 3000 linhas. Stack trace longo empurra pra fora da tela justamente a linha que importa. Eu queria algo que pegasse esse output caótico e mostrasse só o que interessa — não escondendo, mas re-apresentando.
A ideia que fechou foi: tratar o output como estado, não como histórico. Em vez de um rio de linhas rolando, um cabeçalho vivo com contadores e a fase atual colapsada num item só. Warnings e erros quebram a sequência e ficam visíveis. Chamei de IceTea, feito em Go.
A segunda mudança, e a que mais importou: fatiar. "Fazer o IceTea" é uma tarefa que trava qualquer um — escopo grande demais, você nem sabe por onde pegar. Então quebrei em marcos minúsculos, cada um com algo funcionando no fim:
Marco 0: rodar um comando filho e capturar stdout/stderr. Só isso. ~80 linhas.
Marco 1: classificar cada linha (info/warn/erro) e contar.
Marco 2: a primeira TUI, feia, só o cabeçalho vivo.
Marco 3: cair pra modo texto quando não é terminal (pipe, CI).
Marco 4: o colapso de verdade — 150 linhas de info viram uma só.
Cada marco era uma sessão curta. Em nenhum momento eu tinha nas mãos um monte de código que eu não entendia. E isso me leva à terceira parte, que eu quero falar abertamente: usei IA no processo — Claude pra discutir arquitetura. Mas não do jeito "manda fazer o projeto inteiro". Cada marco era um prompt pequeno e específico. Quando o código voltava, eu lia inteiro e pedia explicação do que não entendia antes de seguir. O fatiamento não era só organização — era o que me mantinha dono do código. Um IceTea de 2000 linhas que a IA cospe de uma vez não é meu projeto; cinco marcos de ~100 linhas que eu entendo são.
E parei no v0.1.0 de propósito. Tenho uma lista de features (scroll, perfis por ferramenta, etc.), mas antes de adicionar qualquer coisa quero usar a ferramenta de verdade por uma semana e deixar o uso real dizer o que importa — em vez de adivinhar.
O projeto tá aqui, se quiserem ver ou destruir no code review: github.com/realknove/IceTea
Mas o que eu queria mesmo deixar é o aprendizado, que serve pra qualquer projeto: a barreira raramente é falta de ideia original. É escopo grande demais e medo de começar. Recorte um problema seu, fatie até o primeiro pedaço caber numa tarde, e termine esse pedaço. O resto vem.