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O Fim do MVP e a Ascensão do MLP: Por que o "Bom o Suficiente" vai matar sua SaaS (e o que aprender com a Lovable)

O Manual Quebrou

Se você trabalha com tecnologia no Brasil... seja como fundador, Product Manager, Arquiteto de Soluções ou Engenheiro, provavelmente segue um manual que foi escrito há dez anos. Aquele velho dogma:

"Construa um MVP (Produto Mínimo Viável), jogue tráfego pago (Google/Meta Ads), otimize o SEO com artigos de blog e espere o gráfico subir para a direita".

Tenho uma má notícia: esse manual não existe mais. Ele não apenas está desatualizado; ele é perigoso.

Recentemente, mergulhei em uma análise profunda de Elena Verna, Head of Growth da Lovable (uma das ferramentas de IA mais impressionantes do momento), e a tese dela é um soco no estômago do mercado de SaaS tradicional: os canais de distribuição que conhecemos estão em colapso.

  • O Google está deixando de ser um buscador para ser um oráculo (graças ao AI Overviews e à migração para ChatGPT/Claude), o que está dizimando o tráfego orgânico.
  • As redes sociais punem links externos, matando a aquisição via "link na bio".
  • E, o mais assustador: a IA commoditizou o código.

Hoje, no Brasil, ainda vejo empresas celebrando o lançamento de MVPs "crus", focados apenas na funcionalidade. Mas em um mundo onde seu cliente pode criar o próprio software usando ferramentas "no-code" ou prompts de IA (o que Verna chama de Vibe Coding), ser apenas "viável" é uma sentença de morte.

A nova regra do jogo não é sobre ser viável. É sobre ser Amável. É hora de abandonar o MVP e abraçar o MLP (Minimum Lovable Product). Vamos explorar o que isso significa para o nosso mercado e como arquitetar empresas para essa nova realidade.


O Paradoxo da Distribuição na Era da IA

Para entender por que precisamos mudar, precisamos primeiro aceitar que a barreira de entrada técnica desmoronou.

Há cinco anos, construir um CRM de nicho ou uma ferramenta de automação exigia um time de engenharia sênior e meses de desenvolvimento. Isso era um "fosso" (moat). Hoje? Um Junior Developer armado com Cursor e Claude, ou até mesmo um Product Manager usando ferramentas como a própria Lovable, pode colocar uma versão funcional disso no ar em um fim de semana.

Isso cria um fenômeno perigoso: a saturação de funcionalidades simples.

Se o seu produto resolve um problema simples, ele não é mais um produto; ele é uma feature que a IA fará de graça. Elena Verna aponta que estamos entrando na era da "Substituição de SaaS". Os usuários não vão cancelar seu software para contratar o concorrente; eles vão cancelar para construir uma solução interna, personalizada e barata, usando IA.

O Cenário Brasileiro

No Brasil, esse cenário é ainda mais crítico. Somos um mercado extremamente sensível a preço e, ao mesmo tempo, um dos maiores consumidores de IA e redes sociais do mundo. O consumidor B2B brasileiro não tem paciência para software feio, lento ou complexo.

Se a sua "distribuição" depende de gastar R$ 50,00 por clique no Google Ads para levar o usuário a uma landing page genérica e um produto "apenas funcional", sua margem será devorada antes mesmo de você conquistar o cliente.

A distribuição vence o produto, sempre. Mas quando os canais de distribuição (SEO, Ads) ficam caros ou ineficientes, o produto precisa se tornar o próprio canal de distribuição. É aqui que entra o conceito de MLP.


Os 4 Pilares da Nova Estratégia de Crescimento

Como, então, sobrevivemos e crescemos nesse ambiente hostil? Analisando a estratégia da Lovable e adaptando para nossa realidade, identifico quatro pilares que todo Tech Lead e Arquiteto de Soluções deve implementar agora.

1. Do MVP para o MLP (Minimum Lovable Product)

O conceito de MVP focava na validação: "Isso resolve o problema?".
O MLP foca na emoção: "Isso encanta o usuário?".

Na era da IA, a funcionalidade é commodity. O diferencial é a Experiência do Usuário (UX) e a Marca. Elena Verna argumenta que a "marca" não é mais o logo ou as cores institucionais; a marca é como o usuário se sente ao usar o produto.

  • O Erro Comum: Lançar algo "quebrado" ou feio só para validar.
  • A Abordagem MLP: A primeira interação do usuário (o First Time User Experience - FTUX) deve ser mágica. Se o usuário não tiver um momento "Uau" nos primeiros 5 minutos, ele não volta. E pior: ele não recomenda.
  • Aplicação Prática: Em vez de gastar verba de marketing empurrando um produto medíocre, invista em Engenharia de Frontend e Design System para que a experiência seja fluida. O produto precisa ser tão bom que o usuário se sinta compelido a falar sobre ele. O boca a boca (Word of Mouth) é o único canal de distribuição que a IA não consegue matar.

