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Adeus as buscas do Google

Imagine que você esteja com vontade de comer lasanha. Onde encontra uma receita? Na internet, é claro.

Antigamente, ao digitar “ideias de receitas de lasanha” no Google, você tomava contato com uma infinidade de blogs de culinária, cada um com sua própria história: a variação da família da avó, fotos passo a passo dos ingredientes dispostos sobre uma mesa de madeira, vídeos mostrando a técnica e uma longa seção de comentários onde os leitores debatiam substituições ou compartilhavam seus próprios ajustes.

Clicar nesses links não apenas fornecia instruções; também apoiava o blogueiro por meio de anúncios, links afiliados para utensílios de cozinha ou uma assinatura de um boletim informativo semanal. Esse ecossistema sustentava uma cultura de experimentação, diálogo e descoberta.

Foi há uma década, mas não é mais agora. A mesma busca no Google agora pode gerar uma “Visão Geral de IA” bem elaborada, uma receita sintetizada desprovida de voz, memória e comunidade, entregue sem que o usuário precise visitar o site do criador. Sem que você se dê conta, anos de trabalho — incluindo o texto, as fotos e o desenho da página — podem já ter sido usados para treinar ou refinar o modelo de IA.

E agora o que será de toda essa época sustentável?

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Muitos enxergaram esse movimento muito antes dos “AI Overviews”. A GenAI não inaugurou o problema; apenas o levou ao limite.

Quando a rede deixa de conectar pessoas para falar por cima delas, autoria vira ruído, contexto vira excesso e a fonte vira matéria-prima de um centro agregador. O nome do problema não é IA. É centralização cognitiva.

Uma das teses desde ensaio de 2006 é que “uma voz deve ser percebida como um todo”: saber quem escreveu, em que contexto e com que estilo muda completamente o significado do texto. Embora o foco fosse a wikipedia e outros sites "agregadores", lido hoje, soa como diagnóstico antecipado dos "AI Overviws".

Se Lanier insistiu que a beleza da internet está em conectar pessoas; o valor está nos humanos, talvez só talvez o fim da busca como conheçemos seja algo positivo, que vai finalmente matar um modelo que já esta falido a decadas...

Talvez a morte da busca como a conhecemos seja ruim para o que restava da web aberta, mas boa por finalmente destruir uma ilusão. Porque a internet já vinha "embostificando" há decadas: SEO, páginas infladas para algoritmo, intermediários cada vez mais poderosos, plataformas capturando atenção e redistribuindo miséria para quem de fato produzia conteúdo.

A IA Generativa não mudou esse modelo. Ela apenas revelou sua lógica cruel com clareza infinita.

Nesse sentido, o colapso pode até ser saudável. As vezes à destruição do "antigo" é a única forma de abrir espaço para o "novo". E talvez, só talvez, isso force um retorno a formas menores, mais intencionais e mais humanas de presença online: menos dependentes de tráfego massivo, menos orientadas por ranking, mais ligadas a comunidade e vínculo real.

Então como o bom otimista que sou prefiro acreditar que a GenAI não esteja matando uma internet saudável, mas apenas sepultando, de uma vez por todas, um modelo que já estava morto.