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Manifesto Mídia Cooperativa (Anti-BigTech)

0. BASTA. NÃO MAIS.

E se, em vez de trabalharmos de graça para a Big Tech — fornecendo a ela, todos os dias, nosso conteúdo original, nossa criatividade, nossa atenção e nossas vidas — nós, coletivamente, disséssemos:

BASTA! NÃO MAIS!

Este manifesto é sobre por que isso é necessário, por que isso é possível agora, e o que cada um de nós pode fazer de agora em diante.


1. O emprego que você tem e não sabia

Todo dia você acorda e vai trabalhar. De graça. Para as maiores empresas da história do mundo.

Você escreve, filma, fotografa, comenta, cura, modera, compartilha. Você produz o conteúdo que mantém bilhões de pessoas olhando para uma tela. Em troca, recebe likes, uma fração de centavo por visualização e a promessa vazia de "alcance".

Eles chamam isso de plataforma. O nome correto é fazenda. E o gado somos nós.

Olhe os números — os nossos números:

  • Alphabet (Google/YouTube) faturou US$ 403 bilhões em 2025.
  • Meta (Facebook/Instagram/WhatsApp) faturou US$ 201 bilhões em 2025 — cerca de 98% disso vendendo anúncios exibidos ao lado do nosso conteúdo.
  • No Reddit, os moderadores — usuários como você — fazem trabalho não pago estimado em milhões de dólares por ano, sustentando uma empresa que abriu capital em bolsa.

Nós somos os trabalhadores, o produto e a plateia. Eles ficam com o caixa.

Se a plataforma é gratuita, é porque você não é o cliente. Você é a matéria-prima.


2. Castelos com senhores feudais

Gigantes da era industrial, vocês construíram impérios com aço e petróleo. Os novos gigantes construíram castelos com as nossas palavras.

As plataformas são castelos centralizados de informação. Dentro de cada muralha, um rei:

  • Um único homem detém mais de 60% do poder de voto da Meta.
  • Dois fundadores controlam a maioria dos votos da Alphabet.

Eles decidem o que você vê. Decidem o que você pode dizer. Decidem quem pode existir.

Um algoritmo que ninguém vê molda o que bilhões de pessoas pensam. Uma suspensão — e sua voz, seu público, anos de trabalho são apagados. Sem juiz. Sem defesa. Sem lembrança.

Censura não precisa de ditadura quando existem termos de serviço.

E nós aceitamos. Porque é prático. Porque é cômodo. Porque "todo mundo está lá".

Somos servos e nem percebemos: estamos distraídos, anestesiados pela falsa sensação de conveniência. A coleira é feita de notificações.


3. O golpe final: nossa expressão vendida de volta para nós

Agora veio a segunda extração — mais profunda que a primeira.

Tudo o que escrevemos, desenhamos, filmamos e ensinamos — décadas de expressão humana — virou ração para treinar inteligências artificiais:

  • O Reddit licencia nossas conversas para o Google treinar IA — um contrato reportado em dezenas de milhões de dólares por ano.
  • O Stack Overflow vendeu as respostas escritas gratuitamente por programadores do mundo inteiro.
  • O New York Times foi à Justiça para tentar impedir que sua história vire combustível de máquina alheia.

Detalhe cruel: o Reddit foi cofundado por Aaron Swartz, que morreu lutando pela liberdade da informação. Hoje a empresa vende a informação de todos nós.

Nós fornecemos — de graça — o material que produz a ferramenta que promete nos substituir. E depois pagamos a assinatura dela.

Trabalhamos para cavar a própria substituição. E ainda pagamos a mensalidade.


4. A prisão não tem grades

Por que continuamos?

Porque a jaula é confortável. O feed é quente. O like é rápido. A porta de saída parece fria e escura.

Shoshana Zuboff, que deu nome ao capitalismo de vigilância, formula a pergunta decisiva desta era:

"Seremos os mestres da informação — ou seus escravos?"

A resposta não vem de lei, de governo ou de CEO bonzinho. Ninguém vai nos libertar por aplicativo. Nenhuma atualização de termos de uso vai nos devolver o que é nosso.

A resposta vem de nós. E ela já começou.


5. A saída já foi construída

Eis a boa notícia que não viraliza: não precisamos de permissão. A tecnologia da libertação já existe, é aberta e é nossa:

BLOGUE.
Seu domínio é sua terra. Ninguém te desmonetiza, te suspende ou troca o algoritmo da sua própria casa. O movimento IndieWeb resume: publique primeiro no seu site, distribua onde quiser (POSSE). Seu link, seu arquivo, suas regras — para sempre.