2. Velocidade como o Novo Fosso Defensivo (Velocity as a Moat)

Como Arquiteto de Soluções, este é o ponto que mais me toca. A arquitetura do seu sistema define a velocidade da sua empresa.

Se o seu concorrente (ou o próprio cliente usando IA) pode copiar sua feature em uma semana, sua única defesa é inovar mais rápido do que eles conseguem copiar. A Lovable opera em um ritmo insano de atualizações, e Verna sugere um modelo de três camadas que deveríamos adotar no Brasil:

  1. Shipping Diário: Pequenas correções, ajustes de UI, polimento. Isso mostra à comunidade que o produto está vivo.
  2. Shipping Semanal: Novas funcionalidades reais.
  3. Shipping Trimestral: Grandes lançamentos ("Drops") que geram barulho no mercado.

O Desafio Técnico: Para atingir essa velocidade, precisamos matar a burocracia do DevOps tradicional. Pipelines de CI/CD lentos, processos de aprovação manuais e medo de deploy na sexta-feira são inimigos do crescimento. A arquitetura deve ser desacoplada o suficiente para permitir que engenheiros (e até PMs técnicos) coloquem código em produção com segurança e autonomia. Se sua arquitetura te impede de fazer deploy 5 vezes ao dia, sua arquitetura é um risco de negócio.

3. Freemium como Verba de Marketing (O Fim do Sales-Led)

No Brasil, ainda existe uma cultura forte de "Fale com Vendas" ou formulários longos para testar um software. Isso cria atrito.

A visão da Lovable é clara: O custo de servidor de um usuário gratuito é o seu novo Custo de Aquisição de Cliente (CAC). É muito mais barato pagar a infraestrutura da AWS/Azure para um usuário testar seu produto e se apaixonar por ele, do que pagar o Google para exibir um banner.

Mas aqui está o "pulo do gato" estratégico: o Trial Reverso.

  • O Modelo Antigo: O usuário entra no plano Grátis (limitado) e tenta fazer upgrade.
  • O Modelo Reverso: O usuário entra e ganha acesso a TUDO (Plano Premium) por 14 dias. Sem cartão de crédito. Ele experimenta o poder total da ferramenta. Quando o prazo acaba, ele não é bloqueado; ele é "rebaixado" para o plano Grátis.

Por que funciona: Você usa a aversão à perda (loss aversion). O usuário já se acostumou com o "bom". Tirar isso dele é mais poderoso do que tentar vender algo que ele nunca provou. Para o mercado brasileiro, que adora um "test drive", isso é fundamental.

4. Founder-Led Growth (B2B agora é H2H)

As pessoas não confiam mais em logotipos corporativos. Elas confiam em pessoas. O algoritmo do LinkedIn e do Instagram prioriza rostos e histórias pessoais sobre posts institucionais de empresas.

A estratégia "aprender com os amáveis" envolve expor os construtores. O CEO, o CTO, os Tech Leads devem ir a público. Não para vender, mas para construir em público (Build in Public).

Mostrar os bastidores, os erros, as novas features saindo do forno. Isso cria uma conexão emocional. Quando a Lovable lança uma feature, não é a "Empresa X" falando; é o fundador mostrando um vídeo da tela dele, entusiasmado.

No Brasil, somos culturalmente sociais. Gostamos de interagir. Líderes técnicos que se escondem atrás da marca corporativa estão perdendo a maior alavanca de crescimento gratuito disponível hoje.


Conclusão: O Que Fazer Amanhã?

A análise de Elena Verna não é um convite ao desespero, mas à ação. O mercado de tecnologia está sendo "resetado". As grandes empresas estabelecidas estão lentas e presas a métricas de SEO e funis de vendas legados. Isso abre uma janela de oportunidade gigantesca para quem for ágil.

Se você quer aplicar o "jeito Lovable" na sua empresa ou projeto a partir de amanhã, aqui está o checklist:

  • Audite sua Arquitetura para Velocidade: Seu time consegue fazer deploy em 15 minutos? Se não, pare de criar features e conserte o pipeline. Velocidade é a prioridade zero.
  • Reavalie seu "Mínimo": Olhe para o seu produto atual. Ele é apenas viável ou ele é amável? Se a experiência não for fluida e prazerosa, pare de gastar com Ads e invista em UX/UI.
  • Abra as Portas (Dados): Pare de esconder seu produto atrás de formulários de "Agende uma Demo". Libere o acesso. Use o produto para vender o produto.
  • Apareça: Como líder técnico ou fundador, comece a compartilhar o processo, não apenas o resultado. A transparência gera confiança, e confiança gera vendas.

O futuro do SaaS não pertence a quem tem o maior orçamento de marketing, nem a quem tem o código mais complexo. Pertence a quem consegue criar uma relação de amor com o usuário, entregando valor em uma velocidade que a concorrência (e a própria IA) não consegue acompanhar.

Não seja apenas viável. Seja amável. Seja rápido.

Gostou dessa análise? Como você vê a mudança do MVP para o MLP no cenário brasileiro? Vamos discutir nos comentários.

#SaaS #GrowthHacking #AI #TechLeadership #ProductManagement #Innovation #Lovable #Strategy #Architecture

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Seu texto é bacana, a ideia é interessante mas veja: existe uma diferença enorme entre vender para pessoa física (onde a narrativa pode ser mais leve, até “romântica”) e vender para pessoa jurídica, especialmente quando falamos de SaaS. Empresas não compram hype — elas compram confiabilidade, respaldo jurídico, suporte técnico e previsibilidade.

Pontos que você destacou (e que fazem sentido no mercado B2B)

  • Confiabilidade > novidade: um produto que muda toda semana gera insegurança. Empresas querem estabilidade, não surpresas.
  • Respaldo jurídico e técnico: contratos, LGPD, compliance, SLA de atendimento. Sem isso, dificilmente uma empresa arrisca.
  • Escalabilidade e suporte: não basta ser “feito em um fim de semana”. É preciso mostrar que há estrutura para crescer junto com o cliente.
  • Renda perene: para ter receita recorrente, você precisa de clientes corporativos que enxerguem valor de longo prazo, não apenas curiosidade inicial.

O que isso significa para quem cria SaaS ?

  • História de produto: em vez de vender a ideia de “criei rápido”, é melhor vender a narrativa de robustez e evolução planejada.
  • Governança: mostrar que há processos de versionamento, roadmap claro e ciclos de atualização previsíveis.
  • Relacionamento com cliente: empresas preferem menos mudanças, mas bem documentadas e comunicadas. Isso transmite maturidade.
    No fundo, você está dizendo que “hype” pode até atrair atenção, mas não sustenta negócios sérios. E eu concordo: se o objetivo é renda recorrente e clientes corporativos, o discurso precisa sair do “feito em um fim de semana” e ir para “construído com base sólida, pronto para crescer junto com você”.
1

Meus 2 cents,

A narrativa do "fiz um SaaS no final de semana enquanto tomava um caldo de cana e comia dois pastel" esta forte demais, e tem gente um tanto inocente que acredita nisso.

Saude e Sucesso

2

Meus 2 cents

Hummmm, vejamos:

...mergulhei em uma análise profunda de Elena Verna, Head of Growth da Lovable...

Quando o dono do produto faz uma analise onde voce deve usar mais ainda o produto dele, acho que vale pelo menos tomar cuidado com as conclusoes apresentadas.

Estou usando as ferramentas "top" atuais (do lovable ao claude code, passando por uma miriade de opcoes) e digo o seguinte: o codigo "inicial" deles eh muito, mas muito ruim.

Criar um APP do zero eh possivel, mas cheio de problemas (de seguranca, redundancia, recursos).

Ja para a manutencao de codigo pronto, o Claude Code (ou o OpenCode, copilot, kilo code) tem ajudado muito.

Agora, sobre a analise em si: ela esta certa em um ponto - o trafego "organico" esta morto (e o que aconteceu com o tailwindcss eh prova viva (ou morta) disso).

Mas tenho algumas duvidas sobre o caminho apontado: ja participei de lancamentos de app que eram puro UX, puro marketing, puro "vaporware" - e se o app nao funciona nao tem UX bonita que faca ele sobreviver.

Qual caminho entao ? Nao sei ainda - tambem estou tentando entender como o mercado esta se comportando.

Mas nao parece que linkedisneylizacao/gumertizacao de SaaS seja o vai dar resultado de fato.

Saude e Sucesso !

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Meus 2 cents.

Isso é tudo muito bonito "aqui" no papel, mas no primeiro dia de guerra isso tudo se desmancha igual um castelinho feito por 5 horas na areia.

É quase impossível achar cliente que com o passar do tempo não queira personalizar o produto pra resolver seu problema; e a historia mostra que qualquer iniciativa orientada a biblioteca/tecnologia/framework especifico já nasce morta.

O texto é um ótimo papo pra se debater tomando uma cerveja e viajando nas possibilidades, mas no mundo real, isso se quebra muito fácil e não se paga nem no curto prazo.

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É dificil encarar a mudança! E é mais dificil ainda entender onde a mudança se encaixa em tudo que aprendemos!

Eu gostei do seu texto, tem muitos pontos bons... mas eu fiquei com a impressão que você comparou banana com mandioca.

Seu conceito de MLP é um MVP, você só colocou alguns pontos que melhoram o MVP.

Porém quando vc citou SaaS no seu texto e recheou ele de UX/UI, você deu um nó na cabeça dos mais antigos como eu, 35 anos de programação, onde aprendi que SaaS é backend e não tem nada de bonito e nem visivel nele para o cliente final.

Todavia, legal a sua abordagem, porém fique atento ao que os grandes estão fazendo e não ao que os novos estão fazendo. Principalmente quando o mercado financeiro aponta record de prejuijo em todas as empresas de IA.

O dono da empresa se apaixona por dinheiro no bolso dele e quanto mais simples dele ganhar melhor! Não é pela tela bonitinha.

A não ser que o dono da empresa for DEV ou o sobrinho dele controle isso na empresa e for DEV.

Abraços e sucesso!