Qual foi o real papel da TI, e qual será o novo?
Existe uma vaidade silenciosa na área de tecnologia. Não a vaidade do gênio que resolve o impossível, mas a de quem aprendeu uma linguagem que poucos falam e passou a se comportar como se isso fosse sabedoria. Trabalhei anos nesse ecossistema e aprendi a reconhecer esse tipo: o profissional que domina um nicho técnico, não consegue explicar o que faz para ninguém fora da bolha, e interpreta isso como superioridade.
O problema não é saber muito de pouco. O problema é parar de olhar para o lado.
Enquanto a TI se ocupava em disputar qual framework era mais elegante, profissionais de outras áreas estavam resolvendo problemas de verdade. O agrônomo que entende o comportamento do solo em condições específicas de microclima. O advogado que mapeou um sistema jurídico inteiro na cabeça e construiu estratégias que nenhum algoritmo teria pensado. O enfermeiro que otimizou um fluxo hospitalar inteiro na base da observação e tentativa. Nenhum deles sabia codificar. Por isso, durante anos, a TI não os enxergava como pares.
Esse foi o gatekeeping mais caro que o setor pagou, não em dinheiro, mas em inteligência desperdiçada.
A cultura técnica criou um critério de mérito baseado em sintaxe. Se você não escrevia código, não tinha voz no ecossistema. O que ninguém perguntava era: resolver um problema complexo com as ferramentas que você tem não é exatamente o que um bom programador faz? A diferença é que o médico usava papel, o agrônomo usava intuição, e o advogado usava linguagem, e nenhum desses era reconhecido como lógica computacional, mesmo quando era.
A IA está derrubando esse portão.
Em 2026, 77% dos advogados brasileiros já usam IA com frequência em suas atividades. Ferramentas de agentes de IA e plataformas no-code estão permitindo que profissionais de saúde, direito e agro construam soluções sem depender de um desenvolvedor. Uma brasileira de 24 anos ganhou um prêmio global do Google ao criar um aplicativo educacional em dois dias usando IA, sem ser programadora de formação. O código está deixando de ser o portão de entrada. A intenção passou a ser a nova linguagem.
E agora vem a virada incômoda: quando qualquer pessoa com clareza de problema e acesso a uma boa IA consegue construir uma solução, o que sobra de especial em saber programar?
Sobra o que sempre deveria ter sido o centro: entender o problema. Dialogar com quem vive o problema. Sair da caixa técnica e aprender com quem resolve de outro jeito.
Eu sou programador. E uso a IA exatamente para isso, para entender soluções de outras áreas, para conversar com problemas que não são meus por formação, para escrever código que nasce de perguntas que eu não teria feito sozinho. Não porque a IA me torna mais inteligente, mas porque ela me dá acesso a mundos que o gatekeeping técnico me ensinava a ignorar.
A TI teve um papel real: construiu a infraestrutura sobre a qual o mundo passou a funcionar. Isso não é pouco. Mas confundiu infraestrutura com protagonismo. Confundiu ferramenta com sabedoria.
O novo papel não é menor, é mais honesto. Somos trabalhadores que resolvem problemas. E os melhores problemas estão onde sempre estiveram: do lado de fora da nossa bolha.