A comunidade de tecnologia é inteiramente composta por cachorros (ou, por que devemos parar de publicar trabalhos técnicos na internet)
Quem me conhece há algum tempo sabe que geralmente critico influenciadores na área de tecnologia.
E, mais recentemente, tenho me afastado de qualquer exposição pública, palestras, participação em eventos que eu costumava ir.
Ontem, me deparei com um vídeo que toca justamente no sentimento por trás dessas decisões.
Em 2023, eu trabalhei junto ao @Theldus em um projeto de exploração de BIOS. Em uma parte do projeto, ele chegou a escrever um joguinho capaz de rodar inteiramente no cache da CPU, sem necessidade de memória RAM.
Tudo isso foi publicado, inclusive apresentado na H2HC daquele ano, mas completamente ignorado e esquecido.
Me surpreendeu ver ontem que um canal de YouTube americano chegou ao mesmo resultado independentemente, com duas diferenças:
- a primeira é que ele simplesmente usou o coreboot, sem produzir inovação em termos de código;
- a segunda é que ele conseguiu centenas de milhares de visualizações.
Para efeito de comparação, a demonstração do Theldus, publicada em 2023, tem menos de 500 visualizações.
Qualquer influenciador que se preste a abordar temas técnicos é um canalha com uma audiência de ignorantes.
Não é possível abordar temas complexos em um formato de fácil consumo para as massas.
Quem tenta fazê-lo acaba praticando a supersimplificação, tornando o conteúdo enganoso e improdutivo.
Infelizmente, os números provam que as audiências preferem ser enganadas.
Para quem tem escrúpulos e se recusa a ceder às táticas porcas de engajamento, o cenário é o pior possível.
Ter um projeto desacreditado e ignorado não é legal, mas também não é o fim do mundo — dá pra aceitar que ele talvez simplesmente não seja tão relevante assim.
Mas quando se encontra o mesmo projeto sendo repetido, elogiado, comentado e financiado por ter sido publicado por um influenciador, é destruidor.
É uma invalidação da sua própria existência. Faz com que você questione o seu próprio valor no mundo, e te leva a questionar todas as escolhas da sua vida.
Talvez seja verdade que nenhuma pessoa disposta a fazer um trabalho técnico sério deva tentar divulgar ele na internet.
O caminho talvez seja a formação de pequenas comunidades privadas, físicas ou virtuais, ao espírito de "A Revolta de Atlas."
Pra que publicar qualquer tipo de projeto, trabalho, ou compartilhar qualquer ideia, se a audiência se comporta como uma matilha de cães treinados que só obedecem aos apitos dos influenciadores e da grande mídia?
Eu, pessoalmente, vou continuar produzindo. É o que sempre fiz e o que me motiva a viver.
Mas não há condições de continuar escrevendo artigos, palestras, workshops, ou indo a eventos.
Principalmente quando, hoje em dia, os LLMs já estão avançados o suficiente para servirem como parceiros de discussão que compreendem e se engajam com os temas muito melhor do que a maioria dos humanos.
Eu havia submetido uma proposta de workshop ao FLISoL Rio, que ocorrerá em Abril. Embora tenha sido aceita, me vejo compelido pelas circunstâncias a retirá-la, mas notifiquei os organizadores e estou à disposição para auxiliar na transição para outra atividade, organizada por outra pessoa.
Também pretendo finalizar, ainda este mês, a retirada de qualquer presença não essencial minha na internet, como o meu site pessoal, perfis em redes sociais, as músicas publicadas, os artigos e repositórios como os do GitHub.
Meu objetivo em postar aqui é realmente inspirar o questionamento: vale a pena falar dos seus projetos no TabNews, quanto a audiência só quer saber do Deschamps? Ou de colocar repositórios no GitHub, quando alguém vai postar um vídeo simplificado (e errado) no TikTok e ganhar milhões de visualizações?
Fica a reflexão.