Você vive na realidade?
Trabalhei por um tempo em uma empresa que vendia software local para clientes. Era uma empresa pequena, com cerca de 300 clientes, e muitos deles tinham dificuldade básica com tecnologia. Alguns não conseguiam nem instalar o software e precisavam de treinamento para usar.
Um padrão claro era a baixa qualidade dos computadores. A maioria usava máquinas antigas, principalmente da Positivo, com desempenho muito limitado. Muitos clientes não queriam investir em hardware, mesmo quando isso impactava diretamente o funcionamento do sistema. Um conhecido chegou a ganhar dinheiro instalando Windows otimizado nesses PCs, porque nem o Windows 10 rodava bem.
Mesmo em uma cidade com bom poder aquisitivo, vender software não era simples. O preço variava entre 150 e 200 reais, chegando a 400 reais em casos específicos, e ainda assim havia resistência. Parte dos clientes eram pequenos empreendedores começando do zero. Outros eram empresas antigas, mas sempre buscando reduzir custos.
Hoje estou em uma cidade menos desenvolvida. Aqui, a realidade é ainda mais limitada. Não há empresas de software locais, muitos processos são manuais, e a economia gira basicamente em torno de prefeitura e turismo. Nesse contexto, pagar 150 reais por um software muitas vezes não faz sentido. O processo manual, mesmo ineficiente, acaba sendo suficiente dado o baixo volume de operação.
Isso se conecta com algo mais amplo: o custo de investir. Vi recentemente um vídeo mostrando fábricas reais, e a maior parte dos processos ainda é manual. Não por falta de tecnologia, mas por custo. Automatizar com robôs exige investimento alto e retorno demorado. Já contratar pessoas exige menos capital inicial. O funcionário entra, produz, e o próprio trabalho gera o retorno ao longo do mês. A máquina precisa ser paga antes de gerar valor.
Essa lógica aparece também em pequenos negócios. Em uma conversa, cogitamos abrir algo relacionado à customização de placas de vídeo, como imprimir artes diretamente no metal. A máquina necessária custava cerca de 50 mil reais. Para alguém comum, isso pode representar anos juntando dinheiro e mais vários anos para recuperar o investimento. Ainda existe o risco: a tecnologia pode mudar, a demanda pode desaparecer, ou a empresa fornecedora pode nem existir mais no futuro.
Diante disso, o caminho natural seria um empréstimo. Mas isso também traz risco alto. Endividamento longo sem garantia de retorno. O custo de entrada para empreender é alto demais para a maioria das pessoas.
O mesmo vale para tecnologia básica. Hoje, um computador minimamente bom custa entre 5 mil e 10 mil reais. Algo inacessível para grande parte da população. Mesmo máquinas simples de 2 mil reais já são difíceis para muitos. Eu mesmo levei anos para conseguir entrar na área por não ter um PC adequado.
Essa realidade contrasta com o discurso atual sobre avanços tecnológicos. Existe muito conteúdo sobre IA, automação e futuro do trabalho, mas pouco alinhado com a realidade da maioria das pessoas. Em muitas regiões, ainda faltam condições básicas. Isso cria uma distância grande entre o que é discutido e o que de fato é vivido.
A IA tem potencial real, e eu mesmo uso. Testo ferramentas pagas e pretendo testar soluções locais. Funciona para programação, isso é claro. Mas o ponto crítico não é capacidade, é acesso. Se depender de assinaturas, infraestrutura cara e processamento pesado, o uso tende a ficar concentrado em quem pode pagar.
Por isso, a ideia de que IA vai substituir programadores de forma generalizada não me convence. Esse tipo de afirmação ignora limitações práticas: custo, acesso, contexto econômico e maturidade das empresas. A maioria dos negócios ainda está longe de resolver problemas básicos, quanto mais automatizar tudo com IA.
No cenário atual, é mais provável que a IA funcione como ferramenta de aumento de produtividade para quem já está dentro do mercado, e não como substituição massiva. E mesmo assim, com barreiras de acesso.
No fim, existe uma desconexão clara entre o discurso tecnológico e a realidade econômica. Para grande parte das pessoas e pequenos negócios, o problema ainda não é automação ou IA. É acesso básico a ferramentas, capital e infraestrutura.
Essa é a realidade que vejo hoje.
Isso é real pra você ou só na minha bolha?