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A internet tá caindo no bait "Lei Felca bloqueou o Linux no Brasil". Você de TI já entendeu qual é o verdadeiro ponto?

Antes de falar sobre qualquer coisa envolvendo essa questão, vale entender o contexto. Vou resumir pra pautar a discussão numa zona comum pra todos.

Em 2025, O Felca fez um vídeo denunciando a exploração e adultização de crianças e adolescentes em plataformas digitais e viralizou muito, devido ao tamanho que seu canal já tinha na época. Isso acelerou a tramitação de um projeto que já estava no Congresso desde 2022, já que os deputados resolveram mostrar serviço rápido já que a pauta explodiu de popularidade.

O problema que o Felca expôs não era NADA abstrato: Ele provou que crianças estão sendo monetizadas por algoritmos que amplificavam conteúdos com comportamentos adultos. O algoritmo só se importa com engajamento, esse é o modelo de negócio das próprias plataformas e está funcionando exatamente como foi projetado. Não foi o governo que inventou isso. Não foi o Presidente do País, ou o Presidente da Câmara ou o STF que resolveu fazer algo do nada. Um problema gravíssimo foi exposto e isso levou o legislativo a agir.

Esse é literalmente o ponto central que a maioria do debate está ignorando. A lei proíbe o uso de técnicas de perfilamento para publicidade direcionada a menores, veda caixas de recompensa em jogos acessíveis a crianças e proíbe mecanismos que exploram fragilidades emocionais para prolongar tempo de uso.

Eu postei ontem um artigo aqui no Tab que fala sobre como os devs e pessoas de TI não deveriam cair tão fácil em debates rasos sobre esse tipo de questão. Quem leu meu artigo, talvez venha concordar que o objetivo da lei é: atacar diretamente o núcleo do capitalismo de vigilância aplicado ao público mais vulnerável. Coleta de dados de crianças, algoritmos de engajamento compulsivo, publicidade comportamental. Tudo isso é a base do modelo de negócio que a Shoshana Zuboff já documenta e discute há décadas.

É interesse das BigTechs que qualquer tentativa estatal de regular o que eles podem fazer com a população vire esse debate vazio de ideia que estamos vendo. Isso explica por que o pânico foi tão rápido e tão amplificado.

O argumento que vi circulando foi o seguinte: o Linux é open source, o usuário pode modificar ou desligar qualquer sistema de controle, portanto é tecnicamente impossível cumprir o que a lei exige, e isso geraria bloqueio total. É um argumento tecnicamente interessante sobre projetos open source sem estrutura jurídica. E realmente existe uma preocupação legítima ali para comunidades pequenas e tem que ser discutida mesmo com o parlamento. Mas o assunto virou "a Lei Felca bloqueou o Linux" em 48 horas de feed. De avisar sobre impactos não medidos que a lei poderia causar, praticamente virou "O Felca bloqueou o Linux no Brasil". Se ligaram que a discussão real saiu de cena?

Quem se beneficia desse enquadramento fora do foco real? Não é o Linux, não são as crianças, nem eu e você. Quem tá saindo ganhando é a Meta, o TikTok, o Google.

Porque enquanto a TI inteira passa o dia indignada com o governo por causa do Linux, ninguém está discutindo que a lei proíbe as loot boxes em jogos acessíveis a crianças e restringe o perfilamento algorítmico para publicidade, coisas que custam bilhões de dólares em receita para as plataformas. Além dessa do Linux, começou a propagar pro público geral que o GTA VI não vai ser lançado no Brasil por conta da Lei, que também é mentira. Tudo bem impulsionado pra não discutirem os impactos econômicos que a Lei vai causar nas bigtechs.

Isso é mais um exemplo, ao vivo, do enquadramento proposital criado pelas bigtechs que eu descrevi lá no artigo de ontem. A discussão foi deslocada do que a lei realmente regula para um pânico sobre censura, bloqueio de software livre e proibição de jogos. As plataformas das BigTechs não precisaram fazer nada. O algoritmo já fez o trabalho.

O problema real não é o governo querendo bloquear o Linux, isso não é uma realidade intencional. Não é "Vamos bloquear o linux de propósito". A lei tem problemas colaterais concretos que precisam ser resolvidos, especialmente para projetos open source comunitários sem estrutura jurídica para cumprir obrigações formais. Isso é óbvio, é uma crítica totalmente legítima que merece debate técnico sério.

Mas não podemos deixar passar o problema central que a lei tenta resolver: durante anos as BigTechs construíram sistemas de engajamento compulsivo que usam crianças como matéria-prima, coletam seus dados, constroem perfis comportamentais e vendem isso para quem quiser pagar. Quando um Estado tenta colocar qualquer amarra nisso, as plataformas tem tudo a perder, porque dados de crianças são tão lucrativos quanto dados de adultos, talvez mais lucrativos pela capacidade de molde que ainda existe em cérebros jovens.

Então o que acontece? No Brasil a culpa é do Lula, do Alexandre de Moraes, do STF. No Reino Unido, onde o governo Starmer anunciou medidas para impedir acesso de menores de 16 anos a redes sociais, o discurso impulsionado nas plataformas foi idêntico: regulação equivale a censura, inovação em risco. Na Austrália e na União Europeia o roteiro foi o mesmo, só muda os personagens. Em todos os casos as BigTechs acabaram se mexendo para cumprir as leis quando foram obrigadas. Lula, Alexandre de Moraes, STF, Câmara são os personagens do Brasil, nos outros países são os que ocupam o mesmo cargo e falam algo sobre soberania de dados, o roteiro é idêntico em todos os países. Qualquer país que tente regular dados e proteger sua população vira automaticamente um regime autoritário no enquadramento que as BigTechs financiam e amplificam. E infelizmente muita gente tá comprando essa ideia.

Reforçando o ponto de novo: O interesse das BT não é defender o Linux nem a liberdade de expressão, nunca foi. Elas só se interessam em garantir que a discussão nunca chegue no ponto real: quem tem soberania sobre os dados de bilhões de pessoas, inclusive das suas crianças, e o que pode ser feito com eles. Lembrem, o ponto da "Lei Felca" é que crianças estão sendo USADAS por algoritmos, independente se isso amplificava conteúdos com comportamentos adultos, comportamentos viciosos e etc. Debatam possíveis colaterais, mas não esqueçam do que REALMENTE está sendo feito pelas empresas.

Essa discussão rasa que estão vendo não é acidente. É o sistema delas funcionando exatamente como foi projetado.

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Belo texto. To usando meu linux aqui de boa. E acho que a lei ainda precisa de ajustes pra nao abrir margem pra tecnicidades.

Fora isso thiago ayub esta para o mundo da tecnologia, assim como bruno ayub esta para o mundo real.
Muita teoria da conspiração, alarmismo, e sindrome de perseguição

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Acho que faltou falar algo muito importante que não tenho visto sendo discutido amplamente:

Qual o impacto da nova lei para os pequenos desenvolvedores?

A grande questão é que se você tem pequeno app, não importa se é para um público menor de idade ou não, agora você tem que comprovar que esse público não está acessando seu app.

E como você vai comprovar a idade dos seus usuários se agora não vale mais um disclaimer ou pergunta? Vai pedir foto dos documentos pessoais dos seus usuários? Seu negócio gera renda suficiente para proteger e validar este dado de forma adequada?

Desculpem se falei alguma tolice aqui ou deixei algum detalhe passar despercebido.

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Se seu app não está relacionado com temas que seriam impróprios para menores, então pode ficar tranquilo.

Mas se estiver desenvolvendo um site de apostas, rede social de acesso público, algo com conteúdo violento ou sexual. Aí sim você vai precisar começar a se preocupar em adequação com a lei.

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Então, mas não é o que diz a lei.

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção de crianças e de adolescentes em ambientes digitais e aplica-se a todo produto ou serviço de tecnologia da informação direcionado a crianças e a adolescentes no País ou de acesso provável por eles, independentemente de sua localização, desenvolvimento, fabricação, oferta, comercialização e operação.

Nem é sobre sites extremos como mencionado.

Por exemplo, se uma criança se cadastrar no tabnews com o nome de verdade dela e se envolver em uma polêmica, então corre o site corre o risco de ser enquadrado por não ter averiguado a idade do usuário com documentos validados e estar expondo a identidade dela sem o consentimento dos pais?

Me parece um pesadelo jurídico isso, a lei é super vaga.

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Ótima análise.
Outra coisa que devemos lembrar é que a elite global não se importa com as crianças, como o próprio caso Epstein revelou. O que manda é o máximo acúmulo de capital, e é nisso que as BT sempre vão focar. Aquele papo de big-tech "boazinha", "diferentona", "inclusiva" e com aquela estética de ser "ética" acima de tudo já caiu por terra faz tempo, hoje em dia eles nem disfarçam.

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Sua argumentação começa boa depois descamba para adoração de agente público... Triste

Alguns pontos de inocência:

os impactos econômicos que a Lei vai causar nas bigtechs.

BigTech não vai ter prejuízo, só vão mudar o alvo e aumentar ainda mais a receita, a gente já tá bem grandinho pra não saber que apenas CPF perde no jogo econômico, vão focar em resolver o problema da adultização de crianças e vão deixar golpes online (também conhecido como Bet) correrem solto, criança e adolescente não tem dinheiro próprio, adultos tem, as redes sociais acabaram de especializar o público, o que vão deixar de ganhar em anos com a proibição de crianças e adolescentes, vão ganhar em meses com anúncios do felino asiático, em qualquer coisa que envolve comercialização de dopamina, o vendedor sempre ganha, seja traficante, seja big tech

nos outros países são os que ocupam o mesmo cargo e falam algo sobre soberania de dados

O problema é que quem fala em soberania digital, a mesma que através de regulações ineficientes baseadas em especulação científica (ANATEL por exemplo), taxas, impostos e legislação feita por não técnicos fazem um esforço enorme para que essa soberania digital nacional nunca chegue com qualquer iniciativa fazendo algumas centenas de reais, passar a custar dezenas de reais tornando contratar serviço externo mais barato que qualquer iniciativa local


Mas talvez o mais triste seja você pensar que o objetivo é proteger as crianças, muito raramente é, não sou do tipo quw vê conspiração em tudo mas não é raro políticos serem pegos na própria lei que foram autores, esse foi em Santos mas eu não ponho a mão no fogo pelo ECA Digital, até porque uma galera dos políticos que apoiam o ECA Digital sobre o pretexto de proteger crianças (e sendo honesto na maioria dos pontos a lei acerta mesmo, só temos que lembrar que vivemos sob regime de lei civil e não o de lei comum, então o texto não vale muita coisa) são deputados e senadores que votaram contra aumentar o tempo de prisão em regime fechado antes de ser possívelo semi abertoe as saidinhas para casos como violência infantil de 60% para 80% (isso é público e de fácil acesso) me fazendo coçar a parte da cabeça sobre "por que uma atitude tão incoerente?"

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Sobre o argumento econômico, você está certo que as plataformas vão realocar e não vão ter prejuízo de receita imediato. Mas acho que esse argumento subestima o que elas realmente perdem. Não é só publicidade infantil. É formação.

Quem molda o ambiente informacional de uma pessoa dos 8 aos 18 anos está construindo o adulto que vai existir dentro daquele território digital pelos próximos 50 anos, com hábitos, dependências e padrões comportamentais que a plataforma ajudou a formar.

Dados comportamentais de crianças não valem mais porque crianças comprem mais. Valem porque padrões formados na infância são mais estáveis, mais previsíveis e mais capturáveis no longo prazo. O prejuízo real não é financeiro trimestral. É perder a capacidade de formar vassalos desde o início. Isso é poder, não só receita.

Sobre a soberania digital hipócrita, concordo inteiramente. Um Estado que usa o discurso de soberania de dados enquanto cobra tributação que inviabiliza qualquer iniciativa local, produz regulação feita por não técnicos e mantém estruturas como a ANATEL que encarecem qualquer alternativad nacionais não está construindo soberania real.

Só que isso não invalida a necessidade de regular as BigTechs, mesmo que o Estado BR não esteja totalmente capacitado ou interessado em construir uma alternativa real. São duas coisas distintas que o debate trata como se fossem a mesma.

Sobre a incoerência parlamentar, e o caso do vereador de Praia Grande confirma isso de forma brutal: o sistema político que produz as leis é contaminado pelos mesmos problemas que essas leis tentam combater. Não ponho a mão no fogo por nenhum deles, e você esta certo nesse ponto, porém existir alguns politicos ruins não deve ser argumento pra tentar descredibilizar toda a classe. O escândalo visível pra nós enquanto população é, paradoxalmente, um sinal de que o sistema tem mecanismos de controle operando. Isso não torna o caso menos grave, mas mostra que o Estado esta funcionando além de governos eleitos.

E O que o caso não invalida é o problema que a lei tenta endereçar. O fato de que o autor de uma lei de proteção a crianças seja investigado por explorar crianças não significa que crianças não precisam de proteção. Significa que a contradição é ainda mais profunda do que parecia, e aponta para a necessidade de instituições mais robustas e menos dependentes de quem as ocupa em cada momento. Até por isso cito que é uma questão de Estado, nao de governo.

No fundo, o que toda a sua crítica confirma é o argumento central do meu texto: o problema não tem solução simples dentro das estruturas existentes. Nem confiar cegamente no Estado, nem ignorar o que as BigTechs fazem com esses dados. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo. E é exatamente esse desconforto que o debate polarizado foi construído para evitar, saindo ganhando as BigTechs já que o monopolio da arena de debste é delas.

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Pois é. O espantalho funcionando como sempre e a galera caindo na onda da desinformação ao passo que é coordenada sutilmente a preservar o status quo. Óbvio que por um lado há quem diga que essa lei abre caminhos para uma vida digital monitorada e que teme o fim do anonimato, por exemplo; mas também não podemos pôr vendas e nos cegar diante de uma situação problemática que eventualmente teria de ser resolvida através de regulamentação. A nuance vai embora e ao fim do dia temos pessoas pra todo lado falando como isso ou aquilo é o "fim de x".

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mais uma lei burra criada pq o estado quer decidir o que meu/minha filho/filha pode ou nao ver ou fazer...

crianca nao tem cartao de credito, quem tu acha que coloca o bendito cartao la no telefone e da pro ranhento usar? pois eh neh...
quem tu acha que cria a conta com o numero de telefone na rede social ?
todo dispositivo tem um modo restritivo de uso para criancas, o dispositivo ja existe, agora criaram uma lei burra q um juiz pode interpretar qq coisa com a bunda.

parabens pra quem ta passando pano pra isso, vcs se provam incompetentes a exercer a paternidade, pfvr, nao se reproduzam;

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