preguiça dele de entender melhor o mercado em que estava se enfiando focado apenas no lucro prometido. As vezes estendemos a mão ao diabo porque e mais fácil fazer isso do que mudar o sistema entendeu?
Hoje penso da mesma forma que você e, com certeza, faria tudo diferente. Porém, acredito que, tanto no meu caso quanto no do seu filho, a palavra que melhor representa isso é falta de malícia, e não preguiça.
Porque, na época, fiz até os piores caminhos, e os que deram mais trabalho. Por exemplo, fiquei 1 ano inteiro resolvendo exercícios de lógica, foram mais de 300, que não serviram para nada. Fiz vários cursos na Udemy que diziam ser do básico ao avançado, com vários exercícios e projetos que, novamente, ao meu ver, não serviram para muita coisa, dentre várias outras dicas vindas de autoridades.
Então, felizmente, não foi preguiça de fazer ou pesquisar. Foi falta de malícia, no sentido de acreditar cegamente no que as pessoas dizem, e falta de entender como o mercado funciona. Na época, nunca me passou pela cabeça o pensamento simples de: “O que esses 300 exercícios ou projetos têm de útil para uma empresa?”. E a resposta é: nenhuma.
Você checou a autenticidade dessas figurinhas?
Provavelmente isso nem passou pela cabeça dele. Não sei o quanto você trabalha com ele a questão de checar dados e desconfiar, porém uma das coisas que a escola e, muitas vezes, os pais não ensinam é a desconfiar de tudo.
Posso estar enganado e talvez realmente tenha sido preguiça da parte dele. Porém, pensar em algo assim, ainda mais para alguém que nunca foi enganado, é difícil.
Pois tanto eu quanto ele não estávamos buscando o caminho mais fácil, estávamos buscando o caminho percebido, sem duvidar e sem imaginar que a pessoa poderia estar mentindo, no caso dele o dono da loja estar vendendo algo falso.
As vezes estendemos a mão ao diabo porque e mais fácil fazer isso do que mudar o sistema entendeu?
Quando digo “Se o diabo é o único que te estende a mão, você acaba segurando”, não falo no sentido de escolher o caminho mais fácil, e sim no sentido de ser o único que estava disponível. Não havia alternativas, porque eu não as conhecia e nem imaginava que existissem.
Novamente, talvez seu filho também não soubesse que existiam cartas falsas, nem o que torna uma carta valiosa no longo prazo. Eu, inclusive, passei por algo semelhante comprando cartas de YuGiOh. Olhava para a carta original e para a minha e perguntava: “Por que não é a mesma?”.
Por muito tempo, eu não tinha o conceito de originalidade formado na minha mente. Quando você cresce comprando tudo falsificado, e tudo o que importa é o menor preço, a qualidade deixa de ser referência. Você simplesmente não sabe o que é original, no caso da programação, não sabe oque é relevante ou funciona.
(além de programador sou psicanalista formado).
O que acabei de falar acima, “a escola nos doutrina a acreditar cegamente em autoridades sem questionar”, acabou de acontecer comigo por alguns segundos logo após você dizer “sou psicanalista formado”. Magicamente, por alguns segundos, minha mente começou a acreditar que tudo o que falei até agora estava errado e que você estava certo, mesmo sem ter me apresentado nenhum comprovante ou qualquer garantia. E esse é justamente o ponto de tudo.
Mas por quê? Indo mais a fundo nisso: porque eu não tinha malícia. Hoje tenho, e da mesma forma que vou questionar você, no sentido de não levar tudo o que fala como verdade apenas por ser uma autoridade.
Entre nós brasileiros, esse sentimento de “acreditar cegamente” em autoridades e dados é muito forte. É incrível como, em qualquer debate ou questionamento, as pessoas giram em torno de “tal coisa funciona assim”. “Você tem dados?” “Tenho.” E a pessoa simplesmente aceita. Não questiona quem fez, como fez, quando fez, ou qualquer outro detalhe, na maior parte das vezes.
Se não são dados, é autoridade. A pessoa fala algo, alguém pergunta: “Você é formado nisso?”. A resposta é “sim”, e imediatamente passam a acreditar cegamente. E, por outro lado, se a pessoa não tem dados ou não é uma autoridade, é como se tudo o que ela disse automaticamente deixasse de ter valor, verdade ou sentido.
Demorei 5 anos para entender como o mercado realmente é, Hoje percebo que grande parte da internet transformou autoridade em produto.
“Quem sou eu para discordar de alguém que conquistou coisas que eu ainda não conquistei?”
É exatamente o que digo nessa parte: o brasileiro acredita fortemente em autoridades sem questionar, e eu não fui diferente. Durante muito tempo, esse foi um erro que me custou anos.