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Disseram que 'inglês é a nova linguagem de programação'. Passei 3 meses programando assim, e ainda preciso saber programar.

Tem uma frase do Andrej Karpathy que virou bordão: "The hottest new programming language is English". A linguagem de programação mais quente agora é o inglês. Eu li isso umas trinta vezes no feed, sempre com alguém abaixo comemorando que não precisa mais aprender a programar. Resolvi levar a sério e testar: passei três meses programando quase só dando ordens em inglês para a IA.

Spoiler: a frase do Karpathy é meia-verdade. E a metade que sobra é justamente a parte que ninguém quer ouvir.

O teste, com número de verdade

Não dá pra discutir isso no campo da vibe. Então eu anotei. Durante três meses, num projeto pessoal real (um stack de voice AI, com testes e PRs de verdade), eu marcava cada tarefa: ela terminou só com instrução em inglês, ou em algum momento eu precisei abrir o código e meter a mão?

O resultado, arredondado pra eu não fingir precisão que não tenho:

  • Cerca de 70% das tarefas terminaram só na conversa. Descrevi o que queria em inglês, a IA escreveu, os testes passaram, fim.
  • Os outros 30% me obrigaram a abrir o arquivo e ler o código linha por linha.

Setenta por cento parece uma vitória esmagadora pro time do "inglês é a nova linguagem". Até você olhar quais 30% sobraram.

Em 3 meses de desenvolvimento por instrução em inglês, 70% das tarefas terminaram só na conversa, mas os 30% restantes eram justamente os bugs sutis, decisões de arquitetura e integrações frágeis

Os 30% eram os 30% que importavam

Os 70% fáceis eram CRUD, scaffolding, um endpoint novo igual aos outros dez, ajustar um teste. Trabalho que eu faria de olho fechado, só que mais rápido. Maravilha.

Os 30% que me forçaram a ler código eram: um bug de concorrência que só aparecia sob carga, uma decisão de arquitetura onde a IA propôs três caminhos e todos os três tinham uma armadilha diferente, uma latência de 40ms que vazava de um lugar que nenhuma descrição em inglês ia adivinhar. Ou seja: exatamente as tarefas pelas quais alguém me paga.

A IA escreve o trecho chato. Mas decidir qual trecho ela deveria escrever, e perceber quando o que ela escreveu está sutilmente errado, continua sendo trabalho de quem sabe ler código. Karpathy mesmo deu nome a esse problema: "jagged intelligence", a inteligência serrilhada. O modelo resume um paper como um PhD e na linha seguinte erra uma conta de criança. Você só percebe o erro de criança se souber a conta.

O outro lado da frase: Andrew Ng

Aí entra a contra-frase. O Andrew Ng, que dirigiu IA no Google e no Baidu e fundou a DeepLearning.AI, disse que afirmar que aprender a programar é desnecessário por causa da IA é um dos piores conselhos de carreira já dados.

E ele não está sendo nostálgico. O argumento é matemático: quanto mais a IA derruba a barreira de entrada da programação, mais valioso fica quem sabe programar, porque o teto de produtividade de quem sabe sobe junto com a ferramenta. A imagem dele é boa demais pra eu não roubar: quem é bilíngue, fala inglês como primeira língua e Python como segunda, faz muito mais do que quem só sabe dar prompt.

Repara que os dois não estão se contradizendo de verdade. Karpathy diz que a interface mudou. Ng diz que a competência por baixo da interface continua valendo. Os meus três meses concordam com os dois ao mesmo tempo: o inglês virou a interface, mas ler e escrever código virou a habilidade de revisão, e revisar ficou mais importante, não menos.

Vibe coding é ótimo até a segunda-feira

Teve uma fase em que eu me empolguei e fui de vibe coding puro: aceitava tudo que a IA sugeria, sem ler o diff. Em duas horas tinha um protótipo rodando. Me senti um gênio.

Na segunda-feira seguinte fui adicionar uma funcionalidade e descobri que eu não fazia a menor ideia de como aquela base de código funcionava, porque, tecnicamente, eu não tinha escrito nenhuma linha dela. Gastei meio dia lendo o que eu mesmo (a IA) tinha feito. O próprio Ng já alfinetou o termo "vibe coding" por passar a impressão errada de que engenheiro de verdade trabalha no feeling. Protótipo? Pode ir na vibe. Código que vai ter continuação na semana seguinte? Aí a conta chega.

