Eu vou escrever um monte de ideia solta que seu texto me fez pensar. Não sei se ajuda a discussão, talvez eu esteja só puxando fios demais, mas escrever sempre ajuda e parte disso já estava na gaveta há um tempo.
O problema não é a IA na busca. Isso é sintoma. O problema é que estamos assistindo ao fim da verdade . Antes da IA, a internet já era ruim, claro, mas ainda havia uma coisa: fonte. Torta, falha, manipulada, imperfeita, questionável mas fonte.
Havia um autor. Alguém podia passar vergonha. Alguém podia apanhar na rua. Alguém podia responder pelo erro. A diferença entre IA como ferramenta e IA como substituta não está no quanto ela tocou no texto. Está em quem assina embaixo. Se eu uso IA para escrever melhor algo que eu sei ou vivi, ainda existe o meu testemunho.
A verdade pública, social, jurídica e científica sempre dependeu de testemunho de algém. As pessoas sempre mentiram. A internet e AI só ajuduram a fazer isso em escala muito maior.
O problema mesmo, que eu chamo de fim da história, começa quando ninguém assina.
E digo história no sentido mais literal possível, a disciplina que a gente estudava no colégio. Porque história é apenas uma cadeia de testemunhos.
Alguém escreveu que viu.
Ou escreveu que ouviu de alguém que viu.
Ou copiou o relato de alguém que dizia conhecer alguém que esteve lá.
Depois outro alguém preservou o manuscrito.
Outro traduziu.
Outro comparou versões.
E todos esses “outros” ainda eram alguém. Tinham nome. Tinham reputação. Tinham contexto. Tinham inimigos. Tinham interesses. Tinham limites. Podiam estar errados, claro. Muitas vezes estavam. Podiam mentir. Podiam exagerar. Podiam copiar mal. Podiam entender errado.
Mas assinavam. Quando ninguém assina, acabou a história no sentido literal. Não porque os fatos desapareceram. Mas porque o texto sem autor é apenas uma simulação da realidade. Isso vai nos leva diretamente para o famigerado teste de turing.
O que está escrito lá não é o que as pessoas acham. Está escrito é que existe um jogo entre um homem e uma mulher. O interrogador, separado dos dois por uma parede, faz perguntas e recebe respostas escritas e tem que descobrir qual é qual. O homem mente, tenta passar por mulher. A mulher diz a verdade. Aí Turing faz a pergunta e se trocarmos o homem por uma máquina. Pronto, é isso.
Agora repara que essa formulação de 1950 pressupõe: o homem é homem, a mulher é mulher e ninguém na sala questiona isso. Hoje em alguns lugares do mundo, você faz questiona e apanha ou é processado ou é cancelado.
E não estou aqui tomando partido em nenhuma direção, o que eu estou registrando que o teste só funciona porque existe uma verdade fora da sala. A mulher é mesmo mulher. A brincadeira era ver se a simulação enganava o interrogador a respeito do fato que continuava existindo lá fora. Sem o fato não tem jogo.
As máquinas não passaram no Teste de Turing porque ficaram mais inteligentes. Passaram porque o interrogador ficou mais burro. Ou foi embora. Ou desistiu.
E o AI Mode do Google e o fim da história que eu descrevi lá em cima, é só o grande acelerador disso tudo. Não é a causa. A IA não criou a pós-verdade. Os modelos são produto dela.
E aqui tem um refinamento importante, porque a forma fácil de dizer isso é "a IA endossa o imbecil". Não. É pior. Muito pior.
A IA não endossa o imbecil. A IA dissolve a categoria de imbecil.
Endosso ainda pressupõe que existe "imbecil" como categoria distinguível de "não-imbecil". Mas o que está acontecendo é que imbecil e não-imbecil entram no corpus de treinamento com o mesmo status, são tratados como dados equivalentes e o que sai é a média dos dois. Não tem mais imbecil. Não tem mais sábio.
E o artigo do Turing, não para por aí, ele dedica um trecho não-trivial do artigo de 1950 ao que ele chama de extra-sensory perception. Telepatia. Em bom português. Ele leva a sério. Cita os estudos. Escreve que, se a telepatia for real, é uma objeção forte à possibilidade de máquinas pensantes. Está lá, no texto original, qualquer um pode conferir.
O mundo ficou com a máquina capaz de enganar humanos e enterrou nas notas-de-rodapé o fato de que o pai da computação achava plausível que existe um canal de informação entre mentes humanas que não passa pelos cinco sentidos e que esse canal, se existir, é precisamente aquilo que máquinas jamais terão.
A telepatia do Turing tem outros nomes. Os hindus chamam de ajna chakra, o terceiro olho. Os cristãos chamam de Espírito Santo e Jesus disse com todas as letras, Lucas 17:21: "o Reino de Deus está dentro de vós." Dentro.
O “olho que tudo vê” não é só símbolo maçônico, muito menos logotipo de teoria da conspiração. A ideia é muito mais antiga. Ela atravessa Egito, tradições hebraicas, hinduísmo, cristianismo, xamãnicas, indígenas.
Povos que nunca se encontraram, em épocas diferentes, falando línguas diferentes, usando símbolos diferentes, por métodos diferentes - jejum, vigília, isolamento, meditação, oração, dança ritual, canto repetitivo, plantas sagradas, contemplação, silêncio - acabam descrevendo variações assustadoramente parecidas da mesma experiência.
O tempo muda.
A separação entre sujeito e mundo parece dissolver.
Surge uma sensação de unidade.
A realidade física parece só uma camada superficial.
Há uma luz, uma presença, uma inteligência, um todo, um centro, um espírito, uma consciência maior, um Deus (cada tradição dá um nome).
E qualquer um pode verificar que existe mesmo. Não é fé cega. Não é "acredite porque eu mandei". Basta praticar qualquer uma dessas técnicas.
A máquina opera no mundo físico. Apenas no mundo físico. Nada além disso. E quanto mais dependentes ficamos dela, mais amarrados ficamos no mundo físico que é justamente, o avesso do ensinamento. O ensinamento todo de Jesus e de todo Buda é para a gente sair do mundo físico.
E é por isso que eu fico pensando, ultimamente, nas pessoas olhando pra tela à noite e me vem sempre a mesma imagem: mariposa na luz.
A mariposa não está olhando pra luz porque a luz é importante. Ela está olhando pra luz porque o sistema nervoso dela foi calibrado, ao longo de cem milhões de anos, pra usar a lua como referência de navegação e a luz artificial é um bug que sequestra esse circuito antigo. A mariposa fica girando em volta. Gira. Gira. Às vezes morre por exaustão. Às vezes queima na lâmpada. Nunca chegou a lugar nenhum, porque o lugar pra onde ela está sendo puxada não existe.
Somos nós. O ser humano foi feito pra ler estrelas, fogueira, rosto de gente próxima, mato mexendo no escuro, pra prestar atenção quieto numa coisa real até a coisa real se revelar. E a tela é uma lâmpada. E a gente está girando. girando. girando. girando.
Então meu diagnóstico final é: só Jesus salva.
Não Jesus o homem. Esse existiu, provavelmente, andou pela Galileia, foi crucificado e a gente até sabe que Jesus nem era o nome real dele. Jesus Cristo, no que importa, é a metáfora de encontrar Deus.
Jung chamou de integrar a sombra.
Os hindus chamam de moksha.
Os budistas de nirvana.
Os sufis de fana.
Os cabalistas de devekut.
Os xamãs amazônicos têm um nome em cada língua.\
Mesma coisa. E o que importa, o que importa de verdade, é que nada disso está atrás de uma tela. Nunca esteve. Nunca vai estar.