RSS.
O protocolo que o Google tentou enterrar em 2013, quando matou o Google Reader — um dos momentos decisivos na transformação de uma web livre e distribuída numa web de poucos donos. Mataram o produto; não o protocolo. O RSS continua aqui: o único "feed" sem algoritmo, sem anúncio, sem rastreador. Você escolhe quem assina. A ordem é cronológica. Ponto final.

NOSTR.
Protocolo aberto e resistente à censura, criado por um desenvolvedor brasileiro (fiatjaf). Sua identidade é uma chave criptográfica — nenhuma empresa pode apagá-la. Já são milhões de usuários, com apoio de Edward Snowden e Jack Dorsey. Quando a China removeu o app Damus da App Store dois dias após o lançamento, a rede nem piscou: protocolo não mora em loja de aplicativo.

DINHEIRO SEM DONO.

  • Bitcoin + Lightning Network: valor direto, de pessoa para pessoa, sem atravessador. Micropagamentos instantâneos — os zaps do Nostr — permitem pagar um criador pelo que ele faz, sem banco, sem cartão, sem plataforma no meio.
  • Nano: transferências sem taxa.

Pela primeira vez na história, um criador pode ser pago diretamente pelo seu público, em qualquer lugar do planeta, sem pedir licença a ninguém.

As ferramentas da liberdade não serão inventadas. Já foram. Falta usá-las.


6. O que falta

Ferramentas não faltam. Falta:

  • VONTADE — de publicar primeiro na nossa casa, não na deles.
  • CORAGEM — de começar pequeno, construir devagar, viver sem o aplauso do algoritmo.
  • DESAPEGO — dos números de vaidade. Dez leitores fiéis via RSS valem mais que dez mil visualizações alugadas.

O inimigo final não fica no Vale do Silício. É o hábito.


7. A Mídia Cooperativa

Aqui está a proposta:

Sozinhos, somos conteúdo. Juntos, somos mídia.

Não precisamos derrubar os castelos. Precisamos parar de pagar o tributo.

Cada texto publicado no seu próprio site, cada feed assinado, cada zap enviado a um criador independente é um tijolo a menos na muralha deles — e um tijolo a mais na nossa casa comum.

Imagine uma rede de milhões de sites, blogs, feeds e chaves públicas, interligados por protocolos abertos, sustentados por micropagamentos diretos entre leitores e criadores. Sem dono. Sem algoritmo. Sem portão.

Isso não é utopia: é a arquitetura que já funciona hoje. Só falta gente. Falta você.

O lema é antigo e continua verdadeiro:

Não odeie a mídia. SEJA a mídia.


8. Comece agora — o desafio dos 7 dias

  1. Dia 1 — Abra um blog com domínio próprio (WordPress, Ghost, Bear, WriteFreely: tanto faz, desde que seja seu).
  2. Dia 2 — Publique seu primeiro texto. Primeiro lá; depois espalhe onde quiser.
  3. Dia 3 — Instale um leitor de RSS e assine 5 blogs/sites de pessoas que você admira.
  4. Dia 4 — Crie sua chave no Nostr. Apresente-se. Publique o link do seu blog.
  5. Dia 5 — Coloque um endereço Lightning no seu site. Aceite zaps.
  6. Dia 6 — Escreva sobre por que você saiu do rebanho. Use #MídiaCooperativa.
  7. Dia 7 — Ensine uma pessoa a fazer o mesmo. Uma só.

Uma hora por dia, durante uma semana. É o preço da sua independência.


Fecho

Eles ganharam bilhões com a nossa distração.
Nós ganharemos a liberdade com a nossa atenção.

O feed é deles.
A web é nossa.

BASTA! NÃO MAIS!!

Não vamos pedir a mídia de volta.
Vamos refazê-la — cooperativamente, protocolo por protocolo, site por site, pessoa por pessoa.

A mídia somos nós. Sempre fomos. Só tínhamos esquecido.


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Sou apaixonado por RSS, inclusive consumo o conteúdo do TabNews usando o Feedly.

No entanto, você usa um exemplo bem ruim que é o NOSTR. Tecnologicamente funciona bem, mas o que mais tem se proliferado nessa rede, com zero pessoas surpreendidas, são discursos de ódio de todo tipo travestidos de opinião e expressão.

Além disso, ter um blog não evita em nada de você continuar trabalhando de graça para as "grandes corporações de feed", pois o conteúdo vai ser consumido pelas IAs dessas empresas também. Você pode até fugir do algoritmo com uma estrutura própria, mas ao mesmo tempo cria sua própria bolha fechada e nem sempre isso é positivo.

Entendo que você está com um certo "espírito anarquista/anarcocapitalista", mas praticamente toda iniciativa desse tipo não durou muito pela própria natureza desse pensamento.

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Primeiramente, obrigado pela resposta.

