Executando verificação de segurança...
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Você está se sentindo um bosta com o surgimento da IA?

Esse texto foi lançado no meu blog orapha.dev vou colocá-lo total aqui para discutirmos, acreditem esse texto pode ajudar muita gente.

Semana passada eu estava meio mal.

Recebendo demanda, criando prompt, revisando alteração, aprovando ou negando resposta, reescrevendo prompt, ajustando contexto e repetindo esse ciclo de novo e de novo.

Em algum momento, isso começou a me corroer por dentro.

Porque eu gosto de programar.

Eu gosto de criar algoritmo, conectar classes, pensar modelagem, fazer inversão de dependência, organizar responsabilidade, nomear bem uma abstração e ver uma arquitetura começar a respirar. Tem uma parte muito viva da minha relação com software que sempre passou por isso: o código escrito à mão.

E quando a IA começou a ocupar esse espaço com mais força, eu senti uma perda real.

Não foi só desconforto técnico. Foi ego ferido também.

O código escrito à mão era uma das coisas que mais oxigenavam minha identidade profissional. Era onde eu me sentia útil, capaz, afiado. Então, quando a IA generativa começou a parecer capaz de eliminar justamente essa limitação, eu me senti menor.

Eu me senti, sim, um bosta.

Quando a crise não é técnica

Talvez você também esteja passando por isso e não esteja falando em voz alta.

Porque existe uma pressão quase silenciosa no ar: a de parecer empolgado o tempo todo. Como se qualquer incômodo com IA fosse medo de evolução. Como se toda resistência fosse incompetência disfarçada.

Mas nem sempre é isso.

Às vezes o que está doendo não é a ferramenta.

É perceber que uma parte do trabalho na qual você depositou orgulho, prazer e senso de valor deixou de ocupar o mesmo lugar.

Isso mexe com a identidade. E identidade profissional, quando é abalada, dói mais do que a gente gosta de admitir.

Eu decidi fazer o caminho contrário

Em vez de cair de cara no código para alimentar o meu ego e bem estar, eu tentei outra coisa.

Eu decidi aprender mais sobre IA.

Decidi me provar que eu era maior do que a parte de mim que estava se sentindo substituível.

Me lembrei dos datilógrafos no surgimento do computador. De muita gente boa que viu a ferramenta mudar e precisou encarar a humilhação temporária de reaprender o próprio ofício. Não porque eram menos capazes, mas porque o terreno tinha mudado.

Eu percebi que estava entrando nessa mesma água turbulenta.

E, se eu já estava dentro dela, nadar parecia melhor do que fingir que a correnteza não existia.

O texto que me acertou

Nessa busca, li o artigo The Phoenix Architecture: Relocating Rigor, The Discipline That Looks Like Recklessness, de Chad Fowler, publicado em 06 de janeiro de 2026.

O texto me acertou porque ele nomeou uma sensação que eu estava vivendo, mas ainda sem vocabulário suficiente para explicar.

Em um dos trechos mais fortes, a ideia é mais ou menos esta: certas mudanças na história do software parecem liberdade porque removem sinais conhecidos de controle, mas na verdade elas só deslocam o rigor para mais perto da realidade.

Isso merece ser mastigado com calma.

Nem toda perda de controle é perda de rigor

Durante muito tempo, a engenharia de software se acostumou a associar seriedade com certos símbolos.

Plano detalhado.

Documento extenso.

Cronograma bonito.

Processo pesado.

Muito código escrito manualmente.

Tudo isso passa uma sensação de controle. E sensação de controle acalma.

Só que sensação não é verdade.

O ponto do Chad Fowler, do jeito que eu li, é que algumas mudanças parecem remover disciplina quando, na prática, só impedem a gente de fingir progresso.

Antes, era possível se esconder atrás de artefatos.

Hoje, cada vez mais, o sistema responde.

O teste passa ou falha.

O deploy quebra ou sobe.

O código gerado funciona ou vira dívida.

O usuário recebe valor ou não recebe.

Quando ele diz que essas mudanças aproximam o rigor da verdade, eu entendo assim: elas empurram a disciplina para um lugar menos performático e mais verificável.

Você deixa de parecer produtivo e passa a precisar provar que houve resultado.

O exemplo da XP continua atual

Um trecho do artigo fala sobre como a Extreme Programming (XP) substituiu o desenvolvimento por fases.

A XP eliminou planos longos, documentos extensos de design e aquelas etapas rígidas que davam às organizações uma sensação de segurança. E isso, para muita gente, parecia irresponsabilidade.

