A crise existencial da era das inteligências artificiais
Um tipo específico de programador tende a sumir do mercado
Se você é programador e ainda não está com uma pulguinha atrás da orelha sobre o futuro da sua profissão, é porque ainda não entendeu o poder da IA. O mercado já está vibecodando produtos completos. A questão não é mais "a IA vai me substituir?". A questão real é: o que sobra quando escrever código deixa de ser seu diferencial?
Na edição de hoje da Newsletter do Moa, eu tento responder essa pergunta.
Propósito
Na semana passada, eu assisti a um vídeo do Lucas Montano (do canal Lucas Montano rs) em que ele reage a um outro vídeo, de um programador chamado Mo Bitar. O título do vídeo do Mo é “Eu era um engenheiro 10x. Agora eu sou um inútil”. Título forte, né?
No vídeo, o Mo faz uma espécie de confissão: a IA destruiu sua capacidade de programar. Não no sentido de parar de entregar, mas, literalmente, no sentido de escrever código. Ele comenta que colocou em produção um produto que foi escrito totalmente por IA e, depois do processo, não sentiu nada. Nenhuma conexão com o produto. Nenhum orgulho.
O Lucas assiste ao vídeo e faz vários comentários, alguns concordando, outros discordando. Ele menciona que também está vibecodando um produto, o Perssua, mas que, diferentemente do Mo, ele sente conexão com o produto. Sente que o projeto é dele. Sente que ainda está aprendendo muito. Sente que ainda se importa.
Isso me lembrou a história de um conhecido. Ele está com alguns problemas de saúde sérios, que demandam uma mudança radical de estilo de vida. Só que ele não quer fazer essa mudança. Ele gosta do estilo de vida dele. Ele não vê sentido em viver mais, mas sem poder ter seu estilo de vida atual. Não vê propósito.
O que essas duas histórias têm em comum?
Qual o papel do programador?
Ultimamente, ando falando muito de IA por aqui, né? Pois é difícil não falar, afinal, o mercado inteiro de tecnologia só fala disso. Com os avanços dos últimos meses, especialmente do Claude Code, está difícil não refletir: será que o programador vai acabar?
Bom, vamos analisar o caso do Mo. O produto que ele vibecodou funciona? Aparentemente, sim. Gera valor? Não sei, mas suponho que sim. E o produto do Lucas, funciona? Sim. Gera valor? Sim. Ótimo!
No vídeo, o Lucas cita como exemplo o OpenClaw. Também foi um produto vibecodado e, apesar de alguns problemas de segurança, foi um lançamento disruptivo, que meio que criou a categoria de agentes autônomos para “pessoas comuns”. O produto está aí, sendo usado a pleno vapor, gerando valor para seus usuários e com a popularidade altíssima. O produto ganhou tanta notoriedade que foi comprado pela OpenAI.
Quem são os responsáveis por esses produtos? A inteligência artificial ou os programadores? Obviamente, os programadores. Quem planejou a construção dos produtos, a arquitetura, foram seus programadores. A IA simplesmente implementou o que o programador pensou e instruiu.
Talvez o termo “programador” passe por uma transformação. De fato, quem programa a máquina para executar determinada tarefa não é mais o programador, mas, sim, a inteligência artificial. Nesse novo paradigma, o programador instrui a inteligência artificial e esta, sim, programa a máquina. Mas, se pararmos para olhar, tecnicamente, quem executa o trabalho nunca foi o programador, mas, sim, a máquina. O programador só subiu uma camada de abstração.
Onde está o valor?
Qual era o trabalho do programador, antes das LLMs? Receber uma especificação funcional de uma pessoa de produto, e então transformar essa especificação em software, certo? No máximo, se o programador fosse mais experiente e/ou a especificação fosse mais complexa, haveria uma discussão de “especificação técnica”, antes do desenvolvimento, para definir a estratégia técnica que seria utilizada para fazer a implementação.
Se o papel do programador é simplesmente implementar uma especificação técnica, realmente a IA já tem capacidade de substituir esse programador. Hoje, talvez, somente em especificações mais simples, mas acredito ser questão de tempo até que a IA consiga resolver especificações mais complexas com autonomia.
Mas, convenhamos? Esse tipo de profissional, limitado apenas à habilidade técnica, nunca teve muito valor, mesmo. Durante muito tempo, esse tipo de profissional foi necessário, pois, mesmo com pouco valor agregado, esse “serviço braçal” de escrever código era necessário. Mas, quem tem alguma noção de como a economia funciona sabia que era questão de tempo até que o capitalismo “resolvesse essa ineficiência”.
Por quê? Porque o valor, de fato, nunca esteve na construção da solução. O real valor está na capacidade de resolver um problema, independentemente da ferramenta usada para isso. Como eu já disse nessa newsletter umas trocentas vezes: software é meio, e não fim. Software é uma das possíveis ferramentas usadas para resolver um problema. Quem tem um problema não se importa muito com o meio pelo qual esse problema será resolvido. Ele quer que o problema seja resolvido e acabou.
Conclusão
Não conheço o Mo, além do vídeo que ele gravou expondo sua crise existencial. Também acho válido dizer que o questionamento dele é supergenuíno. Qualquer pessoa que trabalhe com desenvolvimento de software está, pelo menos, com uma pulguinha atrás da orelha sobre o destino da profissão. Quem não está ainda não entendeu o poder da IA.
Dito isso, me parece que a crise existencial do Mo vem da incapacidade de entender que o programador não é o software que produz. A identidade de uma pessoa que programa vai muito além de “escrevedor de código". Digo mais: vai muito além de “criador de software".
A identidade de um indivíduo é a soma de todas as suas particularidades. Ser um programador é apenas uma delas. Escrever código é apenas uma das ferramentas que um indivíduo usa para expressar sua criatividade para resolver problemas. Para gerar valor.
Enquanto o foco estiver no meio, na ferramenta, esse tipo de questionamento continuará existindo. O foco não pode estar no “o que”, nem no “como”. Ele deve estar no “porquê”. Meu palpite é que o Mo não está conectado com o porquê do seu trabalho. Por que ele desenvolve o software que desenvolve? Qual problema ele quer resolver? Quem ele quer ajudar?
Meu amigo Henrique Bastos, certa vez, me disse que “o mercado de problemas sempre estará cheio de oportunidades”. Os problemas complexos seguirão existindo, porque a inteligência artificial não terá capacidade de resolvê-los.
E quais são esses problemas complexos? São aqueles problemas que não são 100% técnicos, mas que existem na intersecção entre o técnico e o humano. Para ser capaz de resolver esse tipo de problema, é preciso ir além da programação, além da tecnologia. É preciso entender como os negócios funcionam. É preciso entender como o mundo funciona. É preciso entender como o ser humano funciona. Para atuar nesse mercado, é preciso deixar de ser implementador e passar a ser resolvedor. É isso que é gerar valor.
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Ah! Sabe aquele meu conhecido do começo do texto? Meu palpite para a situação dele é que ele não consegue mudar de vida porque não tem filhos. Ele não tem um porquê mais forte que sua satisfação pessoal para mudar de vida.