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Rodei o sistema inteiro em ar-EG por uma tarde: o layout quebrado foi o achado mais barato

Um texto sobre renderizar tipografia árabe juntou 287 pontos e 83 comentários no Hacker News. Entrei esperando conversa de fonte e shaping, e boa parte do fio estava em outro lugar: gente contando o que quebrou depois que a interface finalmente ficou certa.

Fiquei com a pulga atrás da orelha e fiz o teste aqui. Uma tarde, um sistema em Node com Postgres que eu conheço linha por linha, locale trocado para ar-EG, e um caderno para anotar tudo que caísse. O CSS foi a primeira coisa a quebrar. Foi também a única que eu consertei no mesmo dia.

O procedimento, se você quiser repetir hoje

Locale não é uma coisa só, são três, e elas quebram em lugares diferentes.

# 1) o processo
LANG=ar_EG.UTF-8 LC_ALL=ar_EG.UTF-8 TZ=Africa/Cairo node server.js

# 2) o container (imagem slim quase nunca tem locale instalado)
docker run --rm -e LANG=ar_EG.UTF-8 -e LC_ALL=ar_EG.UTF-8 app:latest \
  node -e 'console.log(new Intl.NumberFormat().format(1234.5))'

# 3) o navegador
# chrome://settings/languages e sobe o árabe para o topo da lista
# no template, <html lang="ar" dir="rtl">

Depois use o sistema como usuário: cadastra, busca, lista, ordena, exporta CSV, gera PDF, dispara o e-mail transacional. Não leia o código procurando problema. Deixe o sistema te mostrar.

O achado barato: o layout

Menu no lado errado, ícone de voltar apontando para onde ninguém vai voltar, campo de formulário grudado na borda. Tudo isso mora em margin-left, padding-right e text-align: left espalhados pelo CSS. A correção é margin-inline-start, padding-inline e text-align: start.

É chato e é finito. Uma varredura por left e right na folha de estilo resolve a maior parte, e nenhum desses defeitos mexe em dinheiro. Gastei perto de 40 minutos por tela e passei para o resto do caderno, que era o problema de verdade.

Número formatado que volta como NaN

$ LC_ALL=ar_EG.UTF-8 node
> const v = new Intl.NumberFormat().format(1234.5)
> v
'١٬٢٣٤٫٥'
> Number.parseFloat(v)
NaN
> Number(v)
NaN

Os dígitos viraram indo-arábicos, o separador decimal virou ٫ e o de milhar virou ٬. Enquanto isso só aparece na tela, está tudo certo, é para isso que o Intl existe.

O problema é onde o seu código formata para o humano e lê de volta como se fosse dado. Relatório que soma uma coluna já renderizada, CSV que o financeiro reimporta na semana seguinte, campo de valor que o próprio sistema preenche e o usuário só confirma. Achei dois desses. Um devolvia NaN, que pelo menos aparece. O outro tinha um || 0 na frente e devolvia zero em silêncio.

A data mudou de calendário sozinha

> new Date('2026-09-04T12:00:00Z').toLocaleDateString('ar-EG')
'٤‏/٩‏/٢٠٢٦'
> new Date('2026-09-04T12:00:00Z').toLocaleDateString('ar-SA')
'٢٣‏/٣‏/١٤٤٨ هـ'

O ar-SA usa o calendário islâmico por padrão (islamic-umalqura). O dia e o mês exatos dependem da versão do ICU que você tem instalada, mas o ano vem 1448 em qualquer uma. Se a data de vencimento sai do backend por toLocaleDateString e volta por um parse do outro lado, o boleto nasce errado e o log não acende nada.

Ordenação e busca: o problema que já é seu

Esse eu já tinha em português e nunca vi, porque o banco de teste só tem João e Maria.

-- collation C compara byte a byte
SELECT nome FROM cliente ORDER BY nome COLLATE "C";
 nome
------
 Zuza
 Ávila

Á em UTF-8 começa em 0xC3, que é maior que o Z. A lista sai de cabeça para baixo e ninguém reclama, porque quem confere olha as três primeiras linhas. A busca tem o mesmo defeito pelo outro lado: ILIKE '%avila%' não acha Ávila sem unaccent, e assim que você embrulha a coluna na função o índice para de ser usado, a menos que você crie um índice sobre a expressão.

Em árabe é a mesma família de problema com outro nome. Os diacríticos (harakat) e as variações do alef mudam os bytes sem mudar a palavra que a pessoa digitou.

A regra que assume que nome tem duas palavras

Essa foi a que mais me irritou, porque o código é meu.

function split(nome) {
  const partes = nome.trim().split(' ');
  return { primeiro: partes[0], sobrenome: partes[1] };
}

split('Ana Beatriz Souza');  // { primeiro: 'Ana', sobrenome: 'Beatriz' }
split('Zeca');               // { primeiro: 'Zeca', sobrenome: undefined }
split('Muhammad bin Salman') // { primeiro: 'Muhammad', sobrenome: 'bin' }

O estrago não está no cabeçalho da tela. Está na chave de deduplicação do cadastro, na busca que o atendimento usa no telefone e na integração que manda last_name como campo obrigatório e recebe undefined.

O PDF você confere sem abrir

A biblioteca que não faz shaping entrega letra desconectada, e a fonte embarcada sem os glifos entrega quadradinho. Só que ninguém percebe isso passando o olho no arquivo. Gere e leia de volta:

pdftotext fatura.pdf - | head -5

Se o texto que volta não bate com o que você mandou imprimir, o PDF está desenhando forma, não escrevendo texto. Vale para o árabe e vale para o cliente brasileiro que abre o seu boleto e tenta copiar a linha digitável.

Por que isso importa mesmo se você nunca vai vender para o Egito

Trocar o locale por uma tarde é o teste mais barato que eu conheço para achar onde o sistema confundiu apresentação com dado. Nenhum desses cinco achados é sobre árabe. Todos já estavam lá, cobrando pouquinho, no cliente sem sobrenome, na busca com acento e no CSV com vírgula decimal.

Se você rodar hoje à tarde, escreve aqui qual foi o primeiro erro que não era CSS. Quero saber se o parse de número aparece na maioria dos casos ou se é vício do meu stack.

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