Mas a provocação é justamente essa: será que aqueles artefatos entregavam segurança de verdade ou só a aparência dela?

Porque a XP não removeu disciplina.

Ela removeu certos símbolos de disciplina e colocou outros no lugar.

Teste antes do código.

Integração contínua.

Feedback curto.

Entrega frequente.

Revisão constante.

A rigidez saiu da burocracia e foi para o contato direto com a realidade do software.

Isso é importante demais agora, porque a IA está forçando um movimento parecido.

A parte que me desmontou

Tem outra ideia do texto que me atingiu em cheio: a IA generativa parece eliminar a principal limitação, que é o código escrito à mão.

Foi aqui que eu me reconheci sem defesa.

Porque esse código escrito à mão não era só uma atividade operacional para mim.

Era fonte de autoestima.

Era o lugar em que eu sentia domínio.

Era onde meu ego respirava.

Era onde eu conseguia olhar para o que fiz e pensar: fui eu que construí isso.

Quando esse espaço parece encolher, a sensação inicial não é "que interessante, uma mudança de paradigma".

A sensação é incapacidade.

É se perguntar se aquilo que te fazia valioso agora virou detalhe.

É achar que sua utilidade profissional foi reduzida a revisar o trabalho de uma máquina.

E isso pesa.

O ponto de virada para mim

Mas o trecho que eu realmente precisava ler veio depois: a resposta não é rejeitar a geração. A resposta é realocar a disciplina.

Quando li isso, muita coisa começou a fazer sentido.

Porque o problema não era exatamente a IA gerar código.

O problema era eu estar procurando meu valor no lugar antigo, enquanto o trabalho real estava mudando de endereço.

Se antes boa parte do rigor estava em escrever cada linha, agora uma parte crescente dele pode estar em especificar melhor, delimitar contexto, criar invariantes, desenhar bons contratos, definir critérios de aceitação, montar testes decentes e julgar com severidade o que foi produzido.

Isso não é menos engenharia.

Isso continua sendo engenharia.

Só não entrega a mesma recompensa emocional imediata de digitar tudo com as próprias mãos.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente esteja se sentindo estranha e não saiba explicar por quê.

Geração barata não é evolução

Outra frase do texto que eu acho importante cravar é esta ideia: geração barata sem rigor não é um novo paradigma. É abdicação.

Isso precisa ser dito de forma bem direta.

Usar IA para despejar código sem entendimento, sem validação, sem teste, sem critério e sem responsabilidade não é modernidade.

É só terceirização acrítica do pensamento.

Não existe avanço real em trocar esforço manual por passividade intelectual.

Se a IA produz mais rápido, então meu julgamento precisa ficar mais rígido.

Se o custo de gerar caiu, o custo de aceitar qualquer coisa precisa subir.

Se a máquina amplia minha capacidade de execução, eu preciso ampliar junto minha capacidade de discernimento.

É esse equilíbrio que separa engenharia de abandono.

Então o que eu faço com esse incômodo?

Hoje, a minha resposta é esta: eu não quero lutar para preservar artificialmente um formato antigo da minha utilidade.

Eu quero entender qual é a nova forma de trabalhar bem.

Quero continuar gostando de software, mesmo que o centro de gravidade da profissão esteja mudando.

Quero continuar técnico, mas sem romantizar um passado que não vai voltar.

Quero aprender a operar nesse novo cenário sem me tornar refém dele.

Quero manter rigor.

Quero manter autoria.

Quero manter responsabilidade.

Mesmo que tudo isso agora se manifeste de um jeito diferente.

Um fechamento ainda em aberto

Eu não terminei esse processo.

Não saí dessa leitura com todas as respostas.

Não virei um evangelista de IA de uma hora para outra, nem deixei de sentir saudade daquela alegria mais artesanal de escrever software linha por linha.

Mas saí melhor do que entrei.

Saí com menos sensação de incapacidade.

Saí com menos vergonha do desconforto que eu estava sentindo.

E, principalmente, saí mais motivado a buscar essa nova forma de trabalhar, em vez de ficar parado lamentando a perda da forma antiga.

Talvez esse seja o máximo de honestidade que eu consigo oferecer agora.

Eu ainda estou entendendo o que essa mudança faz com a profissão.

E também o que ela faz comigo.

Mas já não me sinto mais incapaz.

Me sinto em transição.

E, para este momento da minha vida, isso já é muita coisa.

Meu obrigado ao Chad Fowler pelo artigo. Algumas leituras não resolvem a crise por completo, mas colocam nome no que estava doendo. E, às vezes, é exatamente daí que a recuperação começa.

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