Um parêntese pra quem está começando agora no Brasil

Eu sei o efeito que essa frase do Karpathy tem em quem está tentando entrar na área agora, com o mercado júnior do jeito que está, cheio de vaga pedindo sênior e thread no LinkedIn dizendo que a IA vai substituir o estágio. Dá um frio na barriga ler que "não precisa mais aprender a programar".

Pela minha experiência de três meses, o conselho é o oposto: aprenda a programar justamente pra poder revisar a IA. O profissional que a IA torna obsoleto não é o que sabe código, é o que só sabe dar prompt e não consegue julgar se a resposta presta. Saber ler código deixou de ser o trabalho inteiro e virou o seu superpoder de controle de qualidade.

Resumo

  • O inglês virou a interface de programação, isso é real. Uns 70% das minhas tarefas terminaram só na conversa.
  • Os 30% que sobraram eram os difíceis, os que pagam a conta, e exigiram ler código de verdade.
  • Karpathy e Ng não se contradizem: a interface mudou, a competência por baixo dela ficou mais valiosa.
  • Vibe coding é excelente pra protótipo e perigoso pra qualquer coisa que tenha segunda-feira.
  • Se você está começando agora: aprenda a programar pra revisar a máquina, não pra competir com ela na digitação.

"Inglês é a nova linguagem de programação" é uma frase boa demais pra ser inteira verdade. A linguagem mudou. Saber programar, não.


ken imoto · WebRTC & Voice AI engineer · kenimoto.dev · TabNews

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É isso aí.

O trecho chato deveria ter sido abstraído há muito tempo. Curiosamente n o passado as pessoas sabiam fazer isso melhor. Eu fui vendo em diversas empresas e códígos na internet que as pessoas, até mesmo "bons" programadores estavam querendo entregar logo, usando muito ^C^V e assim a parte chata era feita mais rapidamente.

O problema é que isso nunca foi uma boa ideia e até outras áreas da engenharia entendem isso melhor.

Não que não seja ensinado, mas não é tanta prioridade, nem sempre se vê esse tipo de coisa em destaque. É mais fácil ensinar a receita de bolo que você faz uma vez, duas, dez, e chega ser centenas ou milhares de vezes.

O engenheiro identifica o problema real e acha uma solução adequada. Quem é só um criador de códigos faz do jeito errado, acha chato e depois quando surge uma ferramenta que o livra da parte chatea, ele adota sem pensar. Ou seja, é mais uma ferramenta adotada para resolver um problema que não deveria existir.

Por isso eu falo que frameworks atualmente parecem maravilhosos perto do uso da IA para fazer oque eles entregam. ANtes eu nem sempre via com bons olhos, alguns ajudavam muito, outros não traziam tantos benefícios assim e vinha junto algumas desvantagens. Mas é como acontece na música, eu odiava certas músicas no passado e hoje elas paarecem maravilhosas perto do que anda aparecendo.

Dá mais trabalho fazer código melhor abstraído, adotando melhor DRY, mas é assim que engenheiros fazem. Os demais são apenas cozinheiros de trabalho manual seguindo receitas prontas.

Isso que descreveu chama-se dívida cognitiva. Guarde bem esse nome. Junta com a dívida técnica e está feito o forfé.

Eu ainda acho que está ocorrendo um delírio coletivo, especialmente entre progamadores, sobre a capacidade da IA. Mesmo quem ainda tece críticas, tende a achar que ela faz mais do que realmente faz, até porque ela já estava acostuma a programar mal.

É bem difícil achar um programador realmente muito bom que bote muita fé na IA. Nenhuma dessas pessoas está abominando a IA, só não estão só revisando código, isso só funciona para códigos repetitivos.

Já há pessoas, influentes, pregando que nem precisa revisar o código, até porque a IA gera tanto código que isso fica quase impossível. Não sei onde vamos parar com isso. Conselhos ruins se tornaram a norma. O que contribui para o delírio coletivo.

S2


Farei algo que muitos pedem para aprender a programar corretamente, gratuitamente (não vendo nada, é retribuição na minha aposentadoria) (links aqui).