Seu currículo pode estar escondendo exatamente o que faz você ser sênior
Existe um padrão que aparece com frequência em currículos de desenvolvedores experientes:
Desenvolvimento e manutenção de APIs REST.
Desenvolvimento de microsserviços.
Integrações com Kafka.
Sustentação e correção de bugs.
Java, Spring Boot, PostgreSQL e AWS.
Nada disso está necessariamente errado.
O problema é que essas frases mostram principalmente o que a pessoa fazia.
Elas dizem muito pouco sobre:
- qual problema precisava ser resolvido;
- por que aquele problema era importante;
- quais decisões a pessoa tomou;
- qual responsabilidade ela assumiu;
- e o que mudou depois do trabalho dela.
E quanto mais experiente o desenvolvedor é, mais isso pode esconder justamente aquilo que deveria diferenciá-lo.
A stack não conta a história inteira
Compare estas duas descrições:
Desenvolvimento de APIs REST utilizando Java e Spring Boot.
Agora:
Reestruturei um fluxo crítico que apresentava gargalos em períodos de maior volume, eliminando um ponto de instabilidade da operação.
A segunda descrição ainda poderia citar Java, Spring Boot, banco, mensageria ou qualquer outra tecnologia usada.
Mas existe uma diferença importante:
a tecnologia deixou de ser a história e passou a ser parte da solução.
Isso parece simples, mas muda bastante a forma como uma experiência profissional é percebida.
Pense em uma entrega importante que você fez
Talvez você já tenha:
- resolvido um incidente difícil em produção;
- melhorado uma consulta que demorava demais;
- redesenhado um processamento;
- eliminado duplicidade em uma integração;
- estabilizado um serviço;
- automatizado algo que era manual;
- simplificado uma arquitetura;
- tomado uma decisão que evitou um problema futuro.
Agora abra seu currículo.
Essa história está lá?
Ou ela virou algo como:
Desenvolvimento e manutenção do sistema utilizando Java, Spring Boot, Kafka e PostgreSQL.
A experiência aconteceu.
Mas a evidência dela praticamente desapareceu.
Tecnologia não é evidência de impacto
Ter Kafka no currículo não mostra qual problema você resolveu usando Kafka.
Ter AWS não mostra se você apenas utilizou alguns serviços ou se tomou decisões relevantes sobre disponibilidade, custo, observabilidade ou operação.
Ter microsserviços não mostra se você implementava endpoints ou se precisou lidar com idempotência, consistência, retries, falhas parciais ou decisões arquiteturais.
A stack ajuda a contextualizar.
Mas não substitui a história da entrega.
Um teste simples
Pegue uma experiência do seu currículo e tente responder quatro perguntas:
1. Qual era o problema?
Não o ticket.
O problema real.
2. Por que isso importava?
Impactava cliente?
Operação?
Performance?
Receita?
Disponibilidade?
Time?
3. O que você fez ou decidiu?
Aqui começa a aparecer sua participação de verdade.
4. O que mudou depois?
Nem sempre haverá um número como "reduziu 43%".
E não faz sentido inventar métrica.
Impacto também pode ser:
- redução de incidentes;
- eliminação de trabalho manual;
- maior estabilidade;
- redução de risco;
- melhor previsibilidade;
- simplificação operacional;
- resolução de um problema recorrente.
Isso também aparece na entrevista
Existe outra consequência interessante.
O entrevistador pergunta:
"Me conte sobre um projeto importante em que você trabalhou."
O desenvolvedor passou anos resolvendo problemas complexos.
Mas responde:
"Eu trabalhava com Java, Spring Boot, microsserviços, Kafka, AWS..."
Novamente aparece a stack.
A senioridade continua escondida.
Talvez exista uma pergunta melhor do que:
"Meu currículo possui todas as tecnologias que eu conheço?"
Pergunte:
"Alguém que nunca trabalhou comigo consegue perceber a complexidade dos problemas que eu já resolvi?"
Para quem já é pleno ou sênior, essa diferença pode ser mais importante do que adicionar mais uma tecnologia à lista.