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Sobre o argumento econômico, você está certo que as plataformas vão realocar e não vão ter prejuízo de receita imediato. Mas acho que esse argumento subestima o que elas realmente perdem. Não é só publicidade infantil. É formação.

Quem molda o ambiente informacional de uma pessoa dos 8 aos 18 anos está construindo o adulto que vai existir dentro daquele território digital pelos próximos 50 anos, com hábitos, dependências e padrões comportamentais que a plataforma ajudou a formar.

Dados comportamentais de crianças não valem mais porque crianças comprem mais. Valem porque padrões formados na infância são mais estáveis, mais previsíveis e mais capturáveis no longo prazo. O prejuízo real não é financeiro trimestral. É perder a capacidade de formar vassalos desde o início. Isso é poder, não só receita.

Sobre a soberania digital hipócrita, concordo inteiramente. Um Estado que usa o discurso de soberania de dados enquanto cobra tributação que inviabiliza qualquer iniciativa local, produz regulação feita por não técnicos e mantém estruturas como a ANATEL que encarecem qualquer alternativad nacionais não está construindo soberania real.

Só que isso não invalida a necessidade de regular as BigTechs, mesmo que o Estado BR não esteja totalmente capacitado ou interessado em construir uma alternativa real. São duas coisas distintas que o debate trata como se fossem a mesma.

Sobre a incoerência parlamentar, e o caso do vereador de Praia Grande confirma isso de forma brutal: o sistema político que produz as leis é contaminado pelos mesmos problemas que essas leis tentam combater. Não ponho a mão no fogo por nenhum deles, e você esta certo nesse ponto, porém existir alguns politicos ruins não deve ser argumento pra tentar descredibilizar toda a classe. O escândalo visível pra nós enquanto população é, paradoxalmente, um sinal de que o sistema tem mecanismos de controle operando. Isso não torna o caso menos grave, mas mostra que o Estado esta funcionando além de governos eleitos.

E O que o caso não invalida é o problema que a lei tenta endereçar. O fato de que o autor de uma lei de proteção a crianças seja investigado por explorar crianças não significa que crianças não precisam de proteção. Significa que a contradição é ainda mais profunda do que parecia, e aponta para a necessidade de instituições mais robustas e menos dependentes de quem as ocupa em cada momento. Até por isso cito que é uma questão de Estado, nao de governo.

No fundo, o que toda a sua crítica confirma é o argumento central do meu texto: o problema não tem solução simples dentro das estruturas existentes. Nem confiar cegamente no Estado, nem ignorar o que as BigTechs fazem com esses dados. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. E é exatamente esse desconforto que o debate polarizado foi construído para evitar, saindo ganhando as BigTechs já que o monopolio da arena de debste é delas.

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