Crimes na internet já estão bem definidos e sabidamente já são contemplados pela legislação. Entretanto, "Discurso de ódio" é um termo que pode ser muito genérico e abstrato. O que eu considero discurso de ódio pode ser diferente do que vc ou outra pessoa também consideram.

Só dando um exemplo (sem intenção de polemizar nem nada) disso foi uma discussão que tive recentemente com um colega meu sobre comunismo. Eu sou descendente direto de eslavos que fugiram dos horrores de Stalin. Sem exageros, para mim comunismo é tão ofensivo quanto nazismo é para um descendente de judeus eu imagino, mas por algum motivo, que eu sinceramente não consigo entender até hoje, defender e propagandear a ideologia comunista não é considerado um "discurso de ódio", muito menos crime. Apesar disto, não sou a favor do estado censurar esse tipo de discurso. As pessoas devem ser livres para expressar ou seguir uma ideologia nefasta como o comunismo. O que eu faço, particularmente, é ignorar, não seguir, não dar atenção, bloquear, etc.

Porém compreendo teu ponto e tua crítica. O que se pode fazer hj é uma auto-regulação, onde, no caso os relays do Nostr, podem implementar algum tipo de mecanismo de filtro (alguns ja fazem bloqueando NSFW por exemplo). Além é claro do filtro de cada usuário, seguir relays que é sabido possuírem filtro X, Y ou Z. Nada se impede porém que se use um escrutínio ainda maior, ou sugira melhorias no protocolo. Eu particularmente não vou deixar de usar uma tecnologia só pq tem meia dúzia de idiotas que também utilizam. Num passado remoto, seria como deixar de usar o telefone pq existem pessoas que fazem trotes.

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Apenas aproveitando a oportunidade

Também sem intenção de polemizar, mas os horrores que Stalin promoveu são típicos de regimes totalitários como ditaduras seja ela comunista, nazista, militar, emirado, religioso etc. São pessoas maléficas que chegam ao poder usufruindo de uma ideologia, você diria que o militarismo é ofensivo considerando as ditaduras militares recentes no Brasil, Chile ou Argentina (censura, tortura, desaparecimentos, assassinatos, fechamento do congresso, eleições que quando existiam eram indiretas)?

No entanto, o nazismo tem em sua fundação e conceito o extermínio de pessoas, comparar qualquer modelo econômico ou social recente com nazismo sem levar essa fundamentação antes é cair em narrativa.

Narrativas como o capitalismo é bom e comunismo é ruim, porque no comunismo as pessoas são pobres e são assassinadas, como se isso não ocorresse no capitalismo todos os dias e a escravidão moderna não fosse fruto do exercício do capitalismo.

Mas enfim, embora os conceitos gerais de discursos de ódio não sejam preto no branco, acredito que todos vão concordar que esse conceito poderia ser resumido em insinuar que grupos de pessoas deveriam sofres ou deixar de viver apenas pelo que elas são, de onde elas vem, o que elas gostam ou o que elas praticam. Todos os dias vemos misoginia, xenofobia, racismo, capacitismo, intolerância religiosa, homofobia... acho que você vai concordar que qualquer conversa que utilize essas bases legitimar seus discursos são necessariamente discursos de ódio, certo?

Sobre o anonimato completo

Você deve ter percebido que as pessoas são mais honestas quando estão sendo filmadas, é engraçado como é a natureza do ser humano se esconder para fazer o que ele sabe que é errado.

Ninguém comete crimes à vista de todos sem ter certa segurança que sairá ileso disso, e quem não tem essa segurança recorre ao anonimato. E é por conta disso que redes como NOSTR, chans e tantos outros são os redutos principais de quem quer destilar ódio sem medo de ser pego.

Seu exemplo do trote não é muito bom, pois a origem é facilmente rastreável se houver interesse da vítima e das autoridades de investigação. Já essas redes como NOSTR, basicamente prometem dificuldade máxima contra vigilância.

Não estou dizendo que você deva deixar de usar o NOSTR, mas não pode negar que a própria natureza da rede favorece o anonimato, e um local cheios de anônimos não dá para dizer que existe mais gente virtuosa do que gente discursando ódio.

Auto-regulação

A auto-regulação só funciona se todos os envolvidos concordarem com ela e existir punição considerável para quem infligir as regras. Achar que isso poderia dar certo em uma rede de anônimos é ter muita fé na humanidade, ser inocente ou ser hipócrita.

Dizer que um relay ou outro aplica restrições, não impede que o restante da rede simplesmente não ligue para isso. Não é diferente da internet em geral, não podemos afirmar é que as regras do relay são mecanismos suficientes.


Uma pessoa ou pequeno grupo anônimo podem fazer coisas boas e serem bem intencionadas, quando você amplia essa condição para milhares de anônimos no mesmo espaço não tem como esperar que coisas bem ruins saiam de lá. Vira oportunidade de destilar ódio.