Crie um projeto, mas que ele seja útil (primeiramente) para você.
Uma das coisas mais valiosas que um desenvolvedor pode fazer, na minha opinião, é criar um projeto pessoal. Não porque ele pode virar uma startup. Não porque vai render dinheiro. Não porque fica bonito no currículo. Essas coisas podem acontecer, mas não deveriam ser o motivo para começar. O melhor projeto é aquele que resolve um problema seu. A frase parece de coach, mas a mensagem é genuína.
Quando você cria algo para si mesmo, existe uma motivação diferente. Você não está implementando uma funcionalidade porque alguém pediu. Você está fazendo porque quer usá-la. E isso muda completamente a forma como você encara os desafios.
Vai existir aquele bug que leva horas para resolver.
Vai existir a funcionalidade que parece impossível de terminar.
Vai existir a vontade de fechar tudo e deixar para outro dia.
Mas, no final, você sabe exatamente qual é a recompensa: poder usar aquilo que acabou de construir.
E essa sensação compensa muito mais do que parece.
Outra vantagem de um projeto próprio é que ele cresce junto com você.
No início, você acha que já sabe tudo o que ele precisa ter.
Depois de algumas semanas usando, percebe que várias coisas fazem falta.
Então surgem ideias que nunca teriam aparecido se o projeto existisse apenas no papel.
Você melhora uma tela. Depois melhora um fluxo. Descobre uma tecnologia nova.
Refatora uma parte inteira porque aprendeu uma forma melhor de fazer. Sem perceber, aquele projetinho começa a contar a história da sua evolução como desenvolvedor.
Também existe um benefício que quase ninguém comenta: você pode errar à vontade.
Não existe cliente esperando. Não existe gerente cobrando prazo. Não existe deadline dizendo que aquilo precisa estar pronto até sexta-feira. Existe apenas você, experimentando, quebrando coisas, recomeçando e aprendendo. E talvez, em algum momento, outras pessoas descubram valor naquilo. Às vezes começa com um amigo usando.
Depois outro. Depois alguém faz uma sugestão. Quando você percebe, o projeto já é muito maior do que imaginava no primeiro commit. Mas isso acontece como consequência, não como objetivo. Se eu pudesse dar apenas um conselho para quem está começando, seria este:
Crie seu projeto.
Não importa se é uma automação simples, uma ferramenta de linha de comando, um site, um aplicativo ou qualquer outra coisa.
Não importa se ninguém vai usar além de você.
O importante é construir algo que faça sentido para você.
No caminho, você vai aprender tecnologias novas, criar uma rotina de estudos, desenvolver disciplina, enxergar problemas que nenhum curso ensina e, principalmente, entender que programar fica muito mais divertido quando existe um propósito pessoal por trás.
No meu caso, tudo começou porque eu jogava Cartola e sentia falta de respostas rápidas para perguntas que eu fazia toda rodada. As informações existiam. O problema era chegar até elas. Eu precisava abrir vários sites, comparar dados, cruzar informações manualmente e, muitas vezes, fazer isso tudo em pouco tempo antes de escalar o time. Existiam algumas ferramentas disponíveis, obviamente, mas com valores meio altos e não eram de fato como eu esperava.
Não comecei pensando em usuários.
Nem em monetização.
Muito menos em transformar aquilo em um produto.
Queria apenas facilitar uma tarefa que eu repetia praticamente toda semana.
Comecei respondendo às perguntas que eu mesmo fazia com mais frequência.
Será que é possível buscar esses dados ?
Como apresentar isso de uma forma mais rápida ?
Qual informação realmente importa na hora de tomar uma decisão ?
Vieram alguns testes. Depois uma página simples. Depois outra. E, aos poucos, aquilo começou a ficar realmente útil para mim.
Foi aí que aconteceu uma coisa interessante.
Alguns amigos viram o projeto e perguntaram se poderiam usar também.
Liberei o acesso. Logo depois começaram a surgir sugestões.
"Seria legal se tivesse isso."
"E se mostrasse essa outra informação?"
"Nunca encontrei esse dado dessa forma."
Percebi que, sem querer, eu já não estava resolvendo apenas um problema meu. Estava resolvendo um problema compartilhado por pessoas que tinham exatamente o mesmo interesse. E isso mudou completamente minha motivação.
Cada funcionalidade nova deixava de ser apenas uma tarefa para virar algo que realmente ajudava alguém. Sem perceber, o projeto foi crescendo. Vieram novas ideias. Novas funcionalidades. Tecnologias que eu nunca tinha usado e precisei aprender. Coisas que fiz do jeito errado e refiz meses depois. Funcionalidades que nem passavam pela minha cabeça no início, mas que só fizeram sentido depois de usar o projeto por bastante tempo.
Acho que esse é um dos maiores benefícios de construir algo para você mesmo. Você descobre necessidades que simplesmente não existiam enquanto a ideia ainda estava só na sua cabeça. O próprio uso do projeto vai mostrando o próximo passo.
Depois de alguns meses, percebi que aquilo tinha se tornado maior do que imaginei. Continuei mantendo uma parte gratuita, porque ela já resolvia o problema de muita gente. E também criei uma área mais completa para quem quisesse análises mais profundas. Mas isso aconteceu como consequência. Se, lá no começo, alguém tivesse perguntado qual era o plano de negócios, eu provavelmente não teria resposta. Porque não existia um. Existia apenas um problema que eu queria deixar de ter.
Hoje, olhando para trás, acho que a maior recompensa nem foi o projeto em si. Foi tudo o que aprendi enquanto construía. Aprendi tecnologias novas. Aprendi a organizar melhor minhas ideias. Aprendi a ouvir feedback. Aprendi a desenvolver pensando em quem realmente usa aquilo. E talvez eu nunca tivesse aprendido tudo isso se tivesse esperado uma "grande ideia".
Então, se eu pudesse deixar uma sugestão para quem está pensando em criar alguma coisa, seria esta: Não tente criar o próximo grande produto da internet.
Crie algo que você gostaria de usar. Algo que resolva uma pequena dor da sua rotina. Mesmo que só você use. Mesmo que a interface seja feia. Mesmo que ninguém nunca descubra esse projeto. Porque existe uma boa chance de que, no caminho, você aprenda muito mais do que aprenderia seguindo apenas cursos. E, se um dia outras pessoas também encontrarem valor naquilo, ótimo. Mas não deixe que essa seja a condição para começar.
Ah, e documente o processo.
Não porque isso gera conteúdo para a internet. Documente porque, alguns meses depois, você vai perceber que a maior evolução não aconteceu no projeto. Aconteceu em você.