Erros e acertos construindo um SaaS há 2 anos
Sou engenheiro de software há mais de 15 anos. Nesse período, participei de muitos incidentes, alguns simples, outros bastante críticos. Em praticamente todos eles, uma coisa me chamava a atenção: o problema raramente era apenas técnico. Faltava uma forma mais organizada de coordenar a resposta ao incidente, manter o time alinhado e comunicar clientes e stakeholders sem aumentar ainda mais o caos.
Foi dessa experiência que surgiu o StatusPage.one, projeto que mais tarde passou por um rebranding e se tornou o GetMonitor.io. Depois de dois anos desenvolvendo o produto, conversando com clientes e tentando encontrar o equilíbrio entre tecnologia e negócio, percebi que os maiores aprendizados vieram muito além do código.
Se eu estivesse começando hoje, estes seriam os três principais erros que eu evitaria e os três acertos que faria questão de repetir.
Erro 1: Demorar para testar com clientes reais
Nos primeiros meses, passei muito mais tempo desenvolvendo do que conversando com potenciais clientes. Eu queria lançar um produto bem acabado, com uma boa experiência e várias funcionalidades. O problema é que nenhuma dessas coisas substitui o feedback de quem realmente usaria o produto. Se eu tivesse colocado uma versão mais simples no ar antes, teria aprendido muito mais rápido e economizado meses de desenvolvimento.
Erro 2: Não definir um ICP desde o início
Outro erro foi tentar validar o produto com vários públicos ao mesmo tempo. Achei que isso aumentaria minhas chances de encontrar um mercado, mas aconteceu o contrário. Acabei atraindo muitos usuários que gostavam da ferramenta, mas que nunca se tornariam clientes. Isso gerou feedbacks conflitantes, dificultou o posicionamento do produto e atrasou a descoberta de quem realmente tinha o problema que eu queria resolver.
Erro 3: Demorar para cobrar
Por muito tempo, apostei em planos gratuitos, testes estendidos e cupons de 100% de desconto para incentivar a adoção. Na prática, isso atrasou uma das validações mais importantes: descobrir quem estava disposto a pagar pelo problema que eu resolvia. Usuários gratuitos ajudam a encontrar bugs e sugerir melhorias, mas clientes pagantes validam se o produto realmente entrega valor para o mercado. Se eu estivesse começando hoje, tentaria cobrar muito antes, mesmo que fosse um valor simbólico.
Acerto 1: Construir uma comunidade desde cedo
Uma das melhores decisões que tomei foi criar uma pequena comunidade no WhatsApp. Hoje ela tem cerca de 50 pessoas. Nem todas são clientes, mas todas compartilham o mesmo interesse por desenvolver e ESCALAR produtos. É nesse grupo que compartilho novas ideias e funcionalidades primeiro e recebo feedbacks extremamente rápidos e sinceros. Muitas vezes, uma discussão de poucos minutos evita semanas desenvolvendo algo na direção errada.
O mais interessante é que a comunidade acabou gerando valor além do GetMonitor. As pessoas trocam experiências, fazem networking, compartilham problemas e até ajudam outros membros em seus próprios projetos. Foi um investimento pequeno que trouxe um retorno muito maior do que eu imaginava.
Acerto 2: Pivotar é melhor do que começar tudo de novo
Vejo muitos fundadores que, ao encontrar dificuldades, abandonam o projeto e começam outro completamente diferente. Depois outro. E mais outro. Na minha experiência, existe muito valor em permanecer no mesmo mercado por bastante tempo. Você entende melhor os clientes, cria autoridade, desenvolve uma rede de contatos e acumula conhecimento que seria impossível replicar começando do zero.
O próprio GetMonitor nasceu de um reposicionamento do StatusPage.one. O problema continuava sendo o mesmo; o que mudou foi a forma de resolvê-lo e de apresentá-lo ao mercado. Hoje acredito muito mais em evoluir e pivotar um produto do que em perseguir constantemente a próxima ideia.
Acerto 3: Ter um propósito além do dinheiro
Talvez esse seja o aprendizado mais importante. Se a única motivação para criar um SaaS for ganhar dinheiro rápido, a chance de desistir é enorme. Construir um negócio leva tempo, e os resultados costumam demorar muito mais do que imaginamos.
É importante trabalhar em algo que você realmente goste de resolver, porque isso faz você continuar mesmo quando o crescimento não acontece na velocidade esperada.
E, mesmo que o projeto não se torne um grande negócio, ele ainda pode gerar retornos valiosos: novas conexões, oportunidades de carreira, aprendizado técnico, experiência em produto, marketing e vendas. No fim, quase nada do esforço é desperdiçado.