Vibecoding: A Ilusão da Competência Instantânea (E a Ressaca da Dívida Técnica)
Se você passou os últimos meses no LinkedIn, provavelmente já foi bombardeado pelo termo da moda: Vibecoding. A ideia sedutora de que você só precisa "sentir a vibe", descrever o que quer em inglês e deixar a IA cuspir o código para você. Andrej Karpathy disse que o inglês é a nova linguagem de programação, e de repente todo gerente de produto acha que virou engenheiro de software sênior.
A realidade, porém, é bem menos glamorosa e muito mais perigosa.
O problema do Vibecoding não é que ele não funciona. O problema é que ele funciona rápido demais no começo. Você pede um site, a IA gera um HTML com Tailwind bonitinho, um servidor Node.js básico e um banco de dados SQLite. Tudo roda. O botão clica, a tela pisca, o deploy é feito. A dopamina bate forte. Você se sente um Deus da tecnologia. "Quem precisa de anos de estudo em algoritmos quando eu tenho o Claude 200?", você pensa.
E é exatamente aí que a armadilha se fecha.
A Armadilha Estatística: O Erro é uma Certeza Matemática
Vamos tirar o elefante da sala e falar de matemática básica, algo que a galera do hype adora ignorar.
Modelos de linguagem (LLMs) como GPT, Claude ou Llama são, por definição, modelos estocásticos. Eles não "sabem" programar; eles são máquinas de autocompletar glorificadas que calculam a probabilidade estatística do próximo token. Eles operam em um campo de incerteza probabilística, não de lógica determinística.
Isso significa que o erro não é um "bug" que será corrigido na próxima versão; o erro é uma característica intrínseca do modelo.
Em um sistema determinístico (o código que escrevemos manualmente), 2 + 2 é sempre 4. Se houver um erro, a culpa é da lógica. Em um modelo estatístico, 2 + 2 é 4 na maioria das vezes, mas pode ser 5 se o contexto da conversa pender para isso.
Não existe — e nunca existirá — um LLM que seja 100% preciso. Matematicamente, é impossível garantir que um modelo probabilístico forneça apenas a resposta correta o tempo todo, a menos que você zere a temperatura e restrinja o modelo a ponto de ele virar um banco de dados inútil. Ao usar Vibecoding, você está trocando a certeza binária da computação clássica pela aposta de um cassino. Você aceita que, estatisticamente, uma porcentagem do seu código vai estar errada, sutilmente quebrada ou insegura. E não há filtro no mundo que resolva isso, porque para filtrar 100% dos erros, você precisaria de um validador determinístico que soubesse a verdade absoluta — o que, ironicamente, é exatamente o que você não tem.
A Alucinação da Competência
O Vibecoding cria, portanto, uma camada de abstração que eu chamo de "Alucinação de Competência". Você não construiu um sistema robusto; você montou um castelo de cartas com uma fachada de mármore. O código gerado pela IA segue o "Caminho Feliz". Ele funciona para o caso de uso ideal, com dados ideais, no ambiente ideal.
Mas engenharia de software não é sobre o Caminho Feliz. É sobre o que acontece quando o usuário insere um emoji no campo de CPF, quando a API de pagamento dá timeout, ou quando você precisa escalar de 10 para 10.000 usuários simultâneos. A IA não pensa na arquitetura a longo prazo. Ela resolve o prompt atual.
O Muro da Realidade (The Wall)
O colapso acontece quando você precisa fazer a manutenção. E acredite, você vai precisar.
Chega o momento em que o produto precisa de uma regra de negócio específica, algo que foge do padrão estatístico que o LLM viu em seu treinamento. Você tenta explicar no prompt. A IA, presa em sua natureza probabilística, começa a alucinar. Ela corrige uma coisa e quebra três. Você insiste. Ela entra em loop, sugerindo a mesma solução errada cinco vezes seguidas com total confiança.
Nesse ponto, o "Vibecoder" descobre a verdade dura: você não consegue depurar o que não entende.
Se você não sabe ler o código que a IA escreveu, você é refém da aleatoriedade dela. E a IA, diferente de um estagiário, não aprende com o erro; ela apenas recalcula os pesos e chuta de novo. Você se vê com um sistema em produção, clientes reclamando, e sua única ferramenta é digitar "por favor, conserte" em uma janela de chat.
Dívida Técnica Exponencial
O custo do Vibecoding não é pago na entrada, é pago na saída, com juros compostos. Cada linha de código que você não revisou é um passivo. A segurança é o primeiro item a ser sacrificado. Chaves de API hardcoded, injeção de SQL mascarada, tratamento de erros inexistente... a lista de horrores que já encontrei em "MVPs de IA" daria para escrever um livro de terror.
Conclusão: A Ferramenta não é o Mestre
Não me entenda mal. Eu uso IA todos os dias. Mas eu a uso como um multiplicador de força, não como um substituto do intelecto. Eu sei exatamente o que ela está escrevendo, e na metade das vezes, eu reescrevo porque sei que a estatística jogou contra mim naquele momento.
Vibecoding é ótimo para protótipos descartáveis. Para qualquer coisa que precise durar mais que uma semana ou processar dados reais de clientes, é negligência profissional confiar em um gerador de texto probabilístico para fazer o trabalho de um engenheiro.
Se você quer sobreviver a essa bolha, pare de tentar "codar por vibração" e comece a entender a engenharia por trás da mágica. Caso contrário, quando a música parar e a estatística cobrar seu preço, você vai ser apenas mais um "prompter" desempregado com um produto que ninguém consegue consertar.
Se voce se interessou pelo assunto, recomendo ir para uma conversa mais densa:
https://www.tabnews.com.br/macnator/a-revolucao-da-inteligencia-artificial-so-que-nao-parte-4-se-voce-nao-ler-isso-voce-vai-ser-o-proximo-eu